Pesquisa sueca aponta que usar a chupeta dos filhos antes de oferecê-la de volta às crianças pode evitar alguns tipos de alergia

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Especialistas pedem cautela na interpretação dos resultados do estudo
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Especialistas pedem cautela na interpretação dos resultados do estudo

Um novo estudo sueco sugere que os pais que querem proteger seus filhos de desenvolver alergias devem introduzir as crianças ao mundo dos micróbios colocando a chupeta em suas próprias bocas antes de devolvê-la para seus bebês.

Embora isso possa soar nojento, ou mesmo arriscado para alguns, os pesquisadores descobriram que a transferência de bactérias orais de adultos para crianças parece ajudar a treinar o sistema imunológico dos bebês a ignorar os germes que não representam uma ameaça.

"O objetivo do sistema imunológico é a diferenciação entre inofensivo e nocivo", disse Ron Ferdman, alergista pediátrica do Hospital Infantil de Los Angeles. "Se o sistema imunológico não for apresentado a diversos tipos de micróbios, o padrão será atacar de forma nociva coisas que não são prejudiciais, como alimentos, pelo de gato ou ácaros", afirma.

Um relatório do Centro Nacional para Estatísticas de Saúde dos Estados Unidos, divulgado na semana passada, mostrou que o número de crianças americanas com alergias aumentou dramaticamente nos últimos anos: 13% têm alergias de pele e 17%, alergias respiratórias.

Os pesquisadores suecos procuravam saber se a exposição microbiana durante os primeiros meses de vida afetaria o desenvolvimento de alergias. Eles descobriram que as crianças cujos pais chuparam sua chupeta para limpá-las eram menos propensas a ter asma, eczema e sensibilidade aos alérgenos do que as crianças cujos pais não limpavam a chupeta dessa maneira.

Os autores concluíram que a sucção dos pais de chupetas do seu bebê pode ajudar a diminuir o risco de alergia causada pela transferência de micróbios através da saliva.

A introdução de alimentos sólidos na dieta da criança não pareceu afetar os resultados do estudo, afirma Bill Hesselmar, professor no hospital infantil Queen Silvia Children’s Hospital, em Gotemburgo, Suécia. "Encontramos diferenças na flora microbiana oral já aos quatro meses de idade, em uma época em que a maioria das crianças ainda se alimenta com leite materno."

Para o estudo, publicado em 06 de maio na revista Pediatrics, 206 mulheres grávidas na Suécia foram inicialmente recrutadas como participantes, e 187 de seus filhos foram incluídos na pesquisa. Os cientistas procuraram famílias com pelo menos um dos pais com histórico de alergia para ver se eles poderiam identificar uma resposta imunológica diferente nas crianças.

Cautela

Ron Ferdman, que não participou do estudo, pediu cautela na interpretação dos resultados. "A pesquisa contemplou um pequeno número de bebês, por isso é difícil generalizar", disse ele.

Ele também expressou a preocupação de que os resultados podem não ser amplamente aplicáveis, pois os dados foram tomados unicamente dos participantes suecos, que não são uma população geneticamente diversa.

Outros pesquisadores manifestaram preocupação com chupetas sujas. Tom Glass, professor de ciências forenses, patologia e medicina dentária na Oklahoma State University, nos EUA, apresentou uma pesquisa da Sociedade Americana de Patologia Clínica em Boston, em novembro passado, que encontrou uma grande variedade de bactérias causadoras de doenças, fungos e mofo em chupetas de crianças. A pesquisa também mostra que pode crescer uma camada viscosa de bactérias na chupeta, o que altera as bactérias normais na boca das crianças, estimulando inflamação e aumentando potencialmente o risco de desenvolver problemas gastrointestinais ou mesmo infecções de ouvido.

O professor ressalta que o valor do uso de saliva de um pai para limpar uma chupeta suja vem sendo discutido há algum tempo. "Temos defendido por muito tempo que, se você está em um lugar público, como um supermercado, e o bebê derruba a chupeta, é melhor colocá-la na boca do adulto para limpá-la porque a essa saliva tem componentes de imunoglobulinas que combatem bactérias."

No entanto, Glass expressou preocupação com o fato dos pesquisadores não terem identificado os micróbios específicos transferidos dos pais para as chupetas. "Nós não sabemos o que os pais estão realmente transmitindo para a criança", disse ele.

O que os pais devem fazer para ajudar a prevenir alergias em seus filhos? "Os bebês precisam ser expostos ao mundo e exposição ao ambiente normal microbiana é protetor", disse Ferdman. "Amamentar por pelo menos quatro a seis semanas, se possível. Não fume, e não exponha seus filhos ao fumo passivo", completa.

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