Registrar o nascimento vira tendência em hospitais norte-americanos. Para obstetra, moda faz parte de obrigação de “cultuar o momento”

NYT

Briana Kalajian fotografa um parto na Califórnia: moda de registrar o nascimento se espalho pelos EUA
Stephanie Diani/The New York Times
Briana Kalajian fotografa um parto na Califórnia: moda de registrar o nascimento se espalho pelos EUA

Lynsey Stone não toma banho sem seu celular por perto para não correr o risco de perder mensagens de uma mulher prestes a dar à luz. Ela planeja suas férias com 10 meses de antecedência para garantir que não entrem em conflito com datas nas quais já tenha partos agendados e, em seus passeios em família, ela e seu marido saem de casa em Granbury, Texas, em carros separados, caso ela precise correr para o hospital. 

Leia também
Como fotografar o bebê recém-nascido

Stone, 33, não é médica, enfermeira nem parteira. Ela é fotógrafa de partos, profissão em crescimento devido ao interesse cada vez maior em registrar um rito de passagem tão importante quanto um casamento – embora um pouco mais complicado para capturar em imagens.

"No começo, eu achava que as pessoas estavam apenas de brincadeira comigo quando me pediam para registrar seus partos", disse. O negócio decolou depois que uma amiga grávida, impressionada com as imagens feitas nos partos dos familiares da fotógrafa, perguntou se Lynsey poderia fotografar o nascimento de seu filho.

No Facebook

Antigamente, acreditava-se que dar à luz era algo para se compartilhar apenas com pessoas íntimas. Porém, de repente, os futuros pais adotaram o papel de tirar fotos ou gravar vídeos com as mãos trêmulas. Agora, há uma onda de interesse na experiência do parto e uma vontade maior ainda de capturar todos seus momentos (e muitas vezes até mesmo de compartilhá-los no Facebook).

Leia também
Como compartilhar fotos de seu filho com segurança

Fotógrafos de partos começaram a surgir nos Estados Unidos, de Los Angeles a Salt Lake City e Cincinnati. A Associação Internacional de Fotógrafos Profissionais de Partos – grupo iniciado por um fotógrafo do Texas que recebeu muitas solicitações de mulheres procurando um fotógrafo de parto em seus estados – tem agora cerca de 400 membros.

Os fotógrafos e seus clientes se acostumaram com os olhares espantados e perguntas rotineiras, como “que tipo de fotos serão feitas e de que exatamente”? Mas o raciocínio é simples: se você pensa em documentar todo momento da vida de uma criança, faz sentido que o nascimento seja fotografado por um profissional.

“Eu quero ver o meu parto”, disse Hentges Rhisie de Long Beach, Califórnia, que pagou US$ 1.895 para que Briana Kalajian, coproprietária da empresa de fotografia Shoots and Giggles, documentasse o nascimento de seu primeiro filho.

Briana Kalajian faz a primeira foto de Rocco, filho de Hentges e seu marido Laurent, na maternidade
Stephanie Diani/The New York Times
Briana Kalajian faz a primeira foto de Rocco, filho de Hentges e seu marido Laurent, na maternidade

A pergunta que os fotógrafos escutam com mais frequência é “onde exatamente você estará quando o bebê nascer?” A resposta: geralmente perto da cabeça da mãe, a menos que ela peça que a foto seja feita de um outro ângulo.

Tatiana segura Mirela após a cesárea: "o importante é que ela nascesse bem"
Arquivo pessoal
Tatiana segura Mirela após a cesárea: "o importante é que ela nascesse bem"

Momento íntimo

Ainda assim, alguns hospitais proíbem a sessão de fotos do nascimento. Em muitos casos, médicos e enfermeiras de plantão definem suas próprias regras extraoficialmente. Alguns permitem os fotógrafos até mesmo em uma cesariana. Já em partos domiciliares, segundo os profissionais, quem manda é a mãe.

“As regras hospitalares são bastante simples: não é permitido fotografia ou vídeo em qualquer sala de cirurgia ou de parto ”, disse Jacques Moritz, diretor de ginecologia na St. Luke's-Roosevelt Hospital Center em Nova York . “A política oficial e o que é aplicado na prática são duas coisas diferentes.”

Randi Hutter Epstein, autora de “Get Me Out: A History of Childbirth from the Garden of Eden to the Sperm Bank” (“Me Tire Daqui: uma história do parto, do Jardim do Éden ao banco de esperma”, em tradução livre) disse que há uma tendência cultural que faz as mulheres sentirem a necessidade de captar a hora do parto em fotos.

“Há muita pressão para não apenas valorizar a experiência do nascimento, mas promovê-la como uma coisa linda”, disse ela. “Então você vai entrar em seus jeans skinny no dia seguinte e tem uma bela fotografia de você, absolutamente linda e bem descansada, com o seu bebê perfeito no colo, como todas as celebridades.”

Ainda assim, Randi admite que seria maravilhoso ter fotos de seu filho, hoje com 18 anos, na hora do nascimento. Seu filho, ela acrescentou, provavelmente discorda. “Ele não gosta de tirar fotos nem mesmo hoje em dia”, disse ela. Imagine naquele momento íntimo.

Leia mais sobre gestação e bebês

Guia do Bebê: desafios e características de cada fase, dos zero aos 12 meses

Pintar o cabelo? Comer comida japonesa? Tudo que a grávida pode ou não fazer na gestação

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.