Muitas vezes involuntários, movimentos bruscos dos filhos, como chutes, cabeçadas ou socos, podem causar ferimentos graves. Veja como se proteger

NYT

Quando Carter Rosengarten tinha dois anos de idade, ele pegou um carrinho de brinquedo e, imitando um personagem de filme muito popular, Kung Fu Panda, bateu no rosto da mãe. Sarah Rosengarten, 27 anos, terminou no pronto-socorro, onde os médicos diagnosticaram uma fratura linear (fina como um fio de cabelo) na mandíbula. Cansada, ela afirmou que "crianças podem ser perigosas".

Crianças pequenas costumam cutucar os olhos dos pais, provocando lesão na córnea
Thinkstock/Getty Images
Crianças pequenas costumam cutucar os olhos dos pais, provocando lesão na córnea






Embora muita atenção seja dispensada à segurança de bebês e crianças pequenas, seus socos repentinos, mordidas, cabeçadas e chutes podem provocar machucados em quem cuida delas, principalmente nos pais. Depois que a filha de dois anos lhe deu um soco logo abaixo do olho, provocando um belo olho roxo, Alaina Webster, 31 anos, cunhou um termo em seu blog para descrever esse problema comum: "violência involuntária contra os pais" (VICP).

Em um "anúncio de serviço público" no blog Absolute Uncertainties, Webster conclamou os pais que já apanharam a se manifestar: "você vai contra-atacar os tiranos de 75 centímetros que estão tomando conta de nossas subdivisões ou deixará pais inocentes serem espancados até ficarem submissos simplesmente por amarem demais os filhos?".

Segundo médicos de pronto-socorro, pediatras e outros especialistas, a VICP não é brincadeira. Com crianças pequenas imprevisíveis, refeições, banhos ou até mesmo abraços podem terminar muito errado. Embora seja difícil encontrar estatísticas de ferimentos causados por crianças, os pais costumam sofrer concussões, dentes lascados, lesões de córnea, fraturas nasais, cortes nos lábios e lóbulos rasgados, entre outros.

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"Estamos lidando com seres humanos maravilhosos que não podem ser persuadidos logicamente, que são impulsivos e mais fortes e velozes do que se pensa, além de não entenderem as consequências de seus atos", disse Benjamin Hoffman, diretor médico do Centro de Segurança Infantil Tom Sargent, do Hospital Infantil Doernbecher, Portland, Oregon.

Lesões comuns

Bebês de cabeça bamba oferecem um risco particular, mas mesmo depois de passarem a controlar a cabeça ao redor dos seis meses, os pais devem continuar a tomar cuidado. "Até mesmo quem está aprendendo a andar, que tem um controle maior, ainda não tem consciência física do corpo – é muito fácil para eles baterem a cabeça por acidente em você", disse Allison Brindle, pediatra do Cleveland Clinic Children's Hospital.

Crianças pequenas costumam cutucar os olhos dos pais, provocando lesão na córnea ou hemorragias subconjuntivais, também conhecidas como olho vermelho. Um motivo: "as crianças podem ter muita curiosidade em relação a óculos", afirmou Ramona Sunderwirth, pediatra do setor de emergência do St. Luke's-Roosevelt Hospital Center, Nova York. Ela fala de experiência própria: quando pequena, arranhou a córnea da mãe.

Kara Kastan, 32 anos, que trabalha em uma organização sem fins lucrativos, sofreu lesões na córnea quando o filho tinha três meses e, novamente, aos dois anos de idade. "Meus reflexos simplesmente não foram rápidos o bastante para me afastar quando ele tentou me agarrar. Doeu muito."

Preocupada em perder a visão para sempre, ela correu ao pronto-socorro na primeira vez, recebeu antibióticos e usou um curativo ocular durante um breve período. Depois disso, tentou ficar de óculos quando estava perto do filho. No segundo ferimento, "eu claramente havia relaxado na decisão de usar óculos".

