Evitar castigos severos e dar exemplo estão entre as orientações de especialistas para ensinar os filhos a não esconder a verdade

É muito comum pais e mães ouvirem do filho que não foi ele que quebrou o brinquedo, que não tinha lição de casa ou que não bateu no irmão menor. A mentira faz parte do universo infantil. Até por volta dos cinco anos, a falta da verdade mistura-se, muitas vezes, à fantasia. É o caso de inventar, por exemplo, que se tem um amigo imaginário. “A criança pequena não tem a intencionalidade da mentira. Ela não está tentando enganar o outro com suas histórias”, explica a psicopedagoga Maria Teresa Andion, membro do conselho da Associação Brasileira de Psicopedagogia e mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano, Ensino e Aprendizagem.

Manuela só contou para a mãe sobre um beijo no colega de escola quando percebeu que não seria castigada
Edu Cesar
Manuela só contou para a mãe sobre um beijo no colega de escola quando percebeu que não seria castigada




Embora a mentira tenha uma certa relação com a fantasia na primeira infância, ela deve ser combatida pelos pais desde sempre, mesmo com as crianças menores. Foi o que fez a bióloga Paula Ferro e Silva Capucho, quando o filho, Samuel, de 3 anos, estragou um brinquedo. “Ele não admitiu que quebrou, mas vi que tinha sido ele. Eu o chamei e disse que ele podia dizer a verdade, que não tinha problema”, conta a mãe.

O diálogo é mesmo a melhor opção para lidar com as mentiras da infância. Explicar que uma determinada atitude não é correta e mostrar as consequências que a falta da verdade pode acarretar é a postura que deve ser adotada pelos pais, seja qual for a idade da criança. “Quando a mentira é uma fase, geralmente na conversa a criança já cede. O problema é quando ela continua insistindo na mentira”, afirma a psicóloga Jéssica Fogaça, especialista em comportamento infantil.

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Segundo a psicanalista Celia Terra, professora do curso de Psicoterapia Infantil da PUC-SP, se os pais não agirem de modo correto, a mentira pode se tornar mais frequente e chegar a níveis mais graves, como a mitomania. “Ela pode se tornar um adulto associal no futuro ou até atingir uma linha de psicose e psicopatia”.

Para evitar problemas maiores, veja três lições indicadas por especialistas para lidar com as mentiras que as crianças contam.

Samuel, irmão de Manuela, estragou um brinquedo e não admitiu que tinha sido ele. Mãe apostou no diálogo para resolver a situação com o filho
Edu Cesar
Samuel, irmão de Manuela, estragou um brinquedo e não admitiu que tinha sido ele. Mãe apostou no diálogo para resolver a situação com o filho

1ª lição: Evite punições severas

De acordo com a psicanalista Celia Terra, toda criança tem uma fase de mentirinhas. A partir dos seis anos, no entanto, o problema precisa ser observado com mais cautela, já que a criança tem um pensamento mais elaborado e consegue dar desculpas mais bem construídas.

A mentira mais comum é a do tipo protetora, ou seja, aquela que a criança conta para evitar ser punida ou por medo de desagradar. É o caso, por exemplo, de quando a criança quebra um copo e coloca a culpa no irmão, porque tem receio de que os pais possam brigar com ela.

Neste caso, os adultos devem controlar a irritabilidade e simplesmente pedir que a criança tome mais cuidado da próxima vez. Não é preciso brigar, se exaltar, dar respostas abruptas nem castigos severos. “Se os pais punirem a criança, ela vai entender a mensagem que tem de elaborar melhor a mentira da próxima vez, e não a de que não pode mentir”, explica a psicóloga Jéssica Fogaça.

Manter a tranquilidade foi a estratégia adotada por Paula Ferro com a outra filha, Manuela, de 5 anos, ao descobrir que a menina tinha dado um beijinho no colega da escola. “Quando a confrontei de maneira mais agressiva, ela negou. Depois, fui abordando de forma mais branda até que ela falou o que tinha feito. Acho que só admitiu quando sentiu confiança e percebeu que eu não ia colocá-la de castigo”, diz.

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2ª lição: Explique as consequências

Ao constatar a mentira do filho, o ideal é dialogar, explicar porque é errado mentir. “Mas não precisa dar um sermão de duas horas”, orienta Jéssica. Os pais devem repreender, sim, e mostrar que a mentira pode ser perigosa ou prejudicar outras pessoas.

Para a psicopedagoga Maria Teresa Andion, se a criança não receber a orientação adequada, ou seja, se os pais não ensinam que é errado mentir ou se o fato “passa batido”, ela vai crescer com o hábito de enganar e de por a culpa por seus atos em outras pessoas. “Os pais devem ter um olhar de desconfiança, questionar olho no olho e dizer, de maneira firme, que não é legal mentir”, esclarece.

É o que acontece na casa da médica veterinárina Kátia Bizaroli, que procura estar sempre atenta ao comportamento da filha Bruna, de 10 anos. Certo dia, estranhou ao ver a palavra “pênis” no mecanismo de busca do computador. Mas quando questionou a menina, ela negou. “Dei bronca não porque ela pesquisou o assunto, mas porque ela mentiu. Para mim, a mentira é o ponto mais sério. A coisa errada tem um peso, mas a coisa errada com a mentira o peso é maior, pois quebra a confiança”, diz a mãe.

A médica veterinárina Kátia Bizaroli procura estar sempre atenta ao comportamento da filha Bruna, de 10 anos, para evitar mentiras em casa
Arquivo pessoal
A médica veterinárina Kátia Bizaroli procura estar sempre atenta ao comportamento da filha Bruna, de 10 anos, para evitar mentiras em casa

3ª lição: Dê você mesmo o exemplo

Sabe aquela mentirinha social, quando você não quer atender a um vendedor ao telefone e manda dizer que não está ou sai atrasado de casa e coloca a culpa no trânsito? Apesar de parecerem inofensivas estas mentiras servem de (mau) exemplo para as crianças. “Usamos de mentiras normalmente para evitar punições ou constrangimentos. E quando as crianças acham que os pais vão punir, usam da mesma estratégia: mentem ou omitem parte da história”, explica Jéssica Fogaça.

Mas se mesmo com atitudes verdadeiras perante os filhos a mentira permanecer, evite colocá-los em choque. Observe de perto, oriente e fique atento aos sinais. “Tudo o que a criança faz tem um sentido. Se ela inventa, isso existe na cabecinha dela. No entanto, se for algo persistente e intenso é preciso buscar auxílio profissional”, orienta Celia Terra.

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