Cada vez mais mulheres optam por não ter filhos. Mas e se seus maridos sonham em ser pais?

É sempre assim: enquanto um gosta de acordar cedo, o outro prefere dormir até mais tarde. Um torce para o Palmeiras, o outro é corinthiano roxo. Ela gosta de vermelho, ele de azul. Até aí tudo bem, pois, para alento de homens e mulheres, diz o ditado que os opostos se atraem. De fato, algumas diferenças podem ser justamente o tempero de uma relação amorosa. Mas e quando o casal não consegue chegar a um consenso na hora de decidir sobre ter ou não um filho? E quando ele é louco pra ser pai e não vê a hora de carregar o herdeiro nos braços, enquanto ela sequer considera a hipótese de engravidar um dia?

Para o psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschnir, autor de livros como A relação Mulher & Homem (Editora Campus) e A Mulher e Seus Segredos (Editora Larousse), quando a opção por não ter filhos vem da mulher, geralmente isso está relacionado à etapa de sua profissionalização. É mais difícil que seja em função do seu relacionamento, por imaginar que seu companheiro não possui condições mínimas para ser pai. A restrição é inerente a ela própria, ao seu momento, e em alguns casos pode advir de traumas individuais, explica.

Já quando é o homem que não deseja ter filhos, Cuschnir afirma que geralmente estão em jogo preocupações financeiras ou mesmo a falta de auto-confiança de que é possível oferecer o ideal para uma criança ¿ ou, trocando em miúdos, para uma família que, em diversos aspectos, dependa dele. No caso masculino, também deve-se levar em conta o possível pouco comprometimento ou falta de confiança no relacionamento, completa.

Segundo o psicoterapeuta, porém, quando o homem decide deixar de ser solteiro e passar a ser marido, geralmente já está mais aberto para a paternidade. Se as experiências anteriores propiciarem uma segurança emocional e ele decidir se casar, provavelmente já estará pronto para querer ou mesmo aceitar a idéia de ter um filho, comenta. Já a mulher, hoje em dia, está muito sobrecarregada em termos de tempo e energia, e por este motivo, o espaço para ser mãe acaba, muitas vezes, comprometido. De acordo com Cuschnir, isso não significa, no entanto, que não haja uma necessidade interna do sexo feminino pela maternidade. Pelo contrário: ela sempre vai existir. A questão é que a mulher dos tempos atuais pode até ter seu físico atingido, apresentando problemas como falta de libido, dificuldade para engravidar ou mesmo esterilidade. Muitas vezes, o físico denuncia seus conflitos internos mais intensamente do que o racional que diz eu não sei bem se quero ser mãe, salienta.

Para evitar mal-entendidos, o casal deve, antes do casamento, conversar sobre esses e outros temas que podem ser polêmicos. Afinal, ambos terão uma experiência nova e vão se transformar a partir dessa nova etapa do relacionamento, justifica. Caso, porém, não chegue a um consenso, Cuschnir orienta o casal a procurar ajuda profissional. Neste caso, segundo ele, sessões de terapia que examinam e tratam o vínculo afetivo e amoroso são as mais indicadas. A delimitação do tempo deve ocorrer após homem e mulher terem lidado com as dúvidas, receios e mitos de cada um em relação ao tema, ressalta.

A jornalista Amanda Ribeiro, de 27 anos, diz que seus objetivos de vida não incluem um filho. Casada há três anos com o advogado Rodrigo de Campos, de 29, conta que a maternidade nunca foi um sonho ¿ diferentemente de seu marido, que sempre ansiou por ser pai. Se você se propõe a ter um filho, tem que se sentir pronta para isso. Tem que ter maturidade suficiente para ser uma boa mãe, para dar uma boa educação. Eu, sinceramente, não me sinto pronta. Sempre quis casar, mas nunca pensei em engravidar, afirma. Para ela, a mulher deve ter mais direitos na hora de decidir ¿ ou não ¿ pela maternidade. É ela quem vai gerar, parir, amamentar e abdicar de muitas coisas para cuidar da criança. Já para o homem é mais fácil, visto que não precisa abrir mão de muitas coisas, destaca.

Brigas e discussões por causa dessas diferenças já foram freqüentes. Hoje, no entanto, Rodrigo explica que lida melhor e respeita com mais naturalidade o tempo da esposa. Isso não significa, porém, que tenha mudado de opinião. Tenho certeza de que Amanda vai mudar de idéia na hora certa. Meu plano é que fiquemos grávidos em 2009, pois estaremos em uma idade bacana. Sempre estou falando sobre o assunto e tentando convencê-la. Não vejo a hora de poder passear com meu filho, praticar judô e levá-lo ao jogo de futebol do meu time, comenta ele, que planeja não só um, mas dois herdeiros. A terapia de casal, segundo ambos, ainda não foi necessária. Até agora, conseguimos nos entender, mesmo com as opiniões distintas. Apesar de não querer engravidar no momento, sei que posso, sim, mudar de idéia futuramente, afinal seria egoísta e injusto de minha parte privar meu marido de um sonho tão forte e antigo, pondera Amanda.

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