“Passei a vida toda pensando nessa criança. Procurava em todos os lugares meninos que tivessem alguma semelhança comigo", conta Denise Kusminsky, que acaba de lançar livro

Renata Reif
"Minhas quatro filhas me deram muita alegria de ser mãe. Mas eu nunca esqueci o meu filho", conta Denise

Foram 34 anos pensando em um filho que ela não teve a oportunidade de criar. Era como se faltasse um pedaço de si. É assim que a paulistana Denise Kusminsky define sua vida depois de entregar o filho que teve aos 18 anos para adoção. Hoje, após revê-lo, a autora do livro “Reencontro” (Ed. Ágora) respira aliviada e dorme melhor. No entanto, o desfecho positivo não a fez esquecer as marcas que o episódio deixou. O choro do primogênito de quando deu à luz lhe tirou muitas noites de sono. “Ficou impregnado em mim”, revela ao iG .

Denise engravidou em uma época em que o sexo era tabu. O namorado não quis assumir a paternidade. Foi então que ela se viu sem saber como agir: ser mãe solteira não estava em seus planos, tampouco abortar era uma opção. “Quando ouvi o coração dessa criança, resolvi: ‘Ela tem que viver’”, lembra.

Um dos médicos consultados prontificou-se a realizar o parto e entregar o recém-nascido a uma família que proveria o melhor para ele. Para que ninguém do convívio de Denise soubesse da gravidez, ela passou meses na casa dos pais deste médico, como se estivesse participando de um intercâmbio nos Estados Unidos.

Em uma tentativa de romper o vínculo entre mãe e filho, o bebê veio ao mundo por meio de uma cesárea, com Denise anestesiada. Não funcionou. Cinco anos depois do nascimento, já casada com o atual marido, ela tomou a decisão de procurá-lo. Porém, foi desaconselhada pelos advogados e precisou conviver com a distância dia após dia.

Há três anos, Sylvio (pseudônimo usado no livro) fez contato com a mãe biológica e eles se reencontraram. “Fiquei desconcertada. Eu não sabia nem dizer meu nome”, conta, referindo-se ao seu estado de ansiedade no dia em que marcaram de se encontrar para comer pizza. Na entrevista concedida ao iG, Denise conta como foi a experiência de reencontrar o filho mais de três décadas depois de tê-lo entregue para adoção.

iG: Por que não optou por ser mãe solteira?
Denise Kusminsky: Naquele tempo era difícil para uma mulher ter um filho sozinha. Eu vim de uma época de ditadura, em que não se falava de sexo. Tive um namoro de três anos e meu namorado queria um aborto. Ele se achava muito jovem para assumir a paternidade, então eu não tinha outra opção. Ao invés de uma família, ele me ofereceu um aborto. Passei por vários médicos, mas nenhum me convencia de que o procedimento era a melhor solução. E quando ouvi o coração dessa criança, resolvi: “Ela tem que viver”.

iG: O que fez depois de decidir que não abortaria?
Denise Kusminsky: Rompi com este namorado. Meus pais e eu estávamos atônitos sem saber o que fazer quando conhecemos um médico que nos sugeriu a adoção. A família adotiva era parente dele e o médico confiava que o menino teria um lar melhor do que eu poderia oferecer, pois eu era muito jovem.

Minhas quatro filhas me fizeram muito feliz como mãe, mas eu também queria um menino. No fim, não tive outro menino, esse lugar era dele.

iG: Como você encarou a possibilidade de outra família adotá-lo?
Denise Kusminsky: O médico nos ofereceu a alternativa da adoção e nós abraçamos. Eu achei que fosse uma solução para que a criança vivesse. Fiquei na casa dos pais dele vários meses até que dei à luz lá. Fui anestesiada no parto para não ter contato com a criança. Enfim, ela sobreviveu e, mais tarde, eu quis reavê-la. Mas advogados que consultei me desaconselharam, pois isso mexeria muito com a cabeça de uma criança de cinco anos. Além de interferir também na vida da família que a acolheu.

iG: Como reagiu quando foi desencorajada pelos advogados?
Denise Kusminsky: Achei que seria mais fácil, mas eu passei todos os dias da minha vida pensando nessa criança. Eu a procurava pelas ruas, pelas praias, onde eu estivesse procurava nos meninos alguma semelhança comigo. Por isso, coloquei no livro fotos de mães com seus filhos, para mostrar essa identificação que eu tenho com as crianças que eu procurei a vida inteira.

