Mais uma boneca, mais um carrinho, um novo celular. Bombardeados por propagandas que estimulam o consumo, as criancas desejam comprar mais que utilizar o proprio produto ? e cabe aos pais ficar de olho

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De acordo com estudos, bastam apenas 30 segundos para uma marca influenciar uma crianca. E exatamente por conta dessa facilidade que a publicidade vem caprichando para acertar os seus pequenininhos alvos. Saber qual a marca do celular que ele quer comprar ou o nome da boneca que acabou de sair e muito mais facil que distinguir legumes na feira ou animais que moram no campo.

O resultado desse tiroteio de desejos durante a infancia e devastador. E encarando a perplexidade desse cenario e que a diretora e roteirista Estela Renner, junto com Renata Ursaia e o produtor Marcos Nisti, resolveram colocar a m?o na massa e fazer o ousado documentario Crianca, A Alma do Negocio. O filme mostra o impacto que a publicidade e a sociedade de consumo causam na formac?o de criancas e adolescentes.

A midia e fator importantissimo na construc?o da subjetividade, da propria identidade e dos valores pessoais. O problema e lutar contra quem esta presente diariamente (e muitas vezes mais presente que os pais) na vida das criancas. "A maior dificuldade que os pais tem e que so conseguem conversar com os filhos de vez em quando. A publicidade esta falando com essas criancas todos os dias", explica Ines Silvia Sampaio, Coordenadora de Pesquisa e Mestre em Sociologia.

E essa conversa funciona. N?o e a toa que 80% da influencia de compra dentro de uma casa vem das criancas (Fonte: TNS/ Intersciente, 2003). No documentario, uma das m?es entrevistadas explica bem quem e que define o que entra ate na despensa da cozinha. "Meu filho me fala o que ele quer comer. Eu compro coisas para o que ele quer e ele me pede. Ele sabe qual e o chiclete que faz a bolha azul e e aquele que ele quer. N?o foi eu que descobri, foi ele. E a partir disso eu fiquei sabendo", conta a m?e.

E e exatamente por funcionar conforme espera a publicidade ? lembrando que a crianca brasileira e a que mais assiste tv no mundo, de acordo com o IBGE: em media, s?o 4 horas e 51 minutos diarios ? que a crianca tem partes da sua vida completamente afetadas. Sabem nomes de salgadinhos, nuggets, balas e bolachas. Frutas e legumes? N?o, eles passam longe. Em Crianca, A Alma do Negocio, foi perguntado para uma molecada qual o nome de simples alimentos na feira. E de arrepiar os cabelos: a grande maioria das criancas n?o sabia o nome de mangas, abobrinhas, berinjelas e piment?es.

Essa explos?o de consumo ja esta t?o ampla que fica dificil para os pais segurarem a onda da criancada, ja que nem so a tv ou a internet s?o os responsaveis por induzir o desejo desenfreado de compra. A manicure Maria Celia, 36 anos, ja tentou de tudo com o seu filho Gabriel, de 6 anos. Regulei os horarios para ver televis?o e usar o computador. Mas n?o adianta. Ele tem um grupo imenso de amigos na escola e no condominio que continua comprando e usando determinados produtos. Como vou brigar contra isso?, indaga ela.

Como a publicidade atinge a crianca

Em entrevista para o documentario de Estela, o diretor em Ciencia da Comunicac?o da Escola de Comunicac?o e Artes (USP) Clovis de Barros Filho explica como essa loucura por consumir sai da telinha e cai no meio social da crianca: A publicidade promete mais que a alegria da posse. Ela promete a alegria da inscric?o na sociedade. Ela promete a alegria da existencia na sociedade.

