Conheça as dificuldades de quem resolve largar emprego e vida social para tentar passar em um concurso público

O presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac), Ernani Pimentel, não gosta da palavra concurseiro. Prefere concursando. Para ele, o sufixo “eiro” geralmente adotado pelos candidatos quando se referem a eles mesmos dá uma ideia de profissão. “É como padeiro, pedreiro. Se o cara se diz concurseiro, parece que a profissão dele é estudar para concursos”, explica. A ironia é que, em muitos casos, a melhor definição é esta mesma – a dedicação para buscar a promessa de estabilidade e bons salários de um concurso disputado tem feito muita gente abandonar emprego, vida social e convivência familiar para estudar em tempo integral. Com a inspiração da algo cruel máxima disseminada entre profissionais da área e candidatos de que o segredo “não é estudar para passar, é estudar até passar”, a decisão geralmente é tomada sem prazo final.

Com dez milhões de inscrições anuais estimadas pela Anpac, os concursos públicos movimentam cerca de 500 cursos preparatórios espalhados pelo país, fora as publicações e fóruns especializados. Com uma preparação mais acessível, o nível dos candidatos melhora e, consequentemente, a disputa fica mais difícil. “O perfil da educação para concurso está mudando pela segunda vez. Os cursos semipresenciais cresceram muito, tirando alunos de dentro da sala de aula. Nas cidades do interior, professores mais bem preparados chegam via satélite. E o mercado de cursos online está crescendo, o aluno não precisa sair de casa”, diz Ernani. “Isso faz com quem gente fora dos grandes centros possa competir com os mesmos recursos”. A preparação formal, que seria uma vantagem, passa a alcançar mais gente em mais lugares, com aulas pelo computador ou apostilas em bancas de jornal. Logo, a vantagem se dilui.

As histórias de sucesso são fáceis de encontrar: são as listas de nomeados de cada concurso, com aprovados que se dedicaram exclusivamente, parcialmente, por mais ou menos tempo, com a ajuda ou não de cursinhos. É em se destacar diante da expansão de recursos que pensam os que decidem adotar a radical decisão de largar tudo para buscar seu objetivo. Mais tempo e disposição para estudar são as vantagens mais óbvias da medida. As desvantagens, no entanto, podem ser menos claras.

Inexperiência

O capixaba Fábio Souza, 27, formou-se em direito por uma faculdade privada há cinco anos. Durante o curso, não conseguiu estágio, mas não se preocupou. “Desde o último ano, comecei a me preparar para concursos de nível superior em minha área”, diz. Para ele, a nomeação seria apenas questão de tempo - estudar até passar. Fábio continuou se dedicando exclusivamente aos estudos mesmo depois de formado. “Muitos de meus colegas começaram a trabalhar nessa época por salários e condições abaixo do que eu esperava depois de tanto investimento em um curso superior. Muitos aceitaram vagas até fora da área”, afirma. As ofertas para um advogado iniciante ficaram cada vez menos interessantes com o passar do tempo. Hoje, seis anos de estudo depois, Fábio ainda não foi nomeado. Agora cogita entrar para o setor privado, mas é ele quem não oferece o que o mercado quer. “De repente, sou um advogado de 27 anos sem nenhuma experiência profissional. Honestamente, não sei o que fazer”, desabafa.

Família

Os problemas a serem levados em conta se espalham facilmente do campo profissional para o pessoal e familiar. Paula Moura, de 26 anos, deixou seu emprego no final de 2008 para se preparar para concursos. Seu objetivo tem duas etapas. A primeira é um “concurso-ponte”, ou seja, conseguir uma vaga de nível médio que garanta rendimentos e estabilidade compatíveis com o que realmente quer: se formar em Direito e passar em um concurso de Defensoria Pública. Paula vive em Fortaleza com a mãe, o que quer dizer que ela tem suas necessidades básicas supridas sem precisar trabalhar. Mas não quer dizer que seja fácil ou bem aceito.

“O relacionamento familiar foi e ainda é o mais afetado. Eles têm aquela visão de que o importante é você ter um emprego, não importa se é um escravo, ganha mal”, diz. Isso gera comparações e cobranças, de acordo com ela. Paula conta que sua carga diária de estudos desde que deixou o emprego é igual ou maior a um expediente profissional padrão de oito horas. Mas que isso não impressiona ninguém em casa. “Como eu fico dentro do meu quarto, no computador, na visão deles estou fazendo mil coisas, planos para dominar o mundo. Estou estudando e quem está fora não vê isso”.

Quem decide levar vida de estudante pode ter também que lidar com problemas tipicamente de estudante, mesmo já sendo adulto. Paula, por exemplo, aos 26 anos precisa pedir dinheiro para a mãe se quiser comprar um picolé. “O lazer é importante. Mas eu não saio há muito tempo. Minha mãe diz que não vai me dar dinheiro para farrear”.

