Atacado pelos saudosistas, o politicamente correto mudou – de forma positiva – a relação da criança com a mídia. Se você acredita que na sua infância tudo era melhor, pense novamente

Se um televisor estiver ligado em um programa ou canal infantil e perto dele houver adultos com mais de 30 anos de idade, não será difícil ouvir frases como “Hoje em dia não tem irreverência nessas atrações para as crianças” e a clássica “No meu tempo era melhor”. Muitos desses críticos culpam o politicamente correto pela mudança na linguagem das produções e pelas discussões em torno da regulamentação da publicidade de produtos infantis. Mas será que antes era mesmo melhor?

Essa mudança, afirmam especialistas, foi encabeçada pelos maiores interessados, os pais. Mestre em educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Marcus Tadeu Tavares esclarece que a alteração na postura, vinda dos lares, foi generalizada. 

“Os pais, ao lado de instituições comprometidas com a infância e com uma série de regulações e leis, tiveram grande influência nisso, ao eleger programas com mensagens mais interessantes e desenhos educativos para seus filhos. A preocupação com valores e com a não-violência está cada vez mais forte e, de certa maneira, força as produções a serem adequadas nesse sentido. É o reflexo de um processo natural da sociedade.”

Esse processo aconteceu em meados dos anos 1990, quando a TV paga começou a conquistar a classe média e a apresentar alternativas educativas - principalmente estrangeiras - à diversão infantil, até então dominada por atrações como “Clube da Criança” (Manchete), “Xou da Xuxa” (Globo) e “Show Maravilha” (SBT).

“É possível identificar, neste processo, que o formato de programas infantis de auditório, definido pela presença de apresentadoras sensualizadas anunciando desenhos e brincadeiras, perdeu força, o que pode ser considerado positivo”, afirma Inês Vitorino, autora do livro “Televisão, publicidade e infância” e coordenadora do Grupo de Pesquisa da Relação entre Infância, Adolescência e Mídia (GRIM), da Universidade Federal do Ceará.

A imagem sensual das apresentadoras não era a única desvantagem dos programas de auditório infantis, de acordo com Tavares: “A criança era parte do cenário, da coreografia. Sumia. Dos anos 1990 em diante, ela passou a ser vista como uma criança mesmo, um cidadão pleno de direitos, um ser em formação, não como um adulto em miniatura. O Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, deu consistência ao movimento. O conteúdo precisava ser mudado.”

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Anúncios que erotizam crianças, como este publicado em 1980, deixaram de ser feitos à medida que a sociedade ficou mais atenta
Reprodução
Anúncios que erotizam crianças, como este publicado em 1980, deixaram de ser feitos à medida que a sociedade ficou mais atenta

Propaganda

Mãe de Mateus, 11, a anestesista Lígia Rocha, 48, vê com bons olhos o momento atual da TV infantil. “Sou da geração anterior a das apresentadoras que apareciam de top e saia curtinha. Não conseguia imaginar o que viria depois delas. Já planejava proibir meus filhos de assistirem à TV, mas a vida traz boas surpresas e uma delas foi a melhora na qualidade dos programas”, diz. “Só sinto que há muita propaganda. Quando o Mateus era menor, chegou a fazer uma lista de presentes baseada nos anúncios. Ele nem sabia o que era a maioria daquelas coisas. Precisamos conversar muito para ele não virar um consumista”, lembra Lígia.

A crítica da anestesista é confirmada pelos especialistas. Laís Fontenelle, psicóloga da organização não governamental Instituto Alana, conta que um recente levantamento da ONG detectou que um anúncio é inserido na programação infantil televisiva a cada dois minutos. “É praticamente impossível assistir à TV e não ser exposto a uma marca. Esse excesso é perigoso”, alerta.

Pequenos passos

Ainda que mais presente do que o desejado, a publicidade vem fazendo, ao longo dos anos, ajustes positivos nos anúncios de produtos infantis. Hoje em dia, não há mais espaço para a erotização de crianças ou a colocação delas em situações inadequadas. Isso porque, segundo Inês, “a sociedade está mais atenta”. Outro avanço veio em 2006, quando o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) vetou o apelo imperativo de consumo diretamente às crianças. “Mas acabam aparecendo alguns deslizes, porque o Conar orienta, mas não tem poder de lei”, ressalta Tavares.

A mais recente vitória comemorada por quem luta pelo resguardo infantil diante da mídia é de 1º de março deste ano, quando começou a valer uma nova recomendação do Conar que proíbe o merchandising voltado às crianças ou apresentado por atores mirins – programas como a novela “Carrossel” (SBT) utilizavam bastante esse recurso.

Mesmo com esses avanços, o cenário ainda não é o ideal, segundo Inês. “Estamos muito longe de uma publicidade que, de fato, respeite as crianças. No dia em que ela for a tônica, será dirigida aos pais, afinal são eles que pagam as contas”, explica.

Diante de tantas preocupações sócio-educativas, há quem reclame que em breve será impossível bolar uma atração de TV ou um anúncio de produto infantil criativos. Marcus Tadeu Tavares discorda e provoca: “Se com tanta restrição conseguiram criar a ‘Galinha Pintadinha’, que é super bem produzida e faz o maior sucesso, não existe motivo para reclamações. É difícil mesmo prender a atenção de uma criança, tem que inventar uma boa história. Então, isso me parece mais papo de roteirista de publicidade que se vê atado diante de tantas orientações do que de quem se preocupe com os rumos da infância.”

* A reportagem agradece ao blog "Propagandas de Gibi" pela colaboração

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