Tratar as diversas configurações familiares com naturalidade é essencial para falar sobre o assunto com as crianças

A pequena Malu, de sete anos, com as mães Giovana Amaral e Lia Braga
Arquivo pessoal
A pequena Malu, de sete anos, com as mães Giovana Amaral e Lia Braga

Um belo dia, a criança chega da escola com a novidade: um coleguinha de classe tem dois pais ou duas mães, é criado em um lar gay. A partir desta informação, é natural que ela faça algumas perguntas sobre as diferenças entre as famílias e muitas mães podem se sentir despreparadas para falar sobre o assunto. Principalmente se nunca conviveram com casais homossexuais. O que fazer?

“A angústia, geralmente, é dos adultos. Para as crianças não é tão complicado assim, só têm curiosidade por ser uma família diferente. O ideal é responder apenas as perguntas que o filho fizer, sem entrar em questões sobre sexualidade”, aconselha Alexandre Bortolini, coordenador adjunto do projeto Diversidade Sexual na Escola, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E completa: “Basta falar a realidade: ‘Você tem um pai e uma mãe, fulano tem dois pais, sicrano, duas mães, beltrano é criado pela avó’. São muitas as configurações familiares”.

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Nas escolas, o trabalho tem sido cada vez mais direcionado para falar sobre as famílias em que os próprios alunos vivem, sem se engessar no modelo pré-estabelecido de “pai e mãe heterossexuais, vivendo na mesma casa”. Gabriela Argolo, coordenadora pedagógica do Fundamental 1 da Escola Cidade Jardim Play Pen (SP), explica que lá os alunos são estimulados a apresentar as pessoas com quem convivem fora das aulas, independentemente de gênero ou parentesco. “As crianças têm a visão de que família é quem cuida. Identificamos as diferenças e semelhanças e as celebramos”, diz.

Devido a essa metodologia contemporânea, a atriz e produtora cultural Vera D’Araio só soubedurante uma festa do Centro Educacional Pomar (Ribeirão Pires, SP), que o filho Pedro, 7 anos, tinha uma coleguinha com mães lésbicas. “Isso é tratado de uma maneira tão natural que ele nunca comentou absolutamente nada. Além disso, para ele, é tranquilo a garota ter duas mães, uma vez que ele tem dois ‘pais’ – o biológico e o padrasto”, afirma, confirmando o que ressaltou Bortolini: são muitos os formatos de famíliahoje em dia.

Vera D’Araio com o filho Pedro: diversidade familiar é tratada de maneira natural
Arquivo pessoal
Vera D’Araio com o filho Pedro: diversidade familiar é tratada de maneira natural

A colega de Pedro é Malu, 7 anos, filha da assistente de produção Giovana Amaral, casada desde 2011 com a diretora Lia Braga. Giovana conta que a entrada de Lia na família deu à garota “mais uma pessoa paracuidar, educar, brincar e amar”, e que a maioria dos amiguinhos acha a família “superdescolada” – termo recentemente empregado pela pequena. “A criança, ao contrário de nós, não tem conhecimento prévio sobre o que a sociedade julga certo ou errado”, lembra.

Vera acha o convívio do filho com Malu uma experiência enriquecedora. “Ele está aprendendo desde pequeno que somos todos diferentes, e isso é maravilhoso. Quanto mais cedo se tem conhecimento de que há diversidade, maiores as chances de criarmos cidadãos livres de preconceitos”, defende.

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Mas nem todas as mães pensam assim. No começo de 2012, quando a bibliotecária paulistana Leila Oliveira soube que uma garota adotada por um casal de homens estudaria na mesma escola que o filho Enzo, hoje com 8 anos,preferiu trocá-lo de colégio. “Embora entenda que os gays estão cada vez mais fora do armário, não concordo com esse estilo de vida, criança tem que ter pai e mãe, homem e mulher. Sei que em alguns anos ele estará exposto, poderá até ter amigos gays. Mas enquanto conseguir blindá-lo, farei isso”, justifica.

Na opinião de Bortolini, a criança sai perdendo com esse tipo de atitude dos pais – seja uma troca de classe, seja de escola. “Além de perder o vínculo com os amiguinhos, ela deixa de ter a oportunidade de conviver com uma realidade rica, de diferenças, que deixaria seu repertório muito mais interessante”, esclarece. “Claro que a mãe pode e deve explicar para o filho qual modelo considera ideal, mas todos têm seu valor.”

“Os alunos de hoje são filhos de uma geração ‘tradicional’, que ainda vê ‘certo’ e ‘errado’ nesse ponto”, pondera Gabriela. Para ela, o melhor caminho para quebrar tabus é mostrar que as famílias, independentemente de seus arranjos, são mais parecidas do que diferentes. “Já recomendamos a um aluno filho de pais gays que ele convidasse amiguinhos para frequentarem sua casa e para verem que tudo lá era igual, a não ser o fato de que ele tinha dois pais. Indicamos uma família que sabíamos que era mais aberta com a questão para começar”, recorda. “Não é uma questão fácil, mas é possível lidar. A escola pode ajudar,desde que acredite de verdade que todas as relações amorosas são válidas.”

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