Pioneiro da licença-paternidade conta o que aprendeu sobre bebês

Marcos Melo aprendeu a interpretar as causas do choro e a lidar com palpites e perguntas sobre a mãe do filho que assumiu sozinho e de quem cuida em tempo integral

Rafael Bergamaschi - iG São Paulo |

No último dia 20 de agosto, o professor de enfermagem Marcos Melo, 36, teve um choque de realidade: seu pedido de licença-paternidade feito junto à Defensoria Pública da União foi aceito e ele se tornou o primeiro homem solteiro a obter o benefício no Brasil. A decisão significava o fim dos dias em que era necessário levar o filho recém-nascido ao trabalho e o início de um novo desafio, o de se dedicar integralmente a Nicholas durante quatro meses. “É bem mais difícil do que eu imaginava”, confessa Melo, com um sorriso torto e honesto.

Gustavo Magnusson/FotoArena
Marcos segura Nicholas: "pensei que a mãe dele fosse mudar de ideia"

Quando soube que iria se tornar pai, em fevereiro deste ano, o professor ficou radiante. “Sempre quis ter um filho, mas estava começando a achar que não teria mais a oportunidade”, diz. Havia apenas um empecilho: a mãe não queria o bebê e estava decidida a abortar. “Ligava para ela todos os dias tentando convencê-la de que eu aceitaria cuidar da criança sozinho”, narra. Conseguiu.

Sempre com o filho no colo, Melo recebeu o Delas em sua casa, em Campinas, e respondeu a todas as nossas perguntas com sinceridade - mesmo as mais delicadas. “Acho que no fundo eu esperava que ela [a mãe da criança] mudasse de ideia durante a gestação. Achei que ela só estava assustada”, confessa. O anseio, no entanto, não se concretizou. Quando ele chegou em casa sozinho com a criança, a dúvida foi inevitável. “Pensei: ‘será que eu não fiz besteira? Será que eu não fui precipitado?’”.

Alheio à conversa, Nicholas chora. “Já dei mamadeira e troquei a fralda. Se ele está chorando agora é porque quer dormir”, diz Melo, com firmeza de especialista, antes de pedir licença para colocar o filho no berço. Segundo ele, o choro que anuncia a cólica é o mais fácil de perceber: “a barriga fica durinha e a perna se contorce”. Fome e sono, ele deduz pelo horário. A fralda suja sobra quando as outras opções já foram eliminadas.

Além da interpretação do choro, Marcos conta outras 10 lições que aprendeu sobre bebês recém-nascidos ao cuidar de seu filho.

1. A dedicação é 24 horas. Desde que recebeu a autorização para ficar em casa com Nicholas, o cotidiano de Melo se resume, basicamente, a atender as necessidades do filho. Ele lava e passa as roupinhas, dá leite e vitaminas nos horários certos, leva para fazer exames e tomar vacinas, troca a fralda constantemente e faz passeios para tomar sol, entre outras atividades da rotina de um bebê. “Não dá para assumir nenhum compromisso”, conta.

Segundo Marcos, cuidar de um bebê recém-nascido exige dedicação total. 'Não dá para assumir nenhum compromisso' . Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaDesde que Nicholas nasceu, Marcos não dorme direito, preocupado com o bebê. 'Durmo no máximo quatro horas', diz. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaMarcos aprendeu a interpretar o choro do filho. O motivo é fralda suja quando todas as outras opções foram eliminadas. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaQuando começou a comprar o enxoval do bebê, Marcos se impressionou com a quantidade de itens. . Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaAssumindo o papel geralmente designado à mãe, Marcos passa todos os dias em casa. 'O papel de mãe é bem mais trabalhoso'. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaMarcos diz que é impossível sair muito com um bebê recém-nascido em casa. 'Não conseguiria me divertir', conta. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaO professor de enfermagem conta que teve que começar todo o aprendizado do zero. 'Parece que você não sabe nada', narra . Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaSegundo Marcos, a casa está bem mais limpa depois da chegada de Nicholas. 'Não pode ter poeira', afirma. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaDe início, Marcos ficou confuso com a quantidade de tamanhos de mamadeiras. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArenaSegundo o professor de enfermagem, a sociedade não está pronta para lidar com pais solteiros. 'Muitos fraldários ficam dentro de banheiros femininos'. Foto: Gustavo Magnusson/FotoArena

2. É impossível dormir profundamente. O sono é afetado, principalmente, nas primeiras semanas de vida do bebê. “À noite eu ficava acordado, porque ele não dormia, e de dia também, porque eu ficava preocupado”, conta, antes de acrescentar: “eu parecia um zumbi”. Agora com quase dois meses, Nicholas já se adequou a dormir durante a noite. Já Marcos, não tanto. “Durmo no máximo quatro horas. Fico sempre pensando se ele está respirando, se ele está se mexendo, se ele está com frio...”.

