Após separação dos pais e casamento deles com outras pessoas, filhos passam a fazer parte de novo núcleo familiar maior e mais diverso

O empresário e ex-jogador Ronaldo tem quatro filhos de três relacionamentos. É comum se deparar com fotos de todos – Ronaldo, os filhos e as ex-mulheres – comemorando aniversários e datas importantes juntos. Os atores Nívea Stelmann e Mário Frias, pais de Miguel, a atual esposa de Mário, Juliana Camatti, e a filha do casal, Laura, são vistos juntos com frequência e sinalizam uma boa convivência em família. O cartunista e empresário Maurício de Souza tem dez filhos de diversos casamentos e, hoje, vive com uma de suas ex-mulheres. A apresentadora e atriz Diana Bouth ressalta o ótimo convívio dos pais, mesmo depois da separação e de ambos terem constituído novas famílias.

Maurício de Sousa e seus dez filhos. Depois de quatro casamentos, ele vive com Alice Takeda, uma de suas ex-mulheres
Arquivo pessoal
Maurício de Sousa e seus dez filhos. Depois de quatro casamentos, ele vive com Alice Takeda, uma de suas ex-mulheres




“Nunca planejei um grupo familiar deste tipo, aconteceu de maneira natural. Talvez pelo meu temperamento de construtor”, conta o cartunista e empresário Maurício de Sousa, que passou por quatro casamentos e teve dez filhos, 11 netos e um bisneto. Atualmente vive com Alice Takeda, uma de suas ex-mulheres. “Os términos não foram traumáticos, acho que contei com um pouco de sorte”, declara bem-humorado.

Do outro lado do balcão, a experiência de Diana Bouth também é positiva. Filha única até os dez anos de idade, ela conta que, depois da separação dos pais, Marcos Bouth e Ângela Figueiredo, e do casamento deles com outras pessoas, aprendeu a conviver com dois novos núcleos familiares que se formaram. “A nossa família é gigante, uma colcha de retalhos. Brinco que meu filho Pedro, de seis anos, tem um monte de vovôs. Um por parte de pai e dois por parte de mãe. Ele adora!”. Diana afirma que o relacionamento de toda a família é ótimo. “Meu pai é padrinho do Joaquim, filho caçula da minha mãe com Branco (Mello, padrasto e músico). Os dois têm um ótimo relacionamento. Na minha família, é tudo bem resolvido, muito bonito de ver.”

Apesar de mais evidente entre os famosos, esse quebra-cabeça onde filhos de casamentos anteriores e de atuais passam a conviver em um novo núcleo familiar maior e mais diverso não ocorre apenas no meio artístico ou em novela. A nova configuração familiar do século XXI, chamada de família mosaico ou reconstituída, está consolidada e pode ensinar muito tanto aos pais quanto aos filhos, seja através do convívio com a diversidade ou do aprendizado necessário para respeitar o espaço do outro.

“Hoje, é normal ter dois lares, duas famílias e vários descendentes”, diz a psicóloga Rita Khater, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. Ela lembra que o modelo unicelular, constituído pelo casal e seus filhos, deixou de imperar com a legalização da lei do divórcio, em 1984. “É um direito de todo o ser humano se reconstruir”, afirma.

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Os filhos dos casamentos anteriores de Jaqueline e Paulo se relacionam bem desde o primeiro encontro
Arquivo pessoal
Os filhos dos casamentos anteriores de Jaqueline e Paulo se relacionam bem desde o primeiro encontro

Dedicação e cuidado

Apesar de ser bem aceita atualmente, a família reconstituída não é formada do dia para a noite. As relações precisam ser construídas e isso dá trabalho. “Exige mais dedicação, delicadeza, mais cuidado, mas é possível”, observa a psicóloga de casal Magdalena Ramos, que faz parte de uma família reconstituída. “O convívio inicial com a filha do meu marido foi complicado, a gente não se entendia. Tínhamos ciúmes uma da outra. Depois de muito trabalho psicológico, hoje nos damos muito bem”, recorda Magdalena, sobre seu papel de madrasta.

