Dores de cabeça na infância podem estar relacionadas a enfermidades, como alergias, infecções no ouvido e sinusites

NYT

Uma paciente estava perdendo muitas aulas na escola por conta das dores de cabeça. O exame físico estava completamente normal e os sintomas pareciam enxaqueca – ela relatava uma sensação latejante nos dois lados da cabeça, sentia-se mais à vontade quando o quarto estava às escuras e muito melhor ao tomar ibuprofeno.

Pedi que criasse um "diário da dor de cabeça", anotando quando aconteciam as crises, quanto tempo duravam, o que as fazia melhorar ou pior. Em vez disso, naquela noite, ela e a mãe terminaram no pronto-socorro, onde realizaram uma tomografia computadorizada da cabeça. O exame deu normal, o diagnóstico foi enxaqueca; mãe e filha sentiram-se melhores. Elas temiam que a garota pudesse ter um tumor cerebral.

Dores de cabeça são comuns em crianças, interferindo com a escola, com as atividades, com a vida em geral. Muitas crianças têm enxaquecas, até mesmo as jovens demais para descrever os sintomas. Às vezes, elas batem nas cabeças em reação à dor. Outras crianças têm dores de cabeça do "tipo tensional", às vezes ligada à rigidez muscular ou ao estresse.

Dores de cabeça são comuns em crianças, interferindo com a escola e atividades do dia a dia
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Dores de cabeça são comuns em crianças, interferindo com a escola e atividades do dia a dia

As dores de cabeça na infância podem estar relacionadas a enfermidades, desde alergias, passando por infecções no ouvido e chegando às sinusites, e na maior parte das vezes não indicam uma doença perigosa. Porém, para muitos pais, a sombra de um diagnóstico terrível espreita no canto do quarto às escuras onde uma criança com dor de cabeça está deitada com um pano molhado sobre a testa.

Tomografias e ressonâncias

Às vezes, as crianças com dores de cabeça necessitam de neuroimagem – tomografias e ressonâncias do cérebro. Porém, vários estudos recentes abrangentes levantaram dúvidas sobre tomografias realizadas em crianças porque a radiação do exame pode aumentar o risco de vir a desenvolver câncer, embora o risco geral ainda continue sendo muito pequeno.

Estipulou-se que os médicos sigam diretrizes criteriosas no uso desses exames, mas muitos pais ainda desconhecem os riscos e as diretrizes. Estudo publicado neste mês no periódico "Pediatrics" examinou um grupo enorme de crianças que passaram por pelos menos duas consultas médicas em função de dores de cabeça, sem apresentar traumas ou lesões na cabeça. Segundo os pesquisadores, mais de 25% delas fizeram tomografia.

Quem realmente precisa de neuroimagem? Os médicos se preocupam com uma dor de cabeça severa que piora, com quaisquer anormalidades no exame físico ou mudanças sugerindo uma patologia no cérebro. Tais mudanças podem variar de distúrbios no andar, movimentos dos olhos, confusão e letargia. Embora náusea e vômitos costumem acompanhar a enxaqueca, vômitos também podem indicar um aumento de pressão no cérebro. Pode ser um sinal de perigo em uma criança que teve concussão recente.

Sintomas do gênero logo levam a dor de cabeça ao reino de uma emergência neurológica. Dores de cabeça que acordem a criança ou ocorram somente de um lado também podem ser motivo de preocupação.

Exame de vista

Para crianças cujas dores de cabeça não se encaixam em um padrão claro de enxaqueca, o exame de vista é uma etapa importante do diagnóstico, disse Andrew Lee, neuro-ofaltmologista do Methodist Hospital, Houston. O exame também é crítico caso os pais tenham percebido olhos se cruzando.

Em situações sérias, o exame ocular pode revelar sinais de pressão elevada no cérebro. Em um nível mais trivial, o exame pode constatar que a dor de cabeça da criança é causada por vista cansada.

"Os pais talvez não notem até a idade de leitura, na terceira ou quarta série", disse Lee. As dores de cabeça que surgirem nessa época, e são pioradas pela lição de casa ou leitura, podem ser tratadas com óculos para corrigir a visão deficiente e exercícios para fortalecer os movimentos dos olhos.

E ainda temos a concussão. Segundo estudo de 2012 que examinou crianças com trauma na cabeça, três meses após as lesões, muitas relataram dores de cabeça. Na maior parte das vezes, elas melhoram, mas algumas terão cefaleias durante meses, e uma parcela muito pequena pode ser acompanhada por ela durante mais de um ano.

Heidi Blume, neurologista pediátrica do Seattle Children's Hospital e principal autora do estudo, citou a tática “Smart” para ajudar as crianças a lidarem com as dores de cabeça recorrentes. "S" é de sono, o qual deve ser o suficiente. "M" é para não pular refeições e beber para se manter adequadamente hidratado. "A" é de atividade física, pois seu excesso ou falta pode levar a dores de cabeça. "R" é de relaxamento. "T" representa os gatilhos a serem evitados, como fumaça de cigarro ou determinados tipos de comida.

As crianças podem tomar analgésicos (paracetamol e ibuprofeno, entre outros), mas não devem usar aspirina. Quem tem enxaqueca também pode ser beneficiado com remédios preventivos. Orientação e biofeedback são importantes. As dores de cabeça podem ser desencadeadas pelo estresse, e viver com dor crônica pode provocar depressão. Um objetivo das clínicas de dor de cabeça é fazer as crianças voltarem à escola e ajudá-las a dar conta de suas atividades regulares, evitando os gatilhos da dor.

"Muitas crianças vão superar as dores de cabeça", disse o Daniel Bonthius, professor de pediatria e neurologia da Universidade de Iowa. "A medicina moderna ainda não compreende por que acontece a dor de cabeça e por que ela desaparece."

* Por Perri Klass

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