3. Todos querem dar palpite. “Todo mundo quer dar sugestão em tudo”, conta o professor. “As pessoas dizem: ‘você é pai de primeira viagem, não sabe de nada”. Segundo ele, os palpites não costumam vir de membros da família, mas de amigos e pessoas desconhecidas. “Eu ia para o supermercado e as pessoas me paravam na rua para dizer que eu não podia sair de casa com um bebê recém-nascido”, conta. “Diziam coisas como: ‘cadê a mãe dele?’ ‘Ela não devia deixar você fazer isso!’”. Se no começo a situação incomodava, com o tempo ele desenvolveu jogo de cintura para lidar com a situação. “Comecei a levar na brincadeira. Agora costumo dizer que minha mulher está no banho, que eu já vou voltar rapidinho”, brinca.

Comecei a levar [as perguntas sobre a mãe] na brincadeira. Agora costumo dizer que minha mulher está no banho, que eu já vou voltar rapidinho.

4. É preciso ter muito mais paciência do que se imagina. Antes de dar aulas, Marcos Melo trabalhava como enfermeiro e, entre as tarefas diárias, estava a de auxiliar mães e crianças. “Eu tinha o meu limite”, diz. Segundo ele, quando algum paciente ou criança enchia muito a paciência, os enfermeiros se revezavam no atendimento. “Já com o próprio filho, a situação muda de figura. Tem que ter muita paciência para as manhas do bebê”, conta. Ele exemplifica: “É sempre muito difícil para o Nicholas dormir. Às vezes tenho que niná-lo no colo por uma hora para ele cair no sono”.

5. A casa fica muito mais limpa. Segundo Marcos, ter um filho representa uma mudança que permeia todos os aspectos da vida do pai. Um deles é a casa. “Eu moro sozinho e, antes, não me preocupava muito com a limpeza. Se alguma coisa sujava, ficava dias até que eu resolvesse limpar”. A rotina, no entanto, mudou. “Por causa dele, não pode ter poeira. A casa agora está sempre um brinco”.

6. É impossível manter uma vida social ativa. “Antigamente eu saía muito, ia para a balada toda semana. Agora nem tenho mais vida social”, diz. “Algumas amigas se oferecem para cuidar do Nicholas, mas eu não conseguiria me divertir, iria ficar preocupado com a saúde dele”. Segundo ele, a solidão às vezes é forte, mas a cura para o problema é o próprio bebê. “Eu converso com ele, ele sorri, a gente interage. Quando fazemos isso, esqueço de todos os problemas”.

7. O enxoval de um bebê é cheio de detalhes. “Eu comprava um monte de coisas para o bebê, mas sempre que conversava com outras mães sobre o assunto, surgiam cada vez mais coisas”, diz, bem-humorado. “Eram vários tamanhos de mamadeiras, milhares de roupas... Eu pensava: ‘precisa disso tudo? Para que uma criança tem que ter tanta roupa?’”. Hoje ele vê que, a cada dia, Nicholas usa pelo menos quatro mudas de roupa diferentes.

8. Com o filho dos outros é muito mais fácil. “Dar banho nos bebês de outras pessoas era muito fácil”, diz Marcos. “Com o Nicholas, morro de medo de mergulhar a cabeça dele na água, quero usar o sabonete do jeito certo... É tudo novo, parece que você não sabe nada e tem que aprender as coisas desde o começo”.

9. O papel de pai é mais fácil que o de mãe. “Sempre cuidei dos meus sobrinhos, achava que seria simples ter um filho, mas o papel de mãe é bem mais trabalhoso”, diz. “Nesses primeiros meses você tem que fazer tudo. A exclusividade é dele”. Melo passa todos os dias em casa e, quando tem que sair para fazer qualquer coisa, Nicholas o acompanha no carrinho ou no colo.

10. A sociedade não está preparada para os pais solteiros. “Muitos fraldários em shoppings, por exemplo, ficam dentro do banheiro feminino. Às vezes tenho que sair com uma amiga para que ela possa entrar no banheiro e trocar a fralda dele”, exemplifica Marcos. Mas ele garante que a discrepância é injusta. “Todos os instintos maternos podem, em caso de necessidade, aflorar no pai também”.


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