O concurseiro mineiro Ricardo Neves, 23, busca uma vaga no Banco do Brasil
Alexandre Guzanshe/Fotoarena
O concurseiro mineiro Ricardo Neves, 23, busca uma vaga no Banco do Brasil
Essa cobrança é um dos principais riscos da dedicação exclusiva, segundo o juiz e autor especializado em concursos William Douglas. “Uma fonte de estresse ocorrerá nos casos em que alguém estiver bancando as despesas e começar a ficar impaciente. Ou seja, se parar de trabalhar vai trazer mais tempo, mas também mais estresse, acho que não vale a pena”. A impaciência é justificada: considerando-se apenas as despesas diretamente relacionadas aos estudos, o custo de ser um concurseiro é de R$ 10 mil por ano, em média, de acordo com a Anpac.

Mas existem tantas variações quanto existem famílias. O fato de o estudante ter o apoio dos parentes não significa que sua decisão não os afete nem seja fonte de ansiedade. Filho de funcionário público, o mineiro Ricardo Neves, 23, teve a aprovação do pai quando, insatisfeito com as condições de trabalho, deixou o que considerava um bom emprego em um banco privado para se dedicar exclusivamente aos estudos para conseguir um cargo no Banco do Brasil, onde já foi estagiário. “Eu vi os dois lados da moeda”, diz. O plano de Ricardo, que se dedica exclusivamente aos estudos desde o início de 2010, é ser aprovado até o final do ano. Para isso, já prestou seis concursos, cogita morar em outros Estados e se dedica em tempo integral. Anda satisfeito com os próprios resultados e tem boas perspectivas.

Mesmo em um cenário aparentemente ideal como o de Ricardo, há custos familiares envolvidos na decisão. “Meu pai está prestes a se aposentar pelo Banco do Brasil. Combinei com ele de aguardar minha aprovação para fazer isso”, conta. Ele explica, no entanto, que não sabe por quanto tempo será possível manter esse acordo. “Minha tia morreu recentemente e deixou três crianças, que provavelmente se tornarão nossa responsabilidade. E descobrimos recentemente que meu avô também está doente”, diz.

Relacionamento

Ricardo tem uma namorada que também estuda para concursos, embora mantenha seu emprego como professora. Já a concurseira Paula, sem “dinheiro para farrear”, conheceu seu namorado em um fórum sobre o assunto, e os dois se encontram mais “através de tecnologia” do que pessoalmente: como ele mora em outro Estado e ela tem pouco tempo, eles não se veem com a frequência que gostariam. "E ele é um cavalheiro, é quem cuida de todas as despesas dos encontros", conta.

Mas, entre os concurseiros profissionais, namoro muitas vezes entra no rol de coisas de que abrem mão. Silvia Holanda, 31, estuda exclusivamente há três anos, e já terminou dois relacionamentos porque os namorados não aceitaram dividir o tempo com sua carga de estudos. “Agora nem procuro mais. Vou focar em meu objetivo principal. Se não é alguém para me apoiar, não adianta”.

E agora?

Esse sacrifício é o único jeito de entrar? Nenhum dos especialistas ouvidos pelo Delas recomenda a dedicação exclusiva como único caminho para aprovação, embora apenas um a descarte totalmente. "Não recomendo, impetuosamente não. Dá para conciliar emprego, familia e filhos, esse é o perfil de quem passa. Porque, via de regra, se largar tudo a cobrança passa a ser insustentável", diz José Luis Romero Baubeta, diretor da rede de escolas preparatórias Central de Concursos.

Todos concordam que o que mais leva as pessoas a tomar essa decisão é também o que acaba se tornando a maior fonte de problemas: pressa. "Se a pessoa tem condições de se dedicar integralmente ao estudo, ótimo. Entretanto, nem sempre é tão simples. É claro que existem casos de gente que parou de trabalhar para se dedicar aos concursos públicos e se deu bem, mas também existem casos de gente que acabou arranjando mais stress e não deu certo", acredita William Douglas. "Entre os problemas frequentes está o erro de fixar um prazo para passar, por causa da grana disponível e ficar estressado por não passar enquanto vê a reserva financeira se esgotando".

Ernani Pimentel, presidente da Anpac, também vê no tempo a maior fonte de pressão. "Nunca foi fácil passar em concurso, sempre exigiu um tempo de dedicação. Muita gente está tomando essa decisão da dedicação exclusiva para antecipar a aprovação. Mas ele tem que se posicionar como uma pessoa tranquila, pensar que interessa quando vai passar, interessa que está avançando", diz. "Tem que esquecer a idéia de prazo. O prazo é o fator estressante".

O importante, para eles, é que o concurseiro não perca o controle de seu projeto. "As pessoas têm que pensar em um plano B. Uma coisa é procurar emprego desempregado, outra é procurar desesperado", lembra Baubeta.

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