Emprego dos sonhos? Nem sempre. Entre outras coisas, o candidato tem que gostar da falta de rotina e saber lidar com a saudade

A brasileira Janete passa 45 dias trabalhando em Angola e 15 dias em casa, na África do Sul
Arquivo pessoal
A brasileira Janete passa 45 dias trabalhando em Angola e 15 dias em casa, na África do Sul
Quem nunca se deixou levar pela crença de que viver viajando pelo mundo seria o verdadeiro emprego dos sonhos? Claro que conhecer novos lugares, não ter rotina e se hospedar em bons hotéis são atrativos poderosos. Mas não é só disso que se faz uma viagem de negócios. Mesmo que possa parecer estranho, quem vive viajando em razão do seu emprego enfrenta dificuldades.

“A viagem nada mais é do que a expansão geográfica das atividades do profissional”, observa a headhunter e coach Fabiana Santiago. Ela lembra que a função fascina e, por isso, talvez seja complicado para as pessoas que não se encontram nessa posição enxergar que trabalho é diferente de turismo. “Eu viajo bastante a trabalho e não é igual a passar férias em um lugar. Você fica várias horas no avião e no aeroporto. Às vezes, nem sequer sai do hotel”, conta.

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Perfil ideal
Homens solteiros. Eles levam vantagem na corrida por uma vaga que exija muitas viagens. “Nem sempre essa posição é explícita por parte da empresa, mas esse tipo de trabalho para mulheres com filhos pequenos fica realmente mais complicado”, admite Fabiana. A rotina e os cuidados com as crianças exigem que a mulher tenha uma disponibilidade maior para estar perto da família. “Claro que os homens também podem cuidar da família. Mas não há como negar que ainda é uma tarefa bastante feminina.”

“Quando a mulher é casada não é tão problemático. Só quando resolve ter filhos a situação muda um pouco. Normalmente vemos mais homens com funções que exigem ficar um tempo ausente de casa”, afirma a headhunter da Michel Page Karina Pinho. Contrariando a maioria, a gerente de contas Luciana Kuzuhara, 35, que tem uma filha de dez meses, passa a maior parte do seu tempo viajando. Ela viaja frequentemente para resorts no Brasil todo e faz algumas viagens internacionais por ano. "Faço minha agenda e procuro passar uma semana viajando e a outra em São Paulo." A gerente admite que é preciso muito jogo de cintura para a vida pessoal não atrapalhar a carreira.

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“Confesso que na semana anterior a uma viagem fico triste por deixar a minha filha que é tão nova. Mas quando saio para trabalhar eu ‘desligo’ o botão de mãe e penso na minha carreira. Quem cuida da minha filha quando estou ausente é minha mãe. Isso me ajuda muito a ficar mais tranquila”, afirma Luciana que precisou contratar uma pessoa para ajudá-la com as tarefas domésticas. “Quando eu não tinha ninguém para essa função passava finais de semana cuidando da casa. Simplesmente não dava mais para fazer isso.” Apesar da saudade da filha e do marido, ela gosta bastante do seu esquema de trabalho. “É muito gratificante. Além de conhecer muitos lugares legais, isso me possibilitou crescer profissionalmente.”

O arquiteto de sistemas Lex Blagus, 32, considera que a tecnologia é uma aliada poderosa na hora da saudade. “Tenho uma filha e moro com minha namorada. Quando eu viajo podemos passar horas conversando pelo computador. Acho que o importante é que os momentos que passamos juntos são relevantes e com significado.” Lex confessa que a possibilidade de viajar com frequência foi fator decisivo para aceitar seu emprego atual. “Viajar a trabalho não é a mesma coisa que ir a passeio, mas ainda assim é viagem. Eu adoro. Ficar em casa muito tempo cansa e no mesmo escritório também.”

Gostar da falta de rotina, aliás, é condição importante para quem não tem uma base fixa no trabalho. “Quem tem esse tipo de emprego tem que gostar de desafios e não pode se apegar muito à rotina”, afirma Fabiana. “A pessoa deve ter muita flexibilidade de horário e ser bem resolvida na vida familiar para que isso não reflita no campo profissional. Também precisa ser capaz de se adaptar a novas culturas com facilidade”, completa.

Benefícios e desvantagens
As vantagens desse tipo de emprego são bastante tentadoras. Afinal, o apelo de ser pago para conhecer novos lugares e, muitas vezes, ótimos hotéis fazem muitos olhos brilharem. Mas além desse benefício já bastante alardeado existem outros não tão óbvios.

“O profissional normalmente tem uma remuneração melhor porque viajar é um diferencial. Isso conta muito para sua experiência. Vários executivos, por exemplo, colocam suas viagens mais significativas no currículo”, explica Fabiana Santiago. A headhunter Karina completa: “O funcionário fica bastante exposto na empresa. A possibilidade de conhecer boas práticas profissionais em diferentes locais também é um ponto positivo. Além da rede de contatos se tornar bem ampla.”

A geóloga Janete de Bona, 32, mora em Johanesburgo, na África do Sul, e passa 45 dias trabalhando em outro país seguidos por 15 dias de folga em casa. “Quando aceitei o emprego gostei da ideia de ter que viajar porque um trabalho no exterior se torna um diferencial na nossa vida profissional.” Apesar de reconhecer os benefícios, ela sabe que as desvantagens existem. “Privar-se do convívio com a família e não ter uma rotina definida são as maiores dificuldades.”

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“Sempre chego muito cansado de tanta viagem e quilômetros rodados”, diz Dani Genz Uszacki que trabalha viajando pelo Rio Grande do Sul
Arquivo pessoal
“Sempre chego muito cansado de tanta viagem e quilômetros rodados”, diz Dani Genz Uszacki que trabalha viajando pelo Rio Grande do Sul
“É complicado fazer cursos de especialização ou idiomas, por exemplo. Tudo que exija uma periodicidade definida é mais difícil. Além disso, por estar sempre longe fisicamente da empresa, o funcionário pode acabar sendo um pouco esquecido”, analisa Karina.

Além disso, o cansaço físico acaba aparecendo depois de um tempo. “Quem viaja por 10, 12 anos fica cansado. Alguns, mesmo com o desgaste físico, gostam e continuam assim a vida toda. Outros preferem acalmar um pouco. Depende do perfil de cada pessoa”, diz Fabiana.

“Sempre chego muito cansado de tanta viagem e quilômetros rodados”, conta o também geólogo , 31, que trabalha para o Departamento de Estradas e Rodagem do Rio Grande do Sul. Ele, que viaja sempre dentro do estado, conta que apenas no mês de setembro deste ano visitou mais de 15 municípios e, pelo menos, 20 rodovias diferentes. “Confesso que gosto de ter rotina e tento mantê-la, sempre que possível.”

Dani expõe que existem dificuldades burocráticas para quem viaja muito. “Depois das viagens, temos muitos relatórios para preencher. Também é difícil ter que resolver algo em uma repartição pública, por exemplo.” Para o geólogo, o grande benefício é fazer novas amizades. “Isso é muito gratificante.”

Para os que desejam viver viajando a negócios, Karina dá um conselho: “O que importa é estar bem informado sobre as condições do trabalho e sobre tudo que você ganhará e terá que abrir mão se aceitar uma vaga que exija viagens constantes.”

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