Faltam maridos para as brasileiras, é um fato. Achar que isso é um problema, no entanto, é opcional

O anúncio da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), divulgado na última semana, trouxe em números o que dá para ver na rua, especialmente em bancas de jornal, onde as chamadas das capas de revista feminina ensinam truques, dicas, mandingas, quase rezas: a partir dos 35 anos, fica cada vez mais difícil ser casada. De acordo com os números apresentados pelo IBGE, a porcentagem de mulheres casadas começa a ficar abaixo da soma de homens na mesma condição a partir da faixa que vai dos 35 aos 39 anos. E, a partir daí, a distância entre os dois só aumenta. Aliás, a fração de homens casados cresce sem interrupção até a faixa dos 60 aos 64 anos, quando uma “esposa oficial” é a realidade de 76% dos homens, percentual bem acima do alcançado pelas mulheres em qualquer idade.

As razões para isso não são muito misteriosas. Para começar com uma que não abre espaço para interpretações, os homens morrem bem mais cedo do que as mulheres – cerca de oito anos em média. Ou seja, quanto mais velho o universo pesquisado, menos homens existem. Simples. Em todas as faixas etárias há mais mulheres viúvas do que homens na mesma situação. A partir dos 70 anos, a viuvez atinge 57,7% das mulheres contra 18,8% dos homens.

Mas para ser considerado viúvo ou viúva na pesquisa, é preciso ter permanecido assim. Quem casou novamente entra na categoria casados. E é aí que as explicações ficam menos estatísticas e mais culturais. “Há o agravante de que na nossa cultura os homens se casam a primeira vez com mulheres em média três anos mais jovens. Quando se casam de novo, é sempre com mulheres cada vez mais novas”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de “A Outra” e “Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade”, entre outros. Para as mulheres a partir de determinada idade, portanto, não haver maridos disponíveis é um fato. Mas por que é também um fardo?

“Tem um terceiro valor nessa equação que é uma extrema valorização do marido como capital”, explica Mirian. Culturalmente, no Brasil, há pouco ou nada mais valorizado na vida de uma mulher do que o casamento. Isso contribui para duas coisas: a reação das mulheres diante da possibilidade de integrar a estatística e a confortável situação masculina. “A mulher que tem um marido e acha que ele é fiel se sente muito poderosa na nossa cultura, enquanto em outras isso não vale nada”, diz Mirian.
A antropóloga cita uma de suas entrevistadas para definir como é vista a mulher sem marido. “Se você vê uma mulher em um restaurante, acha que ela é uma mulher sozinha. Se vê três ou cinco mulheres, pensa que é um grupo de mulheres sozinhas. Mas se tem um homem junto com as cinco mulheres, elas não estão mais sozinhas”.

Homens e mulheres casados no Brasil

Comparativo: depois dos 35 anos, número de homens casados aumenta

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IBGE :: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


“Desespero”
A valorização somada à escassez de maridos cria nas mulheres brasileiras o que Mirian chama de um “processo de desespero”, que causa desde a busca de comportamentos e estéticas infantis para preservar a ideia de juventude até o receio que mesmo mulheres bem-sucedidas têm de circular sozinhas. “É um desespero socialmente construído. Não é um problema individual, e as mulheres vivem isso como um fracasso pessoal. Enquanto isso, o homem na nossa cultura não precisa fazer quase nada, basta ser homem. O que for medianamente bem-sucedido já tem um mercado aí disponível”, afirma.

Após dezenas de pesquisas de gênero, sexualidade e conjugalidades, Mirian Goldenberg diz que não vê nenhuma movimentação de mudança no quadro por parte das mulheres. “Não tenho visto as mulheres se libertarem deste papel culturalmente desvalorizado. Não vejo se colocarem como tendo valor independentemente de estarem acompanhadas, buscarem outros capitais para se valorizarem. Vejo isso na Alemanha, Suécia e até na Espanha. Mas aqui não. O que vejo são mulheres sofrendo com isso mesmo sendo ultra bem-sucedidas em outras áreas”, lamenta.
A pequena mudança, quem diria, vem da parte deles. “O que existe é um movimento de homens que não querem apenas desfilar por aí com um trofeuzinho. Buscam o que chamam de “mulher interessante”, que é uma mulher que está em forma, claro, mas tem outras realizações, e até por isso é necessariamente mais velha”.

A antropóloga dá uma dica para quem quer driblar a pressão. “A melhor saída é a que eu vejo algumas mulheres tomando - buscar as próprias particularidades. Assim, você vê que no fim não se enquadra em nenhuma estatística. Por que ficar desesperada justo com essa?”

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