Em entrevista, autora do livro “A Criança e o Marketing” afirma que filhos não devem decidir hábitos de consumo da família e dá dicas para torná-los consumidores conscientes

Os pais devem dar o exemplo e ser coerentes:
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Os pais devem dar o exemplo e ser coerentes: "Se a família vai ao shopping e diz que não é para comprar nada, deve cumprir o combinado"

“O marketing vende idéias. A criança acha que a família feliz e sorridente vem junto com o produto. Ela vai querer tudo aquilo. Como não vem, ela se decepciona com o brinquedo e acaba querendo sempre mais.” Essa é a opinião da psicóloga Ana Maria Dias da Silva, autora do livro “A Criança e o Marketing” (Summus Editorial), ao lado de Luciene Ricciotti Vasconcelos. Mas seria possível um pai competir com a indústria do marketing infantil e promover o consumismo consciente dentro de casa? De acordo com a autora, a resposta é sim. Em entrevista ao Delas, a especialista conta como dar os primeiros passos.

iG: Como o marketing influencia as crianças atualmente?
Ana Maria Dias da Silva: Gostaria de deixar claro que não sou contra o marketing, mas a favor de um marketing ético – e não um que fala diretamente com a criança quando ela não tem poder de compra. Dependendo da idade, ela tampouco consegue distinguir fantasia de realidade e, ao ver uma propaganda durante o intervalo de um desenho animado, dará a mesma credibilidade para ambos. A propaganda infantil é abusiva quando dirigida diretamente à criança. O marketing vende idéias. A criança acha que a família feliz e sorridente vem junto com o produto. Ela vai querer tudo aquilo. Como não vem, ela se decepciona com o brinquedo e acaba querendo sempre mais.

Os pais atuais consideram que, por terem pouco tempo para estar com os filhos, precisam agradá-los. Mas se eles têm pouco tempo, é preciso usá-lo para educar.

iG: No livro você diz que a responsabilidade do marketing em cima da criança não é das empresas. Seria principalmente dos pais, então?

Ana Maria Dias da Silva: Não somente dos pais, mas de todos: inclusive das agências de publicidade. Atualmente há uma luta travada para regular a propaganda infantil, mas não basta se nós mesmos não mudarmos. Tem uma legislação que regula o excesso de velocidade e, depois de instalarem radares pela cidade, colocaram placas para avisar ao motorista que o radar próximo. Precisamos mudar essa mentalidade. O consumidor tem poder para determinar o marketing. Eu não compro produtos que fazem apelo infantil. Se o mercado vê a necessidade de um produto infantil, a propaganda é uma das ferramentas que se utilizam para isso. O marketing, como uma ferramenta, é neutro. As crianças só precisam saber como funciona, e a responsabilidade disso é de todos.

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iG: Você acha que, para evitar o consumismo infantil, a principal dificuldade dos pais é a culpa que sentem por não estarem tão presentes na vida dos filhos?
Ana Maria Dias da Silva: Os pais atuais consideram que, por terem pouco tempo para estar com os filhos, precisam agradá-los. Mas se eles têm pouco tempo, é preciso usá-lo para educar. Pais separados, principalmente, consideram que por raramente conseguirem estar com o filho devem fazer o que ele quer quando se veem. Porém, é nesse momento que os pais devem ser os modelos de formação. Nós somos imaturos se deixamos que a criança nos dirija e, se o consumo de uma casa é voltado para ela, é fácil a propaganda influenciá-la.

Autora de livro dá dicas para tornar as crianças consumidoras conscientes
Divulgação
Autora de livro dá dicas para tornar as crianças consumidoras conscientes

iG: O que os pais podem fazer se a criança chora porque quer uma mochila que os amiguinhos da escola têm, por exemplo?
Ana Maria Dias da Silva: Se você acha que a mochila é adequada, que não vai prejudicar a saúde do seu filho e se ela está com um preço bom, tudo bem. Mas deixe claro à criança que ela não terá aquela mochila porque os amigos dela têm. Se ela se sente fora do grupo se não tiver a mochila, é preciso fortalecê-la, ajudá-la a crescer sabendo que pode fazer parte de um grupo sendo somente ela, sem precisar de uma mochila específica. O que não pode é desistir do filho. Ou, então, deixar de levá-lo ao shopping ou tirar a televisão dele. É preciso somente deixar as coisas claras. Quando a criança começar a perceber os apelos, o que o homem da propaganda quer, começará a formar uma postura crítica.

iG: Quais são as medidas que os pais devem tomar para evitar o consumismo infantil?
Ana Maria Dias da Silva: É preciso explicar como a propaganda funciona de acordo com a faixa etária da criança. Não adianta dar uma aula de marketing para uma criança de três anos, mas se ela quiser uma bolacha por culpa do personagem que é colocado na embalagem, os pais podem mostrar o porquê daquilo e que existe outra bolacha mais barata que permitirá comprar coisas mais importantes. A criança entre três e seis anos precisa do concreto, então é preciso mostrar o dinheiro e as diferenças entre um produto e outro para ela assimilar. E se a família vai ao shopping e diz que não é para comprar nada, deve cumprir o combinado. A mãe não pode comprar uma blusa em promoção, portanto. É preciso ter coerência. Os pais têm holofotes sobre eles e a criança os observa frequentemente. É preciso avaliar os próprios valores e agir de acordo. Eu, por exemplo, não compro produtos que apresentem personagens infantis. Se todo mundo fizesse isso, existiria um marketing mais ético. É a lei da oferta e da procura: as coisas mudam à medida que exigimos.

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