Um bom exemplo disso e o celular. Virou utensilio indispensavel para criancas de todas as idades. Ter um aparelhinho de ultima gerac?o e quase como mostrar-se que esta vivo. De acordo com o jornal O Globo, 48% das criancas de classe AB possuem celular. O aparelho, frequentemente, tem um papel de diferenciador entre pessoas, embora, teoricamente, a sua func?o maior ser de aproximar as pessoas, explica Yves de La Taille, professor titular do Instituto de Psicologia da USP

A condic?o socio-economica n?o influencia nesse desejo de consumir desenfreadamente. Uma crianca de classe media ou classe media alta vai ter o mesmo apelo ao consumo que o de uma crianca que as vezes n?o tem condic?o sequer de comprar o proprio alimento, conta Ines.

Ou seja: ter a mesma sandalinha que a amiga da escola ou o mp3 igual ao do vizinho cria uma padronizac?o entre as criancas. Com a aquisic?o da compra, elas passam a ser iguais as outras. E e ai que o desejo de comprar passa a ser a coisa em si e n?o o que ela esta adquirindo. Em outra entrevista para o filme, uma das m?es desabafa: Passei o Natal dura, comecei o ano dura, mas eu dei o brinquedo pra ela. Ela brincou uns 3 ou 4 dias e em uma semana ela ja n?o punha mais a m?o no brinquedo.

Culpar os pais por esse habito e a melhor soluc?o?

Ana Lucia Villela, presidente do Insituto Alana e Mestre em Educac?o, diz que n?o: Tem uma industria bilionaria bombardeando a cabeca dos filhos deles dizendo: Comprem isso, comprem aquilo!. E ai, a propaganda pinta os pais como vil?es, como os responsaveis por negarem os desejos dos filhos.

E com a falta de tempo, a correria do dia-a-dia e a ausencia em casa, grande parte das m?es e pais caem nessa armadilha. Usam presentes e dinheiros para suprimir o vazio e o companheirismo necessario para uma relac?o saudavel. Com todo o amor que tem, o pai e a m?e fazem tudo para acertar. O que eles n?o conseguem perceber e que esse filho so vai se desenvolver no contato com a realidade e, portanto, no contato com a frustrac?o, com o n?o, com o n?o dar, com o n?o pode, explica durante o filme Ana Olmos, psicanalista.

Portanto, a regra numero um e n?o ter medo de negar. Impor limites e explicar que n?o e possivel comprar tudo o tempo todo, esclarecendo que o consumo deve ser pautado pela necessidade, e um bem que se faz ao filho, e n?o um mal.

Iniciativas contra a mare

Algumas empresas e veiculos de informac?o est?o dispostos a reverter esse quadro. E o caso da Nestle e da TV Cultura. A empresa multinacional resolveu voltar a comunicac?o dos produtos da linha infantil para os pais, sem o apelo com as criancas. A TV Cultura deixou de fazer anuncios destinados aos pequenos durante os intervalos da programac?o infantil.

E importante lembrar que a crianca tem desejos e eles s?o fundamentais. O que ela n?o sabe e que determinado desejo foi implantado nela; n?o e um desejo real, explica Ana Lucia Villela. Exatamente por isso que informac?o e o primeiro passo. E preciso comecar a lutar por uma mudanca de valores na nossa sociedade, para tentar, aos poucos, tirar as criancas da frente das telas ? da semi-hipnose e apatia ? para praticar mais esportes, ter uma alimentac?o saudavel, conviver mais com a familia e com os amigos, estar em contato com a natureza, ler e brincar mais, explica a diretora do Instituto Alana.

E n?o esqueca que o consumismo infantil esta alem da esfera familiar. Criancas que criam o habito de consumir desenfreadamente e inconsequentemente criam valores distorcidos, num mundo onde o lema e adquirir e descartar ? e que por isso mesmo esta a beira de um colapso.

Individuos conscientes e responsaveis s?o a base de uma sociedade mais justa e fraterna, que tenha a qualidade de vida n?o apenas como um conceito a ser perseguido, mas uma pratica a ser vivida: essa e a proposta do Instituto Alana. Que tal comecar a vive-la?


Para saber mais
Crianca, A Alma do Negocio ?
assista aqui
Instituto Alana

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