Por manha ou facilidade, muitos filhos invadem a cama dos pais. O que fazer se a cama compartilhada se torna um hábito?

Dormir sozinha é uma conquista que deve ser incentivada pelos pais
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Dormir sozinha é uma conquista que deve ser incentivada pelos pais
Levantar várias vezes à noite para acalmar o filho que está chorando, pegar a chupeta que caiu, dar de mamar ou fazer todas as alternativas anteriores não é fácil. A publicitária Giuliana Vaia, de 32 anos, sabe bem. “Sempre tentei fazer de tudo para que a minha filha sempre dormisse no berço, mas acabei desistindo: não aguentava mais levantar quinhentas vezes durante a noite”.

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Anna Luisa, de dois anos e oito meses, dormiu por um ano na mesma cama que a mãe. Giuliana cedeu quando, ao se separar do pai de Anna Luisa, ficava muito cansada para ter que levantar toda noite. Embora seja prático em muitos casos, surge o alerta: a cama compartilhada é saudável para o desenvolvimento da criança?

Especialistas dizem que não. E por diversos motivos. Para o psicólogo Caio Feijó, Mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência da UFPR, a criança pode começar a se sentir dependente da presença dos pais para dormir, principalmente se o hábito persiste depois dos cinco anos de idade. Mesmo antes disso é preciso ter cautela: dormir na mesma cama que o bebê tampouco é indicado pelo risco de sufocação .

Mas a proibição não está forjada a ferro e fogo. Ao contrário do que muitos pensam, não tem problema deixar a criança se aconchegar na cama dos pais de vez em quando porque está resfriada. Vira e mexe é o que Caroline Passuelo, 34 anos e autora do site Mamatraca , faz com os filhos, os gêmeos Leonardo e Rafael, de dois anos. Quando um está resfriado ou demasiadamente manhoso, ela não pensa duas vezes: “Nessas horas eles acabam dormindo na minha cama e eu os levo de volta durante a madrugada”. Os meninos nunca reclamaram ao voltar para o lugar deles.

Caroline Passuelo e os gêmeos: passe livre para a cama da mãe só quando estão doentes
Arquivo pessoal
Caroline Passuelo e os gêmeos: passe livre para a cama da mãe só quando estão doentes
Por que não?


Ao contrário do que faz Caroline, o problema em compartilhar a cama com os filhos costuma estar no lado simbólico de dormir junto com os pais. Dora Lorch, psicóloga e autora do livro “Superdicas para Educar bem seu Filho” (Editora Saraiva), explica que a criança pode confundir papéis. Ela exemplifica: se sempre que o pai vai viajar a mãe permite ao filho dormir na cama do casal, na cabeça da criança ela está ocupando o papel do genitor.

É preciso lembrar também que, em cama de marido e mulher, é melhor ninguém meter a colher. De acordo com Luciana Blumenthal, psicoterapeuta da Clínica Multidisciplinar, o filho que dorme junto com os pais pode atrapalhar o relacionamento dos dois. A criança precisa saber que o casal tem o seu espaço.

Preparando a independência

Ao nascer, a criança ainda continua muito ligada à mãe. Aos poucos, os pais devem ajudá-la a reconhecer-se como ser autônomo. Algumas conseguem se separar rapidamente, outras não.

Se o seu filho resiste em dormir na própria cama, a psicoterapeuta Germana Savoy sugere aos pais respeitar a adaptação dos pequenos na medida do possível, incentivando a separação com a ajuda de elementos transicionais, como o conhecido “paninho”, a chupeta ou o brinquedinho favorito.

Se você já permite a cama compartilhada, costuma ser mais difícil educar a criança para dormir no próprio quarto. Mas existem algumas estratégias para ajudar.

A criança deve entender que os pais também têm um espaço só deles, o que inclui a cama
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A criança deve entender que os pais também têm um espaço só deles, o que inclui a cama
A reconquista do próprio quarto


Após a separação, Giuliana foi morar na casa dos pais e durante esse tempo dormiu junto com a filha, embora Anna Luisa tivesse seu próprio quartinho . Há pouco mais de uma semana elas se mudaram e Giuliana aproveitou a oportunidade para fazer propaganda do novo quarto: “Eu disse para a minha filha que o novo quarto era um quarto de princesa e agora ela só está querendo dormir na cama dela”.

A ideia é fazer com que seu filho comece a ver o quarto como um lugar somente dele. A partir dos dois anos de idade, de acordo com Germana Savoy, a criança já começa a compreender bem as regras e o ideal é colocá-las de maneira prazerosa. No primeiro dia se conta uma história, no outro se canta uma canção. Também vale usar o faz-de-conta, como Giuliana fez com Anna Luisa. “A criança já tem recursos criativos para lidar com a realidade e com essas pequenas frustrações necessárias”, diz Germana.

Criar novos hábitos, de acordo com Luciana Blumenthal, é parte do segredo. Se a partir de hoje a criança vai começar a dormir na própria cama, os pais devem dar a atenção necessária para que isso aconteça – os rituais antes da criança dormir, como um banho morninho e a leitura de uma historinha, podem durar mais tempo.

Paciência também é essencial. Caio Feijó lembra que, após um período longo dormindo na cama dos pais, ao ter de encarar o próprio quarto a choradeira pode vir à tona. “É o mesmo que dar guloseimas para a criança e, ao levar um puxão de orelha do pediatra, cortá-las radicalmente”.

Luciana Blumenthal comenta que a adaptação para dormir na própria cama pode levar “de dois dias a seis meses”. Se os pais perceberem que demorará mais do que isso, é preciso procurar a ajuda de um profissional.

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