Ser amante raramente é uma escolha

Mulheres que se tornam “a outra” nem sempre fazem uma opção consciente e acabam em um relacionamento cheio de limitações

Verônica Mambrini, iG São Paulo |

A personagem Natalie (Deborah Secco), da novela Insensato Coração, tinha como uma de suas regras nunca se envolver com homem casado. Não demora muito, ela se vê exatamente nesta posição. Natalie vira amante de um empresário bem sucedido e ainda é sustentada pelo homem comprometido. Será que apenas na ficção mulheres que nunca pensaram em ser “a outra” acabam nesta situação?

TV Globo/João Miguel Junior
Natalie nunca quis ser amante, mas não resistiu a empresário bem sucedido
Num relacionamento longo e há algum tempo sem grandes novidades, a comerciante Débora, que prefere não relevar o sobrenome, 32 anos, começou um caso com um parceiro que conheceu no tatame onde treinava, também numa fase de marasmo no casamento. “Quando ficamos juntos de fato, eu só pensava em ‘viver aquele momento intensamente’ e me livrar dele o mais rápido possível”, diz. Não foi o que aconteceu. O caso se estendeu e, quando Débora se deu conta, ela tinha virado amante. “Amor não se escolhe, não é um processo racional”, reflete.

Depois de seis meses, a falta de liberdade e necessidade de manter o relacionamento em segredo minou as chances da relação vingar. “Ficou uma decepção pelo desfecho sem ‘happy-end’, com uma derrubada geral na autoestima. Você começa a fazer de tudo para se encontrar e se encaixar na vida da pessoa. Só encontrá-la durante a semana e nunca à noite – parece coisa de prostituta, né? Começa a se anular, se humilhar.” Mas ela não se arrepende. “Foi uma das histórias mais lindas da minha vida, mesmo com toda dor”, afirma. Ela diz que, por tudo que passou nesse relacionamento, aprendeu a não julgar histórias tortas de amor. O ex-amante continua com a esposa, e ela está separada. “Para mim, era impossível estar com um e apaixonada por outro”, conta a comerciante.

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Relacionamento com "data de validade "
São muitos os motivos que podem levar uma pessoa a ser o terceiro em uma relação. “Não existe acaso. Acredito que dois tipos de pessoas entram nessa relação: os que começam despretensiosamente, sem levar a sério, e os que têm autoestima baixa e aceitam um ‘pedacinho’ do outro”, afirma Clarissa Corrêa Menezes, psicóloga e doutora em psicologia de desenvolvimento humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Muitas vezes o casamento está sem graça, e entra o sexo, a aventura. Há também pessoas que têm dificuldade de se vincular. Se relacionar com alguém que já tem uma esposa te protege de um envolvimento”, afirma.

Raramente o processo é consciente como ocorre com a jovem A. M, que prefere não revelar o nome. Ela há oito meses “namora” um homem que ela sabe ser casado. “Antes de conhecê-lo, eu jamais pensei em entrar numa relação assim por causa daquela imagem da mulher que fica sozinha numa noite de sábado enquanto ele está com a mulher e a família. Quando comecei a sair com um homem casado, não foi nada daquilo que eu estava pensando. Foi muito mais flexível, atípico.” Ela se considera namorada, e não amante. “Se ele falar que vai se separar da mulher, não sei se vou gostar muito”, afirma. “Não quero incluí-lo nos meus planos, não sei se é o cara certo para isso, por mais sensacional que ele seja comigo e com minha filha.”

Eles se falam e se vêem quase todos os dias, almoçam e vão a festas juntos. A família de A.M sabe dele, embora ela não tenha contado que o “namorado” é casado. Ao se dar conta de que esse relacionamento tem “data de validade”, já tentou terminar, mas acabaram voltando. De acordo com a jovem, a relação vale a pena. “Duas ou três vezes por mês ele dorme na minha casa. Ele é muito mais presente na minha vida do que outros namorados foram. Estamos vivendo isso porque está muito bom. Se eu conhecer alguém legal, vou ficar com essa pessoa e nossa história vai acabar”, diz.

Expectativa e realidade
Estar no lugar da outra não significa autoestima frágil quando é uma opção clara e pensada. O problema é quando a expectativa para a relação não condiz com a realidade. “A condição de amante geralmente é encarada como temporária. E muita gente passa a vida sendo iludida”, afirma a psicóloga. “É diferente de mulheres que não querem por seus motivos, ou não estão disponíveis, trabalham muito ou não querem ter um romance.” Por isso, mesmo quem nunca se viu como amante está sujeito à armadilha do apaixonamento. “O encontro é sempre fortuito, a realidade fica escamoteada e a fantasia predomina, até que a realidade se impõe”, afirma o psiquiatra Paulo Quinet, membro da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. É nessa hora que acontece uma ruptura, seja do caso, seja do casamento. “Em 6, 8 meses, a coisa vai se resolvendo”, afirma.

Caio Paganotti
Mafalda não acha tão ruim ser "a outra"
Para ele, não é tão difícil entender porque as pessoas entram num relacionamento extraconjugal “A partir de uma determinada idade é difícil encontrar uma pessoa legal e disponível. Com muita freqüência você encontra alguém no trabalho, por exemplo, que é casado, numa relação ruim, marca um almoço, rola um clima, e pode haver um envolvimento.” Para Clarissa Menezes, o jogo de sedução é outro elemento que decide o jogo. “A mulher que tem amante está realmente envolvida na fantasia de que é a primeira na relação. Um dos grandes atrativos da paixão é olhar para o outro e se sentir adorada, e na relação de amante isso fica evidente”, diz.

Sejam quais forem os motivos para não querer entrar numa relação extraconjugal, é difícil garantir que o interesse por alguém comprometido nunca apareça. “Já me prometi que ia não ser mais amante, mas acabo caindo na mesma”, diz a gráfica Mafalda Maya, 25 anos. “Estava de saco cheio de ser amante por causa de um homem com quem eu me envolvi também e que só me enrolou. Esse cara foi meu maior amor até hoje”, conta. Ainda assim, Mafalda não acha necessariamente ruim ser “a outra.” “A vantagem é que eu fico só com a parte boa, não tem risco de se comprometer. A parte ruim é que, no fundo, no fundo, você nunca é prioridade. Você nunca é ‘ela’”, diz.

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