Coleções de bonecas ou outras manias teens podem parecer uma parada no tempo, mas não significam necessariamente imaturidade

Sheyla e seu bolo de 30 anos: aniversário junto com a personagem Hello Kitty
Arquivo pessoal
Sheyla e seu bolo de 30 anos: aniversário junto com a personagem Hello Kitty
"Todo mundo tem direito a um hobby". É assim que Flávia Romanha, 34 anos, se defende das acusações de imaturidade relacionadas à sua coleção: ela guarda em casa 32.800 papéis de carta, nos formatos, cores, tamanhos e estampas dos mais variados. Flávia - que é bancária e está casada há 10 anos - está acostumada às críticas feitas a seu passatempo. "Não tenho nenhuma vergonha da minha coleção, nem acho que ela seja infantil", diz.

O psiquiatra e psicanalista Paulo Quinet, da Federação Brasileira de Psicanálise, alerta: antes de considerar imaturas as pessoas que gastam mensalmente com material de papelaria ou que pretendem celebrar os 30 anos com uma festa em um buffet infantil, é preciso conhecer a postura que elas têm diante da vida. "Uma pessoa madura é capaz de ter um relacionamento emocional maduro, uma postura profissional madura e independência financeira", define ele. Flávia se considera bem encaixada em todos os quesitos. "Sou formada, pós-graduada, tenho uma carreira e sou casada", descreve. "As pessoas que ficam sabendo da coleção imaginam que, por trás dela, não pode existir uma pessoa com uma vida 'normal'".

"Vida normal" também é a de Sheyla Moraes, que tem 35 anos, é casada há 6 e trabalha na área comercial. Da mesma forma que a personagem Hello Kitty, Sheyla comemorou 30 anos em 2004 - e não perdeu a chance de fazer uma festa com os temas da gatinha. "Tenho algo entre 50 e 100 itens da Hello Kitty", contabiliza ela, que participa da comunidade "Girlie sim, e daí?" no orkut - dedicada às mulheres dispostas a assumir seu lado menininha.

Sheyla e seu bolo de 30 anos: aniversário junto com a personagem Hello Kitty
Arquivo pessoal
Sheyla e seu bolo de 30 anos: aniversário junto com a personagem Hello Kitty
Sheyla também defende seu hobby. "Não vivo como criança. Trabalho como adulta, ajo como adulta, vivo como adulta", explica. "Não entendo porque uma mulher não pode gostar de rosa sem ser taxada de infantil. Tem gente que gosta de verde, de preto, de azul... É gosto, é algo muito particular".

"Ninho cheio"

Por outro lado, adultos que mantêm distância de bonecas plásticas de gatinhas ou de outros objetos que lembram a infância podem perfeitamente ser "adultescentes" - para os pais e para eles mesmos. Observando a permanência cada vez mais prolongada dos filhos na casa dos pais, a psicóloga Paula Grazziontin Silveira, pesquisadora na área de Psicologia Social, escreveu um artigo a respeito do que ela chamou de "ninho cheio".

Segundo dados contidos no artigo e compilados em 97, "81% das famílias paulistanas nessa etapa ainda possuem pelo menos um filho adulto jovem em casa". "Na Espanha, 67% dos rapazes e 49% das moças de faixa etária entre 25 e 27 anos ainda permanecem vivendo na casa de seus pais", escreve Paula. Mas a psicóloga também faz uma ressalva: nem sempre a causa da permanência na casa dos pais é a imaturidade. "Muitas vezes isso ocorre por conta do mercado de trabalho. Hoje é preciso mais tempo de estudo, mais especialização para se estabelecer", diz. Mas nem todos os casos são assim.

Um dos casos relatados por Paula é a história de Felipe, formado em Administração de Empresas, que trabalhava com o pai em um negócio de Engenharia Mecânica. À época do estudo desenvolvido pela psicóloga, ele tinha 35 anos e morava com os pais - embora houvesse, com a namorada, comprado um apartamento e, mais tarde, decidido vender o imóvel, alegando que não teria condições de sustentar uma casa. Paula descreve Felipe como alguém "que não faz planos para o futuro (...) e não expressa o desejo de formar uma família, nem de ser pai, dentre outros desejos que se esperariam em seu momento vital". Para ele, o pai era um "aposentado que continuava a trabalhar", pois "ainda tinha um filho para sustentar".

Um dos traços típicos do comportamento "adultescente" está na história de Felipe: a incapacidade de estabelecer uma identidade e uma carreira profissionais por si só. Segundo Paula, outra característica básica é não conseguir estabelecer um relacionamento duradouro e estável na vida amorosa.

Adolescência prolongada

Na visão do psiquiatra Paulo Quinet, a "adolescência prolongada" é um problema bastante comum atualmente. "Hoje existe uma certa descrença, uma falta de perspectiva que leva a insegurança. Junto ao nível de cobrança, as pessoas ficam com uma sensação de incapacidade, que mina a autoestima e as paralisa", avalia.

Os pais têm um papel fundamental na criação da figura do "adultescente". Se eles não dividem as tarefas ou as responsabilidades domésticas e resolvem todos os problemas dos filhos, estão definitivamente criando mais um para o clube.

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