Sem burocracia, plataformas online de captação de recursos ajudam a tirar sonhos e projetos do papel - ou da tela do computador

Quem nunca pensou em largar tudo, dar a volta ao mundo e escrever um livro sobre a aventura? Há também as pessoas que tem ideias visionárias, como criar um negócio que ajude uma comunidade a ser mais independente. Se o problema é financiar o projeto, a solução pode estar no crowfdfunding, a captação de recursos por microdoações de simpatizantes da ideia.

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O fotógrafo Paulo Fehlauer pretendia usar esse método antes mesmo de haver empresas brasileiras de crowdfunding. O Garapa, coletivo do qual Paulo faz parte, havia documentado a comunidade ao redor dos edifícios São Vito e Mercúrio, demolidos esse ano. “Era um projeto de R$ 16 mil, pouco dinheiro para captar por vias burocráticas. Achamos mais interessante envolver pessoas no processo, é uma troca com o público”, afirma. A exposição estreou 10 de novembro no Museu da Imagem e Som de São Paulo, e fica em cartaz até 11 de dezembro, graças ao Catarse. “O formato ajuda a viabilizar projetos autorais de forma independente e criativa”, diz o fotógrafo.

O coletivo Garapa financiou sua exposição por meio de crowdfunding
Garapa
O coletivo Garapa financiou sua exposição por meio de crowdfunding
O Catarse, onde Paulo inscreveu sua exposição, foi lançado há 10 meses. Diego Reeberi, sócio-fundador, acredita que o crowdfunding pode ser útil para qualquer tipo de ideia. “O limite que eu vejo no Brasil, pela falta de uma cultura de mecenato, são projetos de até R$ 100 mil”, afirma. O site se mantém cobrando uma porcentagem das doações. Já entraram no ar 270 projetos, dos quais 110 foram bem sucedidos, 80 não atingiram o valor necessário, e 80 estão no ar, em captação. “Tivemos mais de 10 mil apoiadores diferentes, que doaram R$ 1,2 milhão”, diz.

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Reeberi aponta três fatores que são tiro e queda para financiar um sonho: a pessoa precisa ser capaz de contagiar as pessoas com sua paixão, ter um bom planejamento de como realizá-lo e uma rede de contatos com afinidade pelo tema. “O ponto mais relevante é a rede de contatos onde a pessoa vai divulgá-lo. No começo, as doações vêm de pessoas próximas. No final, as pessoas são convencidas pelo contingente que já apoiou a ideia”.

De grão em grão
O fotógrafo concorda. “Só a internet não vai pagar seu projeto. Tem que correr atrás das pessoas. O financiamento faz parte de uma relação com elas, que vão cobrar os resultados. Quanto mais criatividade na divulgação, melhor.” Além do Catarse, no Brasil, há plataformas como o Vakinha, Incentivador, Ingressar, Produrama, Movere.me, Senso Incomum, Benfeitoria, Embolacha, Sibite e Ulule – muitos deles dedicados a projetos artísticos e culturais.

A ideia é que a rede local de amigos e contatos também se torne divulgadora da ideia. O Vakinha foi o primeiro site a usar esse princípio no Brasil, em 2009, ao permitir que, com alguns cliques, a pessoa faça uma doação – mesmo modelo das “vaquinhas” entre amigos. Comprar uma caixa d’água, pagar a lua de mel, a viagem de formatura, a cirurgia de implante de prótese de silicone: vale tudo, ainda que certos pedidos demandem uma boa dose de cara de pau.

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Com foco em projetos de transformação social, o Benfeitoria chama atenção por não cobrar taxa dos usuários. “Custeamos o site com apoio de empresas e instituições que tenham afinidade com nosso discurso de propor mudanças, nos unir e fazer ações práticas”, diz Dorly Neto, um dos administradores do Benfeitoria. “Sonho é um projeto que você quer muito realizar. Ajudamos a pessoas a dar um formato, definir argumentos e recompensas. A gente foca em levantar o poder de divulgação dela. Se você precisa de cerca de 100 colaboradores, vai precisar de pelo menos 20 vezes mais acessos”, exemplifica.

No Santa Marta, a festa de dia das crianças foi financiada por vários microdoadores, em vez do tráfico
Divulgação
No Santa Marta, a festa de dia das crianças foi financiada por vários microdoadores, em vez do tráfico
O Benfeitoria foi lançado em 28 de abril, Dia Mundial da Boa Ação. “Temos uma média de 75% de concretização. O Kickstarter, primeiro do mundo a realizar esse tipo de projeto, tem 48% de projetos viabilizados”, cita Dorly. “Nosso foco são projetos que proponham uma mudança social, mas não necessariamente filantrópica. Uma marca que acrescenta a uma cultura colaborativa, por exemplo.” É o caso da Doméstica, marca aberta de cerveja, que qualquer um pode usar e reproduzir em casa, projeto em andamento.

Provando a vocação do crowdfunding para pequenos projetos, o produtor cultural Thiago Firmino levantou dinheiro e fez uma festa de Dia das Crianças na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. “O tráfico financiava as festas, e eu não achava muito bacana. Doavam brinquedos, bicicletas, e a gente sabia que tinha mercadoria roubada”, diz. Como as festas rarearam, ele bolou o projeto para arrecadar R$ 3 mil. “Foi o maior sucesso, conseguimos mídia, ultrapassamos o valor, conseguimos vários parceiros. Cresceu tanto que não tivemos que dar um real. Sobrou dinheiro até para ajudar na festa de Natal.”

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Dicas para fazer seu projeto decolar na internet
- O projeto precisa ser relevante para as pessoas para que elas, além de ajudar a financiar, se tornem divulgadoras
- As recompensas precisam ser criativas e, de preferência, serem ligadas ao projeto. Um colaborador que doou R$ 1 mil espera algo interessante em troca
- Um vídeo bem-feito e curto dá transparência e credibilidade ao projeto
- Antes de começar a divulgar, o dono da ideia tem que saber claramente a que segmento de público interessa o projeto para posicioná-lo na rede certa
- Gerar conteúdo relevante sobre o tema ajuda a atrair colaboradores
- É melhor fazer uma divulgação intensa num período curto, do que estender muito o prazo. O prazo máximo, em geral, oscila em torno de 90 dias.

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