Reações agressivas ou regressivas do primogênito são naturais e devem ser trabalhadas pelos pais com carinho e pulso firme

Aos olhos dos pais, a chegada do segundo bebê da família é motivo de alegria. Muitos dizem até que um irmão é o melhor presente que o primeiro filho poderia ganhar. Só que nem sempre os primogênitos veem a situação desta maneira. É comum os mais velhos terem reações agressivas em relação ao “pequeno intruso” ou resgatarem comportamentos de etapas pelas quais já passaram, como querer chupeta e fralda novamente. A situação, por mais conflituosa que pareça, é natural e deve ser trabalhada no dia a dia.

Pedro,2, ficou enciumado com a chegada do irmão mais novo, André, de nove meses
Arquivo pessoal
Pedro,2, ficou enciumado com a chegada do irmão mais novo, André, de nove meses


“O nascimento de um irmãozinho surge como uma ameaça de perder o amor e o carinho de seus pais, já que até agora todas as atenções eram voltadas para o filho mais velho. Além de compartilhar os cuidados básicos, ele terá que dividir a atenção das figuras mais importantes em sua existência. A partir daí, podem surgir insegurança, ciúmes e agressividade”, afirma a psicóloga Regina Rocha .

Mesmo as crianças maiores, que demonstram alegria com a chegada do bebê, podem acabar tendo reações negativas, principalmente por causa do comportamento dos familiares. A psicóloga Veronika Eleutério explica: “Muitas pessoas colaboram com a fantasia de desvalorização sem perceber. Elogiam o bebê e se esquecem de acolher o primogênito, que se sente posto de lado diante de uma ‘atração mais interessante’.”

Isadora fez questão de incluir o filho Pedro na preparação para a chegada do caçula
Arquivo pessoal
Isadora fez questão de incluir o filho Pedro na preparação para a chegada do caçula

Pulso firme com agressões

A compreensão dos pais é essencial, mas isso não significa perder o controle sobre o filho mais velho. Shirley Santos, psicóloga do Centro Pediátrico da Lagoa, é enfática ao defender o pulso firme. “Caso aconteça uma agressão de fato, a mãe e o pai devem explicar com firmeza que tal comportamento não será admitido. Há insegurança, sim, porém esse sentimento, até certo ponto, pode ser um bom exercício para a criança aprender a se relacionar com a frustração, que faz parte da vida”. Veronika complementa: “Impor castigos não físicos, privá-lo de brinquedos ou levá-lo para um local onde ele reflita sobre o evento são medidas que os pais podem tomar. Essa dinâmica resulta em sucesso quando, na sequência, há um diálogo sobre o porquê do castigo e o reforço de que o amor permanece o mesmo. É preciso deixar claro para a criança que suas ações levam à rejeição, não sua pessoa.”

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A administradora Ana Caroline Alegre presenciou pouca agressividade de sua filha Elisa, 3 anos, em relação à caçula, Amanda, 1 ano. Uma das raras passagens de que lembra foi uma vez em que a mais velha deu um empurrão forte na bebê. “A Amanda caiu e a Elisa levou um susto, não sabia o que fazer”, conta. O problema enfrentado na família foi a regressão da primogênita. “Ela queria mamadeira, chupeta, tivemos que esperar para tirar a fralda. Percebemos que, para isso passar, tínhamos que agir com ela como antes, de acordo com a idade dela, e fazê-la perceber que continuava sendo especial para a mamãe e o papai”, diz.

As psicólogas afirmam que essa fase é superada naturalmente, com diálogo e compreensão, e aprovam a atitude de Ana Caroline. Segundo Shirley, “o sentimento de insegurança é minimizado quando fica claro que o ‘posto de primogênito’ não está ameaçado”. Além de reafirmar o espaço do irmão mais velho, Regina sugere também que a rotina do primogênito seja alterada o mínimo possível.

Ana Caroline com as filhas: a primogênita Elisa começou a regredir após o nascimento da irmã caçula, Amanda
Arquivo pessoal
Ana Caroline com as filhas: a primogênita Elisa começou a regredir após o nascimento da irmã caçula, Amanda

Para evitar grandes transformações no dia a dia de Pedro, 2 anos e 10 meses, quando André, hoje com 9 meses, nascesse, a relações-públicas Isadora Leone começou a fazer pequenas mudanças assim que soube que estava grávida. “Além de sempre incluir o Pedro na preparação da chegada do irmãozinho, mudei algumas coisas na rotina dele aos poucos. Parei de dar banho no suporte, mudei-o do berço para a cama. Tudo isso para ele não estranhar quando o bebê chegasse”, relata. Ainda assim, houve um pouco de ciúmes no começo. Hoje, ela garante que os dois são amiguinhos e tratados da mesma maneira pelos adultos: “Se o André apronta, ouve bronca no mesmo tom que o Pedro. Os dois precisam ter consciência de que ninguém é o rei da casa.”

Dicas para evitar atritos entre o primogênito e o bebê

- Durante a gestação, estimule o primogênito a tocar sua barriga e demonstre carinho por essa interação entre ele e o filho que ainda nascerá.

- Inclua o mais velho na preparação para a chegada do bebê: mostre as roupinhas quando começar a montar o enxoval e peça a opinião dele em relação aos objetos do quarto, por exemplo.

- Diga que precisará de sua ajuda nos cuidados com o caçula, que será pequenininho e necessitará de atenção, assim como aconteceu com ele quando era recém-nascido.

- Reforce que gosta da fase mais avançada pela qual ele passa, que é uma vantagem poder contar com uma criança com suas qualidades nesse momento de mudança.

- Seja tolerante com as possíveis reações negativas, mas sem perder o controle da situação.

- Mantenha atividades e brincadeiras para serem feitas exclusivamente com o filho mais velho. O espaço dele dentro da rotina da família deve ser preservado.

- Evite mudanças significativas, como troca de escola e retirada de chupeta, mamadeira ou fralda.

- Elogie atitudes positivas.

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