Conquistar um ‘passe livre’ para fazer o que quiser longe do cônjuge parece um sonho para muitos. Há quem tope, mas funciona?

Os dois casais insatisfeitos da comédia
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Os dois casais insatisfeitos da comédia "Passe Livre"
O filme ‘Passe Livre’ conta a história de dois maridos, Rick e Fred (Owen Wilson e Jason Sudeikis), que conseguem um ‘vale uma semana de folga do casamento’ de suas esposas.

Na tentativa de revitalizar o relacionamento, as duas apelam para uma medida arriscada, afinal não aguentam mais o ar de insatisfação de ambos. Mas será que um “vale infidelidade” pode mesmo melhorar um relacionamento?

História de quem fez
Para a gerente comercial Luciana da Silva, 39 anos, que numa atitude ‘moderninha’ decidiu dar um passe livre para o namorado, hoje seu marido, Edilson Souza, 42 anos, administrador de empresas, a experiência foi única. “Não faria de novo. Na época, senti que tinha de deixá-lo livre para outras experiências e acreditava que seria fácil segurar a onda. Mas, aquilo foi me incomodando”, confessa.

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Luciana estava saindo de um casamento, com dois filhos pequenos, e apaixonou-se por Edilson. Apesar do envolvimento, não tinha vontade de transar frequentemente, pois precisava superar o estresse da separação. “Não tive dúvida. Quando ele me pressionou, decidi liberá-lo para procurar outras mulheres”, revela. E ele foi. Durante um ano, continuaram juntos, com a infidelidade (dele) permitida. “Saí com outras mulheres, mas queria mesmo estar com a Luciana. No começo até achei legal a atitude dela. Mas depois comecei a encanar que ela estava mesmo querendo me dispensar”, conta o marido.

Para o casal, valeu a experiência, porém sem repetição. “Percebi que, em um primeiro momento, a sensação de concorrência me estimulava. Queria me arrumar mais, agradar mais”, diz Luciana. No entanto, para ela, isso não foi saudável. E, ao contrário de apimentar a relação, acabou virando motivo de briga. “O passe livre funciona na palavra, mas na prática não”, emenda o marido.

Vale o risco?

Mas será que vale arriscar como fez Luciana? “Este acordo pode ser necessário porque um dos dois não está muito interessado em sexo, por exemplo, deixando o outro livre para outras experiências”, comenta Sérgio Savian , terapeuta de relacionamentos. Para ele, isso mostra que a pessoa não obedece às regras institucionalizadas. Já a psicóloga Cecília Zylberstajn defende que a monogamia está em crise. “Existe uma mudança de atitude, embora nova. Enquanto casais que estão juntos há mais tempo começam a aceitar este tipo de acordo com uma nova realidade e topam se abrir para outras possibilidades, os casais mais jovens já iniciam uma relação abertos às novidades”, afirma Cecília.

E não existe certo ou errado quando o assunto é ‘relação a dois’. “Neste século XXI não podemos mais padronizar os comportamentos femininos e masculinos. Tudo é possível”, avalia Savian. No entanto, o acordo só tem valor se for aceito – e beneficiar – os dois. “Não adianta a mulher liberar o parceiro só para ceder às suas vontades e se magoar”, ressalta Cecília. E tem mais: o passe livre pode fugir do controle do casal. Ou seja, ao invés de apimentar acabar provocando separações. “Este acordo cria a incerteza, e junto dela pode ser que a libido volte a circular. Porém, não devemos esquecer que ‘o tiro pode sair pela culatra’”, alerta Savian.

Afinal, para aceitar um acordo como este, é preciso ter maturidade. “Fantasiar é natural, mas na prática essa liberdade pode gerar problemas”, diz Fatima Mourah, personal sexy trainer. Por isso, a especialista dá uma dica: “Antes de praticar o ‘vale infidelidade’, vá a uma casa de suingue apenas como voyeur. Assim o casal pode testar seus limites e antecipar se vai realmente segurar a onda quando souber que o parceiro (a) está nos braços de outro (a)”.

Alternativas

E há quem defenda que tal atitude gera mais consequências negativas do que positivas. “Quando há liberdade demais, os resultados não são bons e, com certeza, quem perde com isso é a instituição familiar”, acredita a psicanalista Elizandra Souza, pós-graduada em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. Para ela, quando uma mulher aceita conceder um ‘passe livre’ ao marido, no fundo, ela deseja ouvir: ‘não amor, quero mesmo é ficar com você’. “Uma relação só precisa deste tipo de acordo se não estiver boa ou desequilibrada. Quem quer apimentar não precisa envolver uma terceira pessoa, mas sim buscar artifícios que sejam um tempero para os dois”, defende Elizandra.

A personal sexy também não concorda que o passe livre pode apimentar um relacionamento. “Este tipo de acordo é uma quebra de rotina. Para apimentar, existem outros artifícios como uma massagem sensual, uma lingerie diferente”, diz. Segundo ela, quem busca dar um ‘up’ no casamento deve começar pelo mais fácil e nunca apelar para a ‘infidelidade liberada’. Luciana começou pelo mais difícil. Mas, hoje, quando quer apimentar o relacionamento, tem uma tática, segundo ela, perfeita: “Vou para um motel e de lá ligo para o Edilson, dizendo que estou esperando por ele. Ele adora essa surpresa”, revela.

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