Os dramas vividos por Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte analisados por cinco especialistas

No filme “Sex and The City 2”, que estreia hoje nos cinemas brasileiros , Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattrall), Miranda (Cynthia Nixon) e Charlotte (Kristin Davis), as quatro personagens principais, continuam lindas, divertidas e cheias de roupas de grife. Mas, além do pano de fundo cheio de glamour, elas agora vivem dramas mais adultos, como encarar o cansaço da maternidade, o trabalho exaustivo, a rotina do casamento e o pavor de envelhecer.

Pedimos para cinco especialistas em comportamento e saúde feminina comentarem as situações das personagens e dar algumas saídas possíveis para amenizar os dramas vividos por elas – e, claro, pela maioria das mulheres.

A situação de Carrie : há dois anos vivendo sob o mesmo teto com Mr. Big, interpretado pelo ator Chris Noth, Carrie começa a achar que o casamento está passando por uma crise de tédio. Mr. Big compra uma TV gigante e não quer mais sair do sofá para badalar em Nova York. Conhece a cena? Aílton Amélio dos Santos, Professor do Instituto de Psicologia da USP e especialista em relacionamentos amorosos, afirma que este tipo de crise é bastante comum. Principalmente quando o casamento completa dois anos.
“Embora a média de separações ocorra em torno dos 10 anos de casamento, o pico mais alto no gráfico entre as porcentagens de separação acontece nos relacionamentos de dois anos”, explica o especialista. E as razões, segundo ele, são óbvias. Ao morar junto, o casal passa a perceber comportamentos que até então não haviam sido notados. “O viver junto é um grande teste, na verdade, porque você acaba com a idealização do parceiro e o relacionamento deixa de ser aquela grande novidade”, explica.

As saídas : há uma série de atitudes que podem ser tomadas para que os dois anos não determinem o fim de um casamento. Deixar o romantismo, o investimento no relacionamento e a coragem de se colocar são, segundo Santos, as piores atitudes. “Eu tenho que continuar apresentando situações que projetem um desafio ou uma oportunidade de crescimento no relacionamento”, esclarece. Se não, é difícil que funcione.

“É claro que não há nenhuma fórmula, mas são coisas que podem ser feitas para o casal continuar evoluindo”, conta. E é no dia a dia que isso deve acontecer, não somente em ocasiões especiais. “Se eu tiver boa atitude, boa vontade e perceber que o parceiro também possui qualidades – e não apenas os defeitos –, darei mais espaço para o casamento dar certo”, completa.

A situação de Samatha : acompanhada de mil vitaminas e cremes, Samantha está com 52 anos e parece acreditar que envelhecer é um processo que pode ser evitado. Infelizmente, o elixir da juventude ainda não existe e, melhor do que se desesperar com a chegada da menopausa, a antropóloga e autora do livro “Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade” (Editora Record), Mirian Goldenberg, afirma que investir mais em outros capitais possíveis de serem usufruídos, que não o corpo ou os relacionamentos, é o melhor jeito para não se desesperar.

As saídas : segundo Goldenberg, a chegada da menopausa traz, além do medo, da insegurança, das alterações de humor e do corpo, uma consequência simbólica que é difícil de não ser reparada pelas mulheres: o estigma da invisibilidade. “Até aproximadamente os 40 anos, você é muito paquerada, desejada e, de repente, é como se você passasse a ser ignorada”, explica Goldenberg. Este tipo de sofrimento, de acordo com a especialista, acaba sendo o maior de todos, já que não há pílula ou creme que faça com que esta rotulação deixe de existir.

“Eu acho que o estilo de vida que a Samantha leva nos filmes é mais pelo desejo que ela tem de ser reparada, de existir como mulher”, afirma. Porém, Goldenberg fala que o melhor a ser feito neste momento é aproveitar os 30 ou 40 anos que ainda possuímos pela frente investindo em coisas que dão diferentes prazeres, como viagens, cursos, sem esquecer que ela ainda pode ter o corpo enxuto mesmo sem paranóias. “Ela é livre, e deve exercer essa liberdade ao invés de ficar prisioneira de uma rotulação”, declara.