Mas, se muitos desses processos de readaptação são complicados, a boa notícia é que a desconstrução dos vínculos nos dias de hoje parece bem mais facilitada. Para a psicóloga Tânia Zagury, autora do livro “Filhos: Manual de Instruções” (Ed. Record), houve uma naturalização dos novos costumes, e as pessoas passaram a renovar mais os laços. “É um desafio da atualidade conviver com a diversidade humana, e isso é muito positivo”, afirma a psicóloga Luize Garé.

Foi com essa naturalidade contemporânea que a analista de sistemas Jacqueline Ferreira e seu marido, Paulo, entrosaram a bagagem que traziam de relacionamentos anteriores. Ela já era mãe de Gabriela, hoje com 17 anos; ele tinha dois filhos de uma ex-mulher – Bruno, hoje com 25, e Natália, com 23 – e um de outra – Leonardo, com 20. Casados há 15 anos, são pais de Victor, de 14. “Todos nos demos bem desde o primeiro contato. Conheci as crianças dele em um churrasco e a Natália gostou da Gabriela de cara, porque sempre quis ter uma irmã. E o Paulo foi excelente com a Gabi desde o começo, ele adora crianças. Nunca aconteceram estranhamentos fortes”, afirma.

Para Jacqueline, a tranquilidade geral deve-se muito ao fato de ambos manterem boas relações com os ex-companheiros. “O pai da Gabi sempre está aqui em casa, as ex-mulheres do Paulo também, até porque a Natália e o Leonardo moram com a gente. Já houve mais de um Natal que passamos todos juntos”, conta. Uma aresta para acertar aqui e ali, é claro, apareceu. Mas sem dramas, como ela lembra: “Com muitas crianças, criadas por mães diferentes, cada uma com um gosto, até fazer uma refeição fica complicado. Algumas coisinhas irritavam. Respiramos fundo e resolvemos na base da conversa. Nunca deixamos um estresse durar muito tempo”.

O resultado é uma família harmoniosa e feliz. “Os cinco se consideram irmãos, mesmo não sendo todos do mesmo pai e da mesma mãe. E tanto o Paulo como eu sempre tivemos o respeito e o carinho dos filhos que trouxemos”, diz, satisfeita.

Porém, não se pode dar como certo que todas as crianças aceitarão os novos parceiros dos pais tranquilamente, e que os enteados serão obedientes diante de uma nova dinâmica, estabelecida por normas diferentes do que estavam habituados. “O ideal é que o enteado seja tratado com amor, como se fosse um filho. É preciso definir limites para que não haja choque de autoridade. ‘Até onde eu posso ir?’”, alerta Tânia Zagury.

Laços afetivos

Como efemeridade e imediatismo são traços da nossa era, em que tudo é descartável, é importante ter critério ao firmar o relacionamento antes de levar o novo parceiro para dentro de casa. “Joga-se fora a fralda, o coador de café e o companheiro também”, diz Rita. “É mais fácil descartar do que tentar consertar”, confirma Luize Garé.

Daí a importância de construir vínculos mais respeitosos, menos superficiais. “Não se pode trocar de família como se troca de roupa, é preciso responsabilidade de todos os participantes deste mosaico”, pondera Rita Khater. Pais que colocam muitos parceiros dentro de casa precisam ter cuidado. Seus filhos podem adquirir resistência em criar laços afetivos. “Esta criança se tornará um adulto com dificuldade de se firmar em relacionamentos”, diz Rita.

Por isso é fundamental ter diálogo com as crianças a fim de ajudá-las a lidar com as mudanças em casa, como sugere Jacqueline: “A grande lição que passamos para nossos filhos é que o amor é o mais importante. Uma família tão grande e tão diversa não tem a ver com modernidade, mas com o direito que todos temos de buscar a felicidade. Conversamos muito, temos confiança mútua. Mas, no dia a dia, não somos tão modernos assim. Damos a eles liberdade vigiada, como toda família, independentemente de sua constituição”.

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