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iG: Você sabia onde seu filho estava?
Denise Kusminsky: Não conhecia a família, mas certamente o encontraria se optasse por isso. Entretanto, não quis mexer nem na felicidade dele, nem na das pessoas que o acolheram. Não poderia entrar na casa dessa criança e dizer: “Oi, eu sou sua mãe”. Se hoje isso já não é muito fácil, imagina como era antes. Meu marido sempre falou: um dia, ele vai te procurar. O que vale a pena é que ele tem uma mãe viva, o pai (adotivo) já faleceu, mas foi um grande amigo dele. Sylvio tem um lar bacana, que o acolheu, e os vínculos com a mãe são ótimos.

iG: Como foi contar tudo para suas outras quatro filhas?
Denise Kusminsky: Não sabia como explicar a situação. Eu não tinha contado porque era muita angústia. Quem ele era? Onde ele estava? Como era seu rosto? Qual era o nome dele? Não sabia responder a nenhuma dessas perguntas. Era uma coisa muito pesada para jogar sobre elas, sem nenhuma direção. Foi um processo, um choque para as meninas. Uma situação muito diferente que elas só imaginavam possível em novelas. Quando acontece na própria casa é um susto. Meu marido me ajudou muito no relacionamento com os cinco, fazendo o meio de campo. Eles se dão bem, se gostam. Sylvio mora fora, então o convívio físico não é diário. Mas estamos todos conectados.

iG: Como ele fez contato com você?
Denise Kusminsky: Ele também não sabia que era adotado, soube tardiamente. Aí foi tateando, fazendo pesquisas na internet. Até achar meu nome foi um longo caminho. Ele tem o nome do médico que fez o parto, como uma forma de homenagem. Então, quando ele me ligava, eu achava que era o médico. Como fiquei muito ansiosa com aquele contato, meu marido ligou para o médico que esclareceu a situação.

iG: Ficou abalada quando descobriu que ele queria te conhecer?
Denise Kusminsky: Não conseguia nem me concentrar, não sabia meu nome. Falei com Sylvio por telefone e como ele estava viajando, combinamos de nos encontrar dois dias depois. Foram dois dias intermináveis. Fiquei muito emocionada, não acreditava que aquilo estava acontecendo. Estava assustada, emocionada, feliz, ansiosa, um monte de sentimentos.

Em livro, autora conta a experiência de reencontrar filho que entregou para adoção depois de 34 anos
Divulgação
Em livro, autora conta a experiência de reencontrar filho que entregou para adoção depois de 34 anos

iG: Como foi o reencontro?
Denise Kusminsky: Marcamos de nos encontrar em uma pizzaria e fiquei muito assustada quando o vi. Primeiro porque eu o achei bem parecido comigo, na hora eu o reconheci. E depois porque ele era muito grande, muito adulto, um homem. Eu tinha na cabeça que ele era um bebê, um menino. Estava muito assustava. A gente se olhava de canto de olho. Foi um processo até que pudéssemos nos conhecer, nos entender. O primeiro dia foi assustador. Eu perdia a fala. Meu marido e a noiva do Sylvio estavam contentes, celebrando, comendo pizza. Eu tentei comer um pedaço e não descia, ficou entalado.

iG: E depois?
Denise Kusminsky: Eu o abracei muito. No início, parecíamos mamãe e bebê. A gente ficava se admirando. Agora, já virou filho adolescente. A gente briga, tem uma relação normal como mãe e filho.

iG: Foram 34 anos de sofrimento sem notícias dele?
Denise Kusminsky: Foi uma vida dupla. Minhas quatro filhas me fizeram muito feliz como mãe, mas eu também queria um menino. Construí uma família trabalhando todas as dificuldades do dia a dia, mas sempre com isso me acompanhando. No fim, não tive outro menino, esse lugar era dele. Meu marido me ajudou muito porque passei muitas noites da minha vida escutando o choro daquela criança.

iG: Escutando literalmente?
Denise Kusminsky: Optamos por uma cesárea para romper o vínculo entre mãe e filho. Mas por mais que estivesse anestesiada, na hora em que ele nasceu, ouvi um choro muito forte. Acordei no meio do parto com esse choro. E ele ficou impregnado em mim. Depois voltei a ser anestesiada. Eu começo o livro contando sobre o parto. Graças a Deus, estou dormindo melhor agora que o conheci. Mas todas as noites eu acordava com esse som. Se eu fechar os olhos, vou escutar o choro. Meu marido segurou uma barra porque ele teve um começo de casamento difícil e soube como lidar com essa situação.

iG: Quem são as mães que entregam os filhos para doação? Qual conselho você teria para elas?
Denise Kusminsky: Essas mães não são faladas. Elas viram vilãs, ovelhas negras, quando, na verdade, essas mães sofrem muito. O que eu digo sempre para as pessoas que me procuram é não temer a mãe adotiva, nem os vínculos que elas formaram com esses filhos. No fim, o encontro com um filho que foi entregue para adoção e com sua família deve vir para agregar amor e carinho.

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