Conheça as histórias de quem passa o Natal ou o Réveillon no batente: um músico, uma enfermeira e um bombeiro contam seus casos

Ricardo Oliveira, vocalista que se apresenta na noite de Natal
Divulgação
Ricardo Oliveira, vocalista que se apresenta na noite de Natal
Ricardo Oliveira, vocalista da banda “Os Opalas”

Quando a festa acaba para alguns, para Ricardo Oliveira está apenas começando. E com disposição. Para ele, a comemoração tradicional é incomum nesta data. Vocalista da banda paulistana de samba-rock “Os Opalas”, Ricardo começa seu Natal a partir das 2h30 do dia 25, que é quando o público da casa de show em que ele costuma se apresentar com a banda começa a chegar. “É a pós-ceia: depois de comer e abrir os presentes muita gente procura uma balada para ir”, conta. E já faz alguns anos que tem gente prolongando a noite com ele.

Acompanhado da banda e de outros músicos já conhecidos, Ricardo já se acostumou a soltar a voz nas madrugadas de Natal. Nos últimos anos o Teatro Mars, casa noturna paulistana de samba-rock, uniu “Os Opalas” com outras bandas e tornou este feito uma tradição. Este ano não será diferente.

Para passar a noite de Natal soltando a voz, é preciso preparo. De acordo com o músico, “não dá para comer e beber muito na ceia porque depois não dá para cantar, muda o timbre da voz”. Acostumado a se apresentar de três a quatro vezes por semana, Ricardo acredita que trabalhar no Natal é ainda melhor do que numa noite comum. As razões são diversas. “No Natal todos ficam mais próximos e mais relaxados, e então todo mundo se apresenta muito mais solto”, afirma.

Daniela Vivas, enfermeira do Instituto do Câncer

Para Daniela, trabalhar no Natal é uma ocasião absolutamente normal: “É inerente à minha profissão, e já estou nela há 10 anos”. Por isso, ela diz que já se prepara desde o início do ano e não perde tempo resmungando. Já o ex-marido de Daniela não compartilhava desta postura e costumava reclamar, apesar das tentativas da enfermeira de se fazer presente em outros dias do ano.

Mesmo longe da família, ela dá um jeitinho de “comparecer” à ceia: “faço uma torta e deixo para a minha família, assim eles vão lembrar de mim quando estiverem comendo”, conta ela.

Além do mais, não é tão ruim assim passar o Natal no hospital, ao menos segunda Daniela. Os pacientes recebem champagne sem álcool e uma ceia especialmente preparada pelo hospital, e acabam comemorando junto aos funcionários. Para ela, essa é a essência da profissão e é o que faz a diferença: “dividir essa data com os pacientes faz parte do que é a enfermagem, do cuidar das pessoas. Eu sempre penso: eu não estive com a minha família neste dia importante, mas eu me fiz presente na vida daquele paciente e pude ajudá-lo”, conclui.

Marcos das Neves Palumbo, bombeiro

O telefone tocou. E aquela ligação iria terminar no Réveillon mais inesquecível de Marcos das Neves Palumbo. Ser bombeiro e estar de plantão na madrugada entre o dia 31 de dezembro e 1 de janeiro já é um passo para colecionar grandes histórias. Mas a que marcou a entrada de 2008 é a mais importante para ele, na profissão há doze anos.

O peru improvisado estava em cima da mesa do Quartel, como acontece em todos os anos. Cada um dos bombeiros da Corporação de São Paulo leva um prato, doce ou salgado, e a ceia longe da família fica menos traumática. Perto da meia-noite daquele dia, o brinde seria para celebrar o fim de um plantão tranquilo, sem grandes problemas – um acidente de carro aqui outro ali, um embriagado valentão para conter e nada mais grave. Eis que uma ligação do 193, número de emergência para chamar os bombeiros, mudou o rumo.

A voz do outro da linha anunciava uma tentativa de suicídio, em um prédio no centro paulistano. A mulher de meia idade ameaçava se jogar do 20º andar. Viatura em alta velocidade e Palumbo torcia por outro desfecho. Quando chegou à cobertura do edifício, ao mesmo tempo em que conduzia as negociações para evitar uma morte prematura, ele via os fogos na Avenida Paulista. As explosões coloridas avisavam o início da contagem regressiva. 10, 9, 8....

Palumbo confessa que não se lembra muito bem o que disse para aquela mulher. Era algo sobre o valor da vida, que morrer por um casamento mal sucedido não parecia um preço justo. Segurando a mão dela, ele conseguiu que a vítima viesse para junto dele. “Foi a primeira pessoa que abracei e desejei um Feliz Ano Novo”, lembra ele.

Este ano, Palumbo não estará trabalhando no Réveillon. Mas vai se lembrar, como sempre, do primeiro abraço de 2008.

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