Crianças procuram tratamento para acne cada vez mais cedo

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Idade mínima para aparecimento de cravos e espinhas passou de 12 para sete anos, de acordo com nova diretriz médica nos EUA

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Médica sugere que mudança de mentalidade talvez esteja estimulando aplicação de tratamentos mais intensos em idades cada vez mais precoces

Se seu filho de 10 anos tem acne, saiba que ele não é o único e nem o mais novo a apresentar cravos e espinhas. De acordo com novas diretrizes de tratamento publicadas no periódico americano Pediatrics, a idade mínima para o aparecimento de acne passou de 12 para sete anos.

Com o início prematuro da adrenarca (maturação funcional da glândula adrenal) e da menarca (primeira menstruação), os autores das diretrizes sugerem que "parece estar ocorrendo uma diminuição da idade de aparecimento da acne".

"Eu certamente verifiquei uma mudança", afirma Latanya T. Benjamin, dermatologista do Hospital Infantil Lucile Packard, em Stanford, que não contribuiu na elaboração das diretrizes. "Não é incomum aparecerem crianças de sete ou nove anos apresentando os primeiros sinais de acne", declara.

Mas esse possível início precoce da puberdade em crianças vem sendo assunto de discussão científica. A causa mais provável do aumento dos casos de acne, afirmam os especialistas, é o aumento da intolerância dos pais que buscam tratamento mesmo que a condição não incomode as crianças e a maior disposição dos médicos em fornecer tratamentos eficazes contra a acne infantil. Apesar de amplamente receitados, os medicamentos não são aprovados para uso em crianças e apenas alguns foram testados em garotos tão jovens.

Mudança de mentalidade

De acordo com um estudo publicado em 2011 no periódico Pediatric Dermatology, que avaliou cerca de 93 milhões de consultas médicas relacionadas com acne de meninos e meninas de seis a 18 anos, a idade média dos pacientes em busca de um tratamento para a acne diminuiu ligeiramente de 1979 a 2007, passando de 15,8 para 15 anos. A porcentagem de consultas relacionadas à acne de crianças de seis a oito anos aumentou de zero para 1,5%.

Especialista em dermatologia pediátrica, Anne W. Lucky ressalta que mais crianças de 12 anos afirmam que sua acne iniciou "dois ou três anos antes" quando visitam seu consultório, em Cincinnati. Os pacientes que chegam encaminhados pelos pediatras agora são mais novos, afirma a médica.

Mas Lucky não está convencida de que mais pré-adolescentes têm acne atualmente. Um estudo realizado pela médica em 1994 descobriu que entre 365 garotas com nove e 10 anos, 78% tinham acne.

Ela sugere que uma mudança de mentalidade talvez esteja estimulando a aplicação de tratamentos mais intensos em idades cada vez mais precoces. "Há 20 anos, os pediatras diziam: 'você vai ficar livre delas quando crescer', mas o pensamento de hoje é 'por que esperar até que o paciente cresça se é possível tratar mais cedo?'", afirma Lucky, que tem trabalhado como consultora para a Galderma, marca de produtos dermatológicos.

Para complicar a questão, dermatologistas e pediatras relatam que, muitas vezes, os pais estão mais interessados do que as crianças na busca de um tratamento. "Alguns pais são perfeccionistas", afirmou Benjamin, que foi consultor da Ortho Dermatologics, fabricante de medicamentos dermatológicos. Mas a maioria simplesmente "não quer que os filhos fiquem aborrecidos, sejam importunados ou sofram bullying na escola por causa da acne." Posição que não parece ser compartilhada com todos os pacientes. Muitos, segundo Benjamin, não estão "focados no aspecto da acne" e quando eles têm sete ou oito anos, dizem: "posso ir jogar videogame?".

Lisa M. Asta, pediatra de Walnut Creek, na Califórnia, costuma determinar primeiro quem está incomodado com a acne. "Meu preceito geral: o cuidado rotineiro com a pele é suficiente se a acne não vai deixar cicatriz e o pré-adolescente ou adolescente precoce não está incomodado com a condição", afirmou. Caso a prescrição seja necessária, Asta também considera seu valor. "Minha avaliação consiste em encontrar o ponto ideal, um tratamento que a criança aceite, que funcione e seja acessível."

Irritada

Entretanto, alguns realmente querem tratar sua acne. Aos 11 anos, Salma El-Badry não gostou da mudança de seu corpo em desenvolvimento. "Ela ficava irritada se tivesse uma festa e precisasse esconder a espinha", afirmou a mãe, Nahla Hedayet. "Nessa idade, isso é um grande drama."

Elas resolveram consultar a pediatra de Salma, que prescreveu de início peróxido de benzoíla e depois ácido retinoico. Seu rosto ficou livre da acne. Agora, porém, Salma tem 12 anos e pratica natação e afirmou que "a pele ficou bastante irritada e dói muito."

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Maioria dos medicamentos contra acne é prescrita sem a aprovação de seu uso para menores de 12 anos

Medicamentos

Uma acne precoce significativa pode indicar lesões mais graves no futuro. "Se seu filho de nove anos tem acne de grau moderado, a probabilidade de ele vir a ter acne severa é muito alta", afirmou Lawrence Eichenfield, chefe de dermatologia pediátrica e de adolescentes do Hospital Infantil Rady, de San Diego, e presidente das novas diretrizes de tratamento. Os autores estiveram reunidos na Sociedade Americana de Acne e Rosácea. Entre os patrocinadores estavam empresas farmacêuticas como Galderma e Valeant, mas elas não influenciaram na elaboração das diretrizes.

Ao reconhecer a acne em idade precoce, os médicos "podem minimizar as cicatrizes físicas e o impacto emocional da acne", afirma Eichenfield, que tem sido consultor da Galderma e da Medicis.

A maioria dos medicamentos contra acne é prescrita sem a aprovação de seu uso para a faixa etária, o que significa que os testes clínicos foram realizados em pacientes com mais de 12 anos. A exceção é um gel, que contém uma substância retinoide e peróxido de benzoíla, aprovado em fevereiro pela FDA (Food and Drug Administration) para o uso em crianças com idade mínima de nove anos.

Sem tratamento, a acne severa pode deixar cicatrizes permanentes, e causar hiperpigmentação (manchas escuras) na pele, que pode incomodar uma criança mais do que as espinhas. "Elas se preocupam com os pontos marrons", afirmou Lucky. "Estamos falando de meninos e meninas de sete, oito e nove anos que têm aparência diferente das outras crianças."


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