Baixa estatura da criança pode ser hereditária ou causada por deficiências no organismo. Antes de perder o sono por causa disso, entenda melhor o crescimento infantil

Basta uma frase comparando a altura dos colegas da escola ou mesmo dos pais quando eram mais novos com o tamanho do filho para plantar a preocupação na cabeça da mãe: “Será que meu filho é muito pequeno?”. Se ele de fato for, é possível que o pediatra que o acompanha já tenha notado e até dado um alerta durante uma consulta. Mas, para evitar noites sem dormir pensando nisso, é bom entender alguns pontos sobre o crescimento infantil.

Luca, 4, é um dos últimos a serem chamados na formação dos times nas aulas de educação física. Hoje, com a orientação da mãe, ele tira de letra a situação
Rodrigo Acedo/Fotoarena
Luca, 4, é um dos últimos a serem chamados na formação dos times nas aulas de educação física. Hoje, com a orientação da mãe, ele tira de letra a situação



O primeiro fator a ser levado em consideração é o potencial de crescimento. Filhos de pais baixos tendem a ser menores, e os de pais altos, maiores. “Se a criança nasceu pequena e a baixa estatura é da sua constituição genética, essa será sempre sua realidade”, diz Natasha Slhessarenko, pediatra e patologista clínica. O endocrinologista pediátrico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Luís Eduardo Calliari concorda e reforça que, nesse caso, não há motivo para dor de cabeça. “A criança cresce no mesmo padrão que a família. Se sua evolução de altura e peso é constante, está tudo bem.”

Algumas “fórmulas” ajudam a calcular o potencial de crescimento. Uma vem da sabedoria popular: a criança terá, quando adulta, o dobro da altura que apresentar aos dois anos de idade. Outra, ensinada por Mauro Scharf, endocrinologista do Delboni Medicina Diagnóstica, traz um pouco mais de matemática. Para calcular a provável altura de meninos, basta somar a altura da mãe com a altura do pai e adicionar 13 centímetros. Pegue o total e divida por 2. O resultado será a provável altura do menino. Já para meninas o cálculo deve ser feito da seguinte maneira: subtraia 13 centímetros da altura do pai e some esse número com a estatura da mãe. Divida o resultado por 2 para obter a provável altura da filha.

Meninos: estatura do pai + estatura da mãe + 13 cm / 2
Meninas: estatura do pai – 13 cm + estatura da mãe / 2

Os médicos fazem questão de ressaltar que a análise do posicionamento da criança na curva de crescimento - parâmetro conhecido como percentil, que foi elaborado pela Organização Mundial da Saúde e toma como base dados da população mundial - é complexa. Ela deve ser feita com critério antes de se desesperar (caso a criança esteja abaixo de 25) ou de comemorar. O percentil é apenas o indicador da porcentagem da população daquela idade com a mesma altura que seu filho. “Estar abaixo do 25 não é necessariamente ruim para uma família baixa, e estar no 50 pode ser motivo de atenção para pais altos”, alerta Calliari.

Acompanhamento médico

Embora seja pequena (mede 1,58m) e seu marido não seja alto com seus 1,70m, Samantha Coppola ficou preocupada com o tamanho de Luca, 4, antes do segundo aniversário do filho. “Ele sempre foi baixo e magro, na escola todos são maiores. Depois de alguns exames, a endocrinologista pediátrica constatou que ele tem a idade óssea atrasada em um ano. O Luca nunca passou um mês sem crescer, a compleição dele é essa”, conta. O desenvolvimento do garoto será acompanhado até os seis anos de idade e tratamento com hormônio do crescimento está descartado, já que ele não tem deficiência de produção. No ano que vem a caçula Nina, 1, começará o acompanhamento. “A família é baixa, mas quero ter certeza de que a pouca estatura deles é apenas por isso”, justifica a publicitária.

Filhos de pais de baixa estatura, Luca e a irmã caçula Nina são acompanhados por médicos que avaliam o desenvolvimento das crianças
Rodrigo Acedo/Fotoarena
Filhos de pais de baixa estatura, Luca e a irmã caçula Nina são acompanhados por médicos que avaliam o desenvolvimento das crianças

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Como no caso de Luca, nem sempre é preciso partir para um tratamento com hormônio do crescimento. Quando a criança de baixa estatura chegar ao endocrinologista, normalmente encaminhada pelo pediatra, passará por exames clínicos (de sangue e de urina) para checar se há alguma alteração. Não havendo, o médico investigará a ocorrência de patologias de base, como anemia, parasitoses intestinais, problemas renais, cardiopatia, bronquite crônica. “São doenças que podem atrapalhar o crescimento. Elas são tratadas e, se forem a causa do problema, a criança crescerá após a cura”, diz Calliari. Scharf complementa: “Se a criança tem alguma dessas condições, o corpo se preocupa em combater a doença e acaba deixando o crescimento de lado.”

Existe a possibilidade de nenhum dos exames apresentar resultados negativos, o que levará o profissional a outra fase de análise, para checar se a produção do hormônio do crescimento está normal ou se há a necessidade de reposição artificial no organismo: exame de tireoide, de hipófise, de cariótipo (para detectar síndromes, especialmente a de Turner, que afeta meninas), entre outros. Só que, descobrindo neles a causa do atraso no crescimento do paciente, o caminho não chegou ao fim: ainda haverá a necessidade de radiografias para decidir se o tratamento com hormônio será viável.

A ortopedista Tatyana Abulasan, do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, dá detalhes: “O raio-x da mão e do punho esquerdo mostra o estágio de fusão dos ossos – que deve ser inicial –, enquanto o da bacia permite avaliar a linha de Risser – que, se ainda estiver aberta, indica a chance de a criança atingir seu potencial de crescimento.”

Injeções diárias

Tanto cuidado tem o mais nobre dos motivos: o bem-estar da criança. “O tratamento com hormônio do crescimento é difícil, requer a aplicação diária de injeções no paciente e pode durar muitos anos. Só se deve recomendá-lo quando há chances reais de resultado”, explica Calliari.

O sacrifício está valendo a pena para Janice Alves. Desde a gravidez de Leonardo, 3, a enfermeira sabia que o menino era pequeno. Após o nascimento, o pediatra recomendou que ela esperasse um ano para ver se ele entrava na curva de crescimento. Como não entrou, foi encaminhado ao endocrinologista.

“Os exames indicaram que sua hipófise não produzia hormônio do crescimento suficiente, então precisávamos encarar as injeções. Procurei mais opiniões e recebi a mesma resposta”, lembra. Como o tratamento é caro, ela lança mão do serviço público de saúde de Santos (SP) para adquirir os medicamentos. E os resultados já aparecem na régua: depois de três meses, Leonardo cresceu cinco centímetros. “Ele não teria crescido isso naturalmente. Agora ele tem a mesma chance de crescer de uma criança com produção de hormônio normal”, comemora.

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