Como o mercado vê as empresárias norte-americanas que criam startups ao mesmo tempo em que cuidam de filhos pequenos

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 Jennifer Fleiss, cofundadora da Rent the Runway, brinca com a filha Daniella no escritório da empresa
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Jennifer Fleiss, cofundadora da Rent the Runway, brinca com a filha Daniella no escritório da empresa

Empresas recém-fundadas dão tanto trabalho quanto crianças pequenas. Você precisa vigiá-las de perto. Mesmo assim, um pequeno grupo de mulheres está provando que é possível começar uma empresa de tecnologia de crescimento rápido e ter filhos ao mesmo tempo.

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Elas desfazem a imagem do “empresário prodígio de tecnologia”, geralmente do sexo masculino. É o caso de Jennifer Fleiss, 28, cofundadora da Rent the Runway  (em inglês), empresa de aluguel de vestidos e acessórios online com 2,5 milhões de membros. Ela deu à luz uma filha, Daniella, em dezembro.

Outro exemplo é Carley Roney, 43, cofundadora do Grupo XO, uma empresa de mídia de capital aberto avaliada em 300 milhões de dólares. Seus três filhos têm entre quatro e 14 anos.
Divya Gugnani é fundadora e chefe-executiva do Send the Trend  (em inglês), site de comércio eletrônico de acessórios e itens de beleza que foi comprado pela QVC em fevereiro. Em maio, Divya, 35, deu à luz seu filho Ashvin. E a lista continua.

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Forma antiquada

A média de idade de um empreendedor iniciante que resolve fundar sua primeira empresa é de 39 - o que significa que o início do seu negócio demanda o equilíbrio de responsabilidades familiares com a nova empresa.

Jennifer, Carley e Divya têm maridos com bons empregos, por isso não é o caso dos pais ficarem em casa para tomar conta da família. Por outro lado, os recursos financeiros para cuidar das crianças são fartos.

No entanto, grande parte do mundo dos investimentos, fortemente dominado por homens, permanece cética sobre a capacidade feminina de combinar o comando de uma startup de tecnologia com a maternidade, afirma Divya, que levantou 3 milhões de dólares junto a investidores antes de engravidar .

“Todas as mulheres que conheço que precisavam levantar dinheiro não tinham filhos à época", diz ela. “Há uma grande discriminação contra mulheres grávidas nessa área."
Ainda assim, para ela, tornar a gravidez e a maternidade pontos centrais no processo de investimento é uma forma antiquada de pensar.

Pouco espaço

Mulheres empreendedoras são menos numerosas e conseguem menos dinheiro de investidores do que os homens. Elas constituem 10% dos fundadores de empresas de crescimento rápido na área de tecnologia e “conseguem 70% menos dinheiro do que os homens, por causa da falta de acesso ao capital”, diz Lesa Mitchell, vice- presidente de iniciativas de inovação avançada da Ewing Marion Kauffman Foundation.

Em família: Carley Roney e os filhos no escritório da companhia que fundou com o marido
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Em família: Carley Roney e os filhos no escritório da companhia que fundou com o marido



Segundo Carley, os donos de capital diriam que a gravidez ou a maternidade de uma empresária não são fatores decisivos para investir ou não em uma nova empresa e que tudo se resume em boas ideias e gestão de equipe.

“Mas eu posso garantir que em reuniões privadas é um fator decisivo, sim", diz. É por isso que, “no início do negócio, o fato de ter um bebê era um segredo bem guardado."

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Em uma startup, carente de muita infraestrutura corporativa, os fundadores costumam fazer o trabalho de pelo menos cinco pessoas. “Especialmente se você é um fundador, a expectativa é que você esteja envolvido com a empresa e nada mais - se não for assim, você não está dando tudo que pode para o negócio", explica Carley.

Jennifer foi capaz de garantir 15 milhões de dólares em fundos de investimentos para empresas de capital fechado no ano passado, pouco antes de dar à luz. Se estivesse grávida quando lançou a empresa na primeira rodada de financiamento - a ideia não tinha sido aprovada ainda - ela afirma que teria conversado com mentores e conselheiros sobre como apresentar esse fato.

Os investidores precisam de um cenário completo dos compromissos assumidos pelos fundadores de uma empresa, dentro e fora do ambiente corporativo, afirma.

"Se alguém passa por uma cirurgia e precisa ficar ausente por três meses, é algo que você deve considerar, seja essa pessoa homem ou mulher. Qual é o impacto de ter o CEO ou o visionário da empresa fora por três meses?"

"Eu não concordo que homens e mulheres devam ser vistos em igualdade de condições em todos os aspectos da criação de uma família", diz. Certos fatores, como amamentação e recuperação do corpo, exigem que uma mulher se ausente por mais tempo, ela observa.

Aileen Lee, sócia da Kleiner Perkins Caufield & Byers, uma empresa de capital de risco em Menlo Park, Califórnia, coloca desta forma: "Se alguém passa por uma cirurgia e precisa ficar ausente por três meses, é algo que você deve considerar, seja essa pessoa homem ou mulher. Qual é o impacto de ter o CEO ou o visionário da empresa fora por três meses?".

Aileen ressalta que a gravidez não é um problema para ela, que apoia empresas no longo prazo. De 11 empresas que fazem parte de sua carteira, três são dirigidas por mulheres com filhos, incluindo a Rent the Runway, empresa de Jennifer.

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Divisão de tarefas

A questão das crianças, ao que parece, é encarada de forma diferente para os homens.
Neil Blumenthal, 31, cofundador da Warby Parker, de comércio de óculos, diz que suas responsabilidades familiares nunca foram questionadas, apesar de sua esposa, Rachel, também ser empresária e estar grávida no momento em que ele e seus cofundadores buscavam capital junto a investidores. Seu filho, Griffin, tem agora 14 meses de idade.

Ele diz que sua esposa, que dirige uma empresa de joias, trata mais dos cuidados com a criança - uma divisão de 60% contra 40% - porque a empresa dele é mais jovem e está em estágio mais intenso de crescimento.

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David Liu é CEO do Grupo XO, que fundou com sua esposa, Carley. Ele diz que os dois são parceiros na criação dos filhos, mas ele costuma viajar mais a trabalho do que a esposa, para que ela possa ficar mais tempo em casa.

Como outros, David vê um duplo padrão no mundo dos investimentos das startups.
“Acho que há uma série de desafios para as mulheres porque os investidores pensam: ‘quando elas vão engravidar? Quando vão acabar se distraindo?’. Eu acho que esse tipo de coisa é difundida, e é uma pena.”

Mas alguns investidores dizem realmente não colocar a maternidade na equação. “Se a empresária está grávida, tem filhos ou está planejando não é uma preocupação minha e, sinceramente, não é da minha conta", disse Brad Feld, que investe em empresas recém-fundadas há 20 anos e é diretor do Grupo Foundry, empresa de investimentos sediada em Boulder, Colorado.

Segundo Brad, essas questões nunca foram um problema. Das 43 empresas em que investiu, no entanto, apenas duas foram iniciadas por mulheres, sendo que uma delas tem filhos.

Continue lendo: como as empreendedoras norte-americanas cuidam de suas empresas ao mesmo tempo em que criam seus filhos

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