Padrão alimentado por celebridades, que exibem corpos perfeitos pouco depois de dar à luz, pode ser nocivo para quem se torna mãe

Uma campanha publicitária de uma marca de lingerie estreou ontem com a top Gisele Bündchen. Ela aparece nas fotos com o corpo perfeito de sempre. Até aí, nenhuma novidade. O que espanta no ensaio é o fato de Gisele ter sido fotografada apenas três meses depois do nascimento de Benjamin, seu primeiro filho.

Gisele não é a única. Muitas grávidas famosas fazem retornos triunfais às capas de revista em tempo recorde depois do parto. A cantora Claudia Leitte ganhou seu primogênito Davi em 20 de janeiro do ano passado. Foi capa da edição da revista Nova, em maio do mesmo ano, com 10 quilos a menos, creditados por ela a uma dieta balanceada, exercícios físicos e drenagem linfática.

Mas é mesmo normal voltar à boa forma em tão pouco tempo? O ginecologista e obstetra Malcolm Montgomery explica que a recuperação do corpo após a gravidez é muito individual. Com acompanhamento médico, buscar a velha forma é saudável. No entanto, a luta pela retomada da silhueta de antes da gravidez não pode virar uma obsessão e uma corrida contra o tempo. "Isso pode ser uma forma de se evitar vivenciar o mais importante, que é o tornar-se mãe", diz o médico. "A prioridade não pode ser perder tudo o que ganhou ao longo de nove meses de gestação durante os primeiros três depois do parto".

A ansiedade para baixar o marcador da balança tem um aliado poderoso, que em primeiro lugar fortalece o vínculo da mãe com seu bebê: a própria amamentação. Segundo estudos, amamentar ajuda a emagrecer e pode queimar até 900 calorias por dia. "Voltar à forma que tinha antes da gestação é importante para a autoestima da mulher", avalia Flávia Alvares Fernandes, psicóloga clínica e uma das fundadoras da Gestarte, no Rio de Janeiro, clínica multidisciplinar especializada no atendimento de gestantes. "Mas isso precisa ser feito com sensatez. Muitas vezes, manias assim, como a de ginástica, podem ocultar um quadro de depressão pós-parto".

Padrões inatingíveis

Celebridades que têm no corpo - e em sua aparência fabulosa - um cartão de visitas podem sofrer uma pressão ainda maior para exibir um físico impecável. Alçadas às capas de revistas e passarelas, elas acabam por representar um modelo quase impossível de se alcançar pelas "mulheres comuns", que não contam com uma equipe de profissionais de nutrição, educação física e cuidados com o recém-nascido à disposição, ajudando-a a perder os quilos adquiridos na gravidez.

"A imposição de padrões de beleza pela publicidade e pelos meios de comunicação sempre existiu, mas só recentemente chegou ao corpo pós-parto", diz Dulcilia Buitoni, autora do livro “Mulher de Papel – A Representação da Mulher pela Imprensa Feminina Brasileira” (Summus Editorial). "Com tanto para se preocupar com um bebê recém-nascido, as mulheres ainda têm que ter essa preocupação extra, de voltar à forma em três meses?", questiona.

O médico Malcolm Montgomery concorda. "A mídia vende padrões que são inatingíveis", analisa. "A relação entra mãe e filho tem que ser prioridade nestes primeiros três meses". Ivete Sangalo - que abriu o show da cantora Beyoncé quatro meses depois de ganhar Marcelo, em modelito que não escondia os quilos a mais da gestação - que o diga. A cantora pode ser considerada uma raridade no meio das celebrities: depois de mais de sete meses após o parto, ainda não voltou a ter o corpo de antes. E o melhor: parece não se importar.

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