O ginecologista Ivaldo Silva, professor do Departamento de Ginecologia da Unifesp, ainda conta que, embora este período da vida inclua alterações naturais do corpo como calores e pele mais seca, existe a possibilidade de realizar uma terapia hormonal. “Mas não é todo mundo que precisa e, ao contrário do que muitos pensam, é possível ter a libido preservada também neste período”, afirma. Uma das primeiras atitudes é gostar de si mesma. “Ela tem que olhar no espelho e estar muito bem com ela, sem que a menopausa represente todo este peso desnecessário”, completa.

A situação da Miranda : Ela chega em “Sex and the City 2” trabalhando numa empresa bacana de advocacia, mas está cansada de ficar longe do filho pequeno e do marido. Decidi pedir demissão, mas não fica completamente segura da opção que fez, já que se sente um tanto incompleta cumprindo apenas com o papel de mãe.

As saídas : de acordo Magdalena Ramos, terapeuta de casal e família e autora do livro “E agora o que fazer? A difícil arte de criar os filhos” (Editora Ágora), este é um signo da mulher moderna. “Ela está sobrecarregada e exigida de diferentes formas, mas quer atender a todas as demandas que a família e o trabalho impõem”, afirma.

A especialista afirma que, atualmente, há uma pressão social em cima da mulher que não trabalha e, em determinado aspecto, ela não é devidamente reconhecida. “Se elas abrem mão da profissão, especialmente aquelas que conseguiram estudar, não são muito bem vistas”, diz. Mas isso não quer dizer que ela deve seguir à risca todos os papéis da mulher atual e se descabelar por aí. Para Magdalena, o mais importante neste momento é estar inteira nas atividades propostas, seja no trabalho ou na criação dos filhos.

Para Cecília Russo Troiano, psicóloga e autora do livro “Vida de Equilibrista” (Editora Pensamento), enquanto para algumas mulheres é mais fácil equilibrar trabalho e filhos, para outras a coisa não acontece assim de forma tão natural. Mas estar inteira naquilo que faz é, realmente, essencial. “Isso ajuda a gente a ter aquela sensação de que somos completas naquele momento”, explica. E se a maternidade está sendo algo que impede a conciliação com o trabalho, ela indica que criar mecanismos para organizar isto da melhor maneira é possível: “O segredo é não ver estes mundos como excludentes”.

A situação de Charlotte : ela sempre quis ser mãe, mas agora que tem duas meninas, percebeu que criá-las não significa 24 horas de maravilhas como tinha imaginado. Porém, se sente culpada por ter esse tipo de sentimento e tenta contornar a situação, até chegar ao seu limite. De acordo com Magdalena Ramos, a sociedade promove uma grande idealização da maternidade, mas quando chega a hora de colocar a mão no batente, ela não é realmente tão cor de rosa quanto dizem.

As saídas : “É muito trabalho estar com as crianças, tem um esforço constante para se adaptar, até em altura e linguagem, por exemplo, que exige muito da mulher”, explica. Segundo Cecília Russo Troiano, cumprir este papel diariamente pode ser uma enorme fonte de estresse, mas isso não quer dizer que a mulher deva se sentir culpada. “Acredito que baixar um pouco a exigência de si mesmo neste momento é um mecanismo importante”, declara ela. “Tirar nota sete já está bom demais”, completa.

Segundo ela, tem muitas mães que buscam ser perfeitas o tempo todo, mas o que os filhos realmente precisam delas é que não estejam somente presentes, mas afetivamente presentes. “O grande inimigo da mulher neste momento é a culpa, mas não precisa ser uma coisa penosa”, comenta. Além disso, ela diz que contar com a ajuda do marido é fundamental. E não somente isso, mas abrir espaço para que ele de verdade: “Existem mulheres que só criticam quando ele vai trocar a fralda da criança, mas é preciso aceitar o jeito dele também”.

Ramos ainda indica que ‘se permitir’, neste momento da vida, é importante para lidar melhor com a maternidade. “É se permitir desabafar, se permitir estar cheia, se permitir dividir aquilo com o marido e não sentir que é a pior mulher do mundo porque está sem paciência com os filhos, é natural”, afirma. Além disso, ela explica também que é preciso se nutrir: “seja lendo, trabalhando, se dedicando um pouco a si mesma também”, completa.

Leia também:

A beleza de Sex and The City 2
A casa de Carrie e Mr. Big

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.