Alberto Jorge Guimarães, defensor do parto humanizado, apoia campanha que promove parto normal e ressalta importância da privacidade da mulher durante o procedimento

“Hoje em dia, muitas mulheres que passaram por uma cesárea no nascimento do primeiro filho optam pelo parto normal para ter o segundo porque cai a ficha de que faltou algo”. É com essa reflexão que o ginecologista e obstetra, defensor dos conceitos de parto humanizado e criador da Parto sem Medo , Alberto Jorge Guimarães, define a importância de se repensar como as mulheres dão à luz seus filhos. 

* Fotos cedidas pela Parto do Princípio

Justamente de olho nessa necessidade, a Parto do Princípio, organização que nasceu com o objetivo de fornecer informações sobre gestação, parto e nascimento, promove, entre os dias 21 e 27 de maio, a Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento com uma exposição de fotos que trazem mensagens sobre como as mulheres se sentiram durante o parto dos filhos. O tema deste ano da campanha, celebrada em vários países desde 2004, é "Não perturbe: estou parindo!" e quer sensibilizar sobre o respeito à privacidade da mulher durante o parto.

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De acordo com Alberto, defensor da campanha, a iniciativa é importante para que a mulher resgate a confiança nela mesma e entenda que o parto normal é o fechamento ideal da gestação. “Precisamos entender que os bebês podem nascer de outras formas, sem ser através da cesárea. É uma reflexão para que a gestante resgate a sensação interna de que ela é capaz de ganhar um bebê sem cirurgia”, afirma. “O parto deve ser encarado como um desafio que completa um ciclo de maturidade da mulher adulta para ela poder ter um filho”, ressalta Alberto. Confira entrevista com o médico:

iG: Qual o objetivo da exposição “Não perturbe: estou parindo!”?
Alberto Jorge Guimarães: Essa exposição é uma reflexão sobre a importância de um momento especial, o parto. A expressão “não perturbe” é muito interessante porque culturalmente nós achamos que uma mulher em trabalho de parto precisa ser conduzida, cuidada, mas, na verdade, eu tenho visto que se conseguirmos respeitar o momento, dando o acolhimento necessário, sem paparicar e sem ficar estimulando a gestante toda hora, como se estivéssemos ensinando a mulher a parir, ela evolui de maneira mais natural no trabalho de parto.

iG: O senhor declarou que esse tipo de iniciativa é muito importante para resgatar a “forma de nascer”. Do que se trata esse resgate?
Alberto Jorge Guimarães: Precisamos refletir e entender que podemos nascer de outras formas, sem ser através do parto cirúrgico, a cesárea. É uma reflexão para que a gestante resgate a sensação interna de que ela é capaz de ganhar um bebê sem cirurgia. O parto pode ser resolvido por ela mesma, não por outras pessoas. A gente tem essa tendência de buscar a resolução das coisas fora, dependendo do hospital e dos profissionais da saúde, mas o parir é muito mais uma força interna. Claro que essa gestante precisa ser bem avaliada e contar com uma rede de segurança, mas necessariamente quem deve ganhar o bebê é a mulher. Ela precisa entender que dá conta do recado.

O parto é um trabalho. Tanto que chamamos de 'trabalho de parto' e, como todo trabalho, requer esforço e dedicação

iG: Por que o senhor acha que a mulher deve optar por parto normal diante de uma opção sem dor e com hora marcada, como o caso da cesárea?
Alberto Jorge Guimarães:
Quando uma gestante chega pensando assim explico que eu, o obstetra, não sei parir. Ela é a gestante e é ela que terá esse filho. Na ausência de nenhuma patologia ou indicação, a mulher está na plenitude da forma dela. Tem todos os recursos para ela mesma ganhar o bebê. A questão da dor é relativa, pode não ter dor no dia da cesárea, mas pode ter depois. É uma cirurgia, tem ponto. Além disso, essa mulher perde a chance de crescer, de amadurecer. O parto normal dá ao bebê o poder de nascer maduro, pronto. Ele não vai sair do útero da mãe quase pronto. Vai sair pronto. Esse bebê terá menos problema respiratório e a mãe terá mais facilidade para amamentar. A mulher que pari desenvolve um vínculo muito importante. Ela pari, pega o filho no colo e sabe que é dela. É um bebe parido. É diferente quando é cirúrgico. O obstetra tem que ajudar essa mãe, que ainda não se deu conta do papel dela, a identificar tudo isso. Hoje em dia, muitas mulheres que passaram por uma cesárea no nascimento do primeiro filho optam pelo parto normal para ter o segundo porque cai a ficha de que faltou algo.

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iG: Uma das impressões mais associadas ao parto normal é a de que o procedimento traz muito sofrimento, muita dor para a mulher. Quanto de verdade existe nessa imagem?
Alberto Jorge Guimarães: O parto deve ser encarado como um desafio que completa um ciclo de maturidade da mulher adulta para ela poder ter um filho. Não deve ser romantizado, não é tudo mil maravilhas. A dor do trabalho de parto deve ser integrada, mas a dor não pode ser entendida com visão de sofrimento. Tem que ser pensada como um meio, como uma característica. A dor do parto vem, empurra o bebê, o útero relaxa e não tem mais dor. As contrações são um processo mecânico. Se a mulher encarar dessa forma, como um desafio, e que a contração é um desconforto que vem e vai, ela terá mais firmeza para completar esse ciclo. Defendo o parto em ambiente hospitalar e existem meios de amenizar a dor durante o parto normal. Entretanto, muitas vezes acho que não precisa da anestesia mesmo. Gemer faz parte do parto. É muito comum que, uma vez que o bebê nasce, todo o processo ser apagado da mente da gestante. Ela esquece a dor instantaneamente, vibra, valida o esforço com a presença do filho. A trajetória não é tão fácil mesmo. O parto é um trabalho. Tanto que chamamos de “trabalho de parto” e, como todo trabalho, requer esforço e dedicação.

iG: Existe um esforço para valorizar o parto normal no Brasil. São campanhas, blogs e comunidades na internet dedicadas a assegurar essa escolha à mulher. Qual avaliação o senhor faz desse movimento?
Alberto Jorge Guimarães: A sensação que tenho é que existe um grupo que questiona, pensa e é formador de opinião. Acredito que chegará o momento, com ajuda dessas iniciativas, que a mulher não fará mais uma cesárea por fazer, sem indicação. É um movimento civil, é a sociedade difundindo a ideia de que a mulher é a figura central no nascimento do filho. Essa demanda da mulher fará com que o médico repense a indicação de um parto cirúrgico. A paciente jovem que chega no consultório já pedindo cesárea não está errada. Mas o profissional da saúde precisa destrinchar esse desejo e esclarecer as dúvidas. O médico sabe dos benefícios do parto normal e o quanto ele é importante para completar o ciclo da gestação. Além disso, acho que esse movimento está ajudando a mudar a ideia que tínhamos no passado de que parto normal era para gente pobre e cesárea era coisa de gente rica.

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