No Dia Internacional da Mulher uma companhia aérea resolveu comemorar dando o comando de um Boeing 737 só para mulheres

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Foram realizados dois vôos com uma tripulação exclusivamente feminina, que fez a rota São Paulo - Florianópolis - Porto Alegre, comandados por Elisa Rossi, 34 anos, a primeira comandante da empresa GOL e uma das poucas na história da aviação comercial brasileira. Ao lado dela, a co-piloto Gabriela, com serviço de bordo sob a responsabilidade de quatro comissárias da companhia.

Nós fomos perguntar para a Comandante Elisa Rossi como ela foi parar em uma profissão tão diferente e tipicamente masculina. É uma história e tanto, que você lê no depoimento a seguir.

Do interior de Santa Catarina para as nuvens
Comecei minha carreira no aeroclube de Chapecó (SC), onde voei poucas horas, pois em seguida consegui, por indicação de meu instrutor de vôo do Aeroclube de Chapecó (Edson Penno), um emprego no aeroclube de Santa Cruz do Sul (RS), onde trabalhava e dava aulas teóricas para pilotos iniciantes (esta segunda tarefa era feita em troca de horas de vôo). 

O caminho foi árduo, muito difícil mesmo, pois venho de família humilde e a parte financeira sempre foi meu maior obstáculo, superado pela vontade de um dia chegar onde estou. Os obstáculos não pararam por aí, após duras penas concluí meu curso de piloto comercial e logo fui à procura de emprego, em meados de 1995. Na época a aviação não estava muito em alta para contratações, mas não desanimei, pois achava que o pior já tinha passado, e com a maior coragem (e cara de pau) espalhei meu "pobre" currículo com miseras horas de vôo pelo Brasil inteiro.

Antes do avião, pilotando uma Kombi
Realmente estava muito difícil e a solução que vi, para ficar mais perto dos meus "pássaros de lata", foi trabalhar em uma comissária em Chapecó, onde eu ia até o aeroporto (dirigindo uma Kombi, já que o avião estava difícil) atender aeronaves com serviço de comissária, limpeza etc., isso por duas ou três vezes ao dia. Este foi o modo que encontrei para me manter sempre perto de uma possível oportunidade de emprego. E foi assim que arrumei emprego em um táxi aéreo em São Paulo. Uma pena que logo em seguida a empresa parou com as suas operações, estando eu novamente na "rua da amargura". 

Reviravolta
Na época bateu uma depressão e achei que definitivamente este negócio de voar não era  para mim. Mesmo assim parei e pensei: "Não posso desistir agora, pois já contrariei (inicialmente) a vontade de meu pai, gastei o dinheiro que não tinha, e agora se eu parar, o que digo a ele? E a minha família? E como fica o meu sonho?" Foi pensando sobre nisso, deitada num sofá em minha casa, que tomei a decisão. Levantei e disse a minha mãe: "Vou para São Paulo" Ela, sem entender nada e extasiada, me indagou: "Por quê? Para que? Com que dinheiro? Onde vai ficar? Eu Também não tinha as respostas, mas pedi a ela um instante para que pudesse responder as nossas perguntas.

Fiz alguns contatos e "me fui", como dizem lá no Sul. Liguei para pessoas, distribui mais currículos e uma semana após ter retornado para casa arrumei emprego em uma empresa regional nova em Presidente Prudente (SP). Novamente algo conspirava contra minha vontade de trabalhar, pois esta empresa também fechou. Sem problemas, continuei minha caminhada e logo em seguida arrumei outro emprego em um táxi aéreo em Campo Grande (MS) e depois deste em uma empresa regional em São Paulo, onde voei por sete anos, chegando ao cargo de comandante e instrutora na companhia. 

Mãe-piloto
Neste meio tempo engravidei, deixando de voar por um ano. Quando retornei da licença maternidade, vi que minha missão naquela empresa estava cumprida e que eu deveria voar mais alto. Vi que meu lugar agora era na aviação comercial, e que eu deveria realizar mais um de meus infinitos sonhos, a de comandar um Boeing. Foi difícil a nova carreira de "Mãe-Piloto", pois naquela ocasião uma parte de mim desejava ficar em casa.

Confesso que quase desisti do meu sonho, mas como diz o ditado: "Por trás de um grande homem sempre há uma grande Mulher". Para mim o mesmo serve para o inverso, pois meu adorável e grande incentivador de carreira, meu marido, também piloto e engenheiro Carmelo Faraco Jr., me disse: "Vamos lá garota, não desista, eu estou, estive e sempre estarei ao seu lado, para o que der e vier, e você vai conseguir continuar, eu te ajudo, pois amor e cuidados ao rebento, não irão faltar quando você estiver voando. Vá e voe em paz que o tempo arruma tudo. Não desista jamais e lembre-se que agora temos este "pequeno", que quando crescer, terá orgulho de você. Vá... voe...".

E foi assim que eu entrei na GOL, quando o pequeno Giuseppe estava com apenas sete meses. Hoje, aos quatro anos, meu pequeno entende (quase sempre) que a mamãe precisa voar. Eu entrei na GOL como co-piloto, e completo hoje três anos e cinco meses de empresa. Cheguei ao cargo de comandante no dia 29 de novembro de 2007 (dia do meu aniversário). Ironia do destino ou não, já que passei tantos aniversários sem comemorações e sem presentes, eu comemorei o meus 34 anos de idade realizando um sonho, o de ser comandante de um Boeing. 

Próximo destino: vôos internacionais
Atualmente estou com aproximadamente oito mil horas de vôo e almejo chegar um dia ao cargo de instrutora da Companhia, pois sempre amei ensinar. Acho que possuo este dom, mas isso quem avaliará quando for a hora será a empresa, aliado a necessidade do aumento do quadro de instrutores. Outro sonho que tenho é ser comandante de vôos internacionais, posição almejada por todo piloto. Digamos que este seria o fechamento da carreira com "Chave de Ouro". 

Paixão por máquinas
Vale frisar também que um dos motivos que me levaram a escolher esta profissão foi a paixão que sempre tive por máquinas (carros, motos, barcos ou qualquer coisa de metal que se movimenta e faz barulho). Aprendi a guiar moto aos 12 anos, carro aos 14 e tenho também carteira para pilotar barco (carteira de Mestre Amador), pois também adoro conduzir embarcações e esquiar. Diga-se de passagem, este é o meu hobbie em Florianópolis (SC), dentre os afazeres de mãe, mulher e dona de casa.

Não poderia deixar de dizer que o clima de trabalho na GOL é excelente. A receptividade dos colegas, tanto dos homens quanto das mulheres não poderia ser melhor. Esta é uma empresa que está sempre de portas abertas aos profissionais competentes e comprometidos.  Seus colaboradores prezam pela segurança de vôo. Espero que minha promoção na empresa sirva de inspiração profissional as co-pilotos mulheres da empresa que almejam, assim como eu almejei, um dia comandar um Boeing com segurança e alegria.

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