Embora seja difícil encontrar estatísticas de ferimentos causados por crianças, pais costumam sofrer concussões, dentes lascados, lesões de córnea, entre outros
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Embora seja difícil encontrar estatísticas de ferimentos causados por crianças, pais costumam sofrer concussões, dentes lascados, lesões de córnea, entre outros

Evite ferimentos

Os pais podem "jogar na defensiva", explicou Jennifer Shu, autora de "Voltando para Casa com o seu Bebê: Do Nascimento à Realidade". Ela aconselha que os cuidadores monitorem atentamente o desenvolvimento da criança. "Você pode dizer: 'não cutuque o olho da mamãe'. Contudo, se não entenderem, você sabe que terá de se manter atento com eles."

Machucados como lóbulos rasgados costumam ocorrer quando bebês ou crianças pequenas agarram brincos. "Qualquer coisa solta pode ser perigosa, tais como colares, cabelo comprido e brincos de argola. Faça um coque e opte por outros tipos de joias."

Shu também aconselha a cortar com frequência as unhas das crianças e manter armas potenciais fora do alcance. "Algo que você nunca consideraria perigoso pode ser arriscado nas mãos de uma criança – algo tão inócuo quanto uma colherinha de café, por exemplo."

Outra recomendação: uma boa noite de sono. Pesquisas mostram que dormir pouco, fato comum entre pais de crianças pequenas, pode reduzir as habilidades motoras. Por exemplo, "a sensação de desviar de uma bola ou algo que vai bater em você", disse Ana C. Krieger, diretora do Centro de Medicina do Sono da Faculdade de Medicina Weill Cornell, de Nova York.

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Debra S. Holtzman, autora de "The Safe Baby: A Do-It-Yourself Guide to Home Safety and Healthy Living" (“o bebê seguro: guia faça você mesmo de segurança no lar e vida saudável”, em tradução livre), concorda com a opinião acima. "Um pai bem descansado estará mais alerta e será mais fisicamente capaz de desviar do chute."

O lado bom

Pais que levaram golpes inesperados podem não saber como reagir – a agonia consegue sobrepor temporariamente o instinto protetor. A idade da criança e a forma pela qual o machucado aconteceu podem ditar se os pais devem demonstrar ou tentar conter a dor.

"Em algum momento entre os 18 meses e os dois anos, a maioria das crianças vai começar a compreender o conceito de que suas ações têm consequências", afirmou Hoffman, que sugere que os cuidadores feridos devem avaliar se foi um acidente ou comportamento repetitivo. "Qual é o propósito de mostrar dor? Se você deseja mudar um comportamento, sim. Se for um acidente completamente gratuito, talvez não seja a melhor ideia."

Rahil D. Briggs, professora assistente de pediatria na Faculdade de Medicina Albert Einstein, de Nova York, acredita que algo bom pode provir de um machucado feio. Segundo ela, o desenvolvimento infantil se dá por meio de um processo conhecido como ruptura e reparação. "A criança compreende que mesmo que as coisas não sejam sempre perfeitas e existam rupturas, nós, enquanto um sistema de pai e filho, podemos sobreviver àquilo. Existe uma reparação: 'Ah, veja, nós somos mais resistentes do que acreditávamos'."

Alguns cuidadores machucados lutam com o nervosismo quando seus filhotes estão por perto. Quatro anos atrás quando jogava bola, o filho de três anos de Amanda Swanson, Patrick Lee, trombou na avó, quebrando seu nariz e provocando uma concussão. "Até hoje, minha mãe tem a tendência de se esquivar e se defender quando ele vem correndo", Swanson explicou por e-mail.

Porém, especialistas em desenvolvimento infantil pedem que pais e cuidadores tentem superar rapidamente medos residuais e retomar a proximidade física com as crianças. "Olhar a criança dentro do olho e deixá-la ver seu rosto ajuda muito no desenvolvimento verbal, social e emocional", disse Brindle. Além de promover a intimidade, brincadeiras brutas auxiliam as crianças a ganhar habilidade motora.

Para Rosengarten, cujo filho a socou com um carro de brinquedo, absorver um golpe inesperado teve consequência imprevisíveis. Uma tomografia computadorizada detectou uma lesão no maxilar, que veio a ser diagnosticada por médicos da Cleveland Clinic como tumor marrom, sinal de insuficiência renal crônica. Felizmente, a irmã doou um rim para ela no ano passado.

Rosengarten agora vê o carrinho de brinquedo no rosto como um soco de sorte. "Foi um sinal de Deus que salvou minha vida."

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