Festas espetaculares e divórcios-relâmpago não são privilégio de celebridades como Kim Kardashian e Kris Humphries

Por que alguns casamentos duram tão pouco?
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Por que alguns casamentos duram tão pouco?
Nos dias atuais, tempo é artigo de luxo. Vivemos acelerados, na corrida contra o relógio, encaixando compromissos em agendas já lotadas, reclamando do trânsito, das filas, das demoras. É a refeição que não chega logo, é a Internet que está lenta, é o carro da frente que não anda. Na sociedade contemporânea, bom é sinônimo de fast - talvez por isso, agilidade e eficiência sejam termos tão explorados pelas campanhas publicitárias. Mas e quando o assunto é relacionamento - ou, mais especificamente, relacionamento amoroso? Será que essa síndrome da urgência também pode ter reflexos na vida afetiva? Por que alguns casamentos duram tão pouco?

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma em seu livro "Amor Líquido" (Editora Zahar) que os laços humanos estão cada vez mais frágeis. Segundo ele, estamos tão acostumados às relações de mercado que tentamos aplicá-las a tudo - inclusive às próprias relações amorosas. Paralelamente a isso, as festas de casamento deixam de ser rituais simbólicos para celebrar a união e se transformam em eventos extravagantes e espetaculares. Segundo o psicólogo e terapeuta Ailton Amélio, autor do livro "Relacionamento Amoroso" (Publifolha), o casamento é um pacote, e boa parte deste pacote foi enfraquecida. "Há 30 anos havia o desquite, mas não o divórcio, ou seja, não era possível casar legalmente mais de uma vez. Além disso, a própria opinião pública condenava a separação e um novo casamento. Hoje isso mudou: basta ir ao cartório e entrar com pedido de separação", diz.

De acordo com ele, todo casamento envolve ajustes, dificuldades e até mesmo crises sérias. "Muitos divórcios relâmpagos acontecem porque ou o casal ainda está sob efeito da euforia da paixão inicial e não se conhece suficientemente bem quando decide subir no altar, ou deixou o tempo passar demais para tomar esta decisão", afirma, neste último caso se referindo aqueles que namoram por muitos anos, casam e acabam se separando poucos meses após a união. "Costumo dizer que a paixão é míope e que o namoro é um bom par de óculos. Por isso, é importante conviver e conhecer verdadeiramente o outro, diluindo fantasias e idealizações. Por outro lado, namorar tempo demais pode fazer com que o casal tenha pouca energia e tolerância para lidar com os obstáculos que certamente terão quando decidirem viver sob o mesmo teto", ressalta Amélio.

Ressaca pós-festa
Ailton Amélio diz que a celebração do casamento é um importante ritual de passagem, mas considera que nos dias de hoje há uma exacerbação das festas e comemorações. "Há um consumismo exagerado estimulado pela mídia e pela publicidade. Somos cada vez mais escravos de necessidades que são continuamente criadas e nos satisfazem por pouco tempo. É assim com o carro novo, com a casa nova e com o próprio casamento. Muita gente passa anos planejando uma festa que talvez nem consiga aproveitar direito; é um enorme investimento de energia em algo que vai durar apenas algumas horas", avalia. Passado o grande dia, o casal precisa se adaptar à nova rotina a dois. "E é aí que pode surgir uma ressaca, uma sensação de vazio."

O diretor de marketing Rodrigo Nascimento sentiu na pele as amarguras de se casar e se separar antes mesmo de completar um ano de união. Hoje, aos 29 anos, se casou pela segunda vez e afirma estar mais maduro e certo para viver uma vida a dois. “Quando me casei pela primeira vez tomamos a decisão pensando no tempo de namoro. Estávamos juntos há cinco anos e sentimos que era a hora certa. No casamento atual, analisei aspectos de médio e longo prazo no relacionamento para os dois”, conta ele.

Nascimento lembra que o desgaste principal do antigo relacionamento foi o desentendimento na vida profissional. A ex-esposa, que na época tinha 23 anos (ele tinha 25), queria mudar de cidade em busca de uma melhor colocação profissional, mas o desejo de Rodrigo era permanecer na mesma empresa. “Nos casamos logo após ela ter se formado na faculdade. Não pensamos no depois, em como seria a vida a dois. Somente que era o momento de nos casarmos. Foram seis meses de discussão”, recorda. O ex-casal percebeu que não teria como manter uma relação à distância com uma eventual mudança de cidade e, de comum acordo, resolveu se separar quando o casamento completava 10 meses.

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“É triste, pois fizemos uma festa bonita de casamento, tínhamos um apartamento todo arrumado e as famílias eram próximas. Foi um banho de água fria em todo mundo”. Os familiares ainda tentaram convencer o casal a ficar junto, mas as iniciativas não deram certo. “Foi muito difícil cortar os laços, mas era necessário. Todos tinham esperanças de que reatássemos, mas sabíamos que não iria acontecer. As brigas foram muitas e o amor acabou”, justifica. Depois da separação veio a pior parte, segundo Nascimento: dividir os objetos da casa. “O apartamento era novinho, com todos os móveis comprados pelos dois. Algumas coisas ainda estavam chegando em casa quando nos separamos”, diz.

Nascimento conta que acabou virando motivo de piadas entre os amigos. “Eles falam que nunca viram um casamento tão rápido como o meu. E tudo virou motivo para tirar sarro. Até fizeram uma aposta de quantos casamentos vou ter até a Copa de 2014. Espero estar no último”. Ele afirma que não acredita em uma fórmula para fazer a união dar certo, mas acha que precisa, e muito, do esforço das duas partes. “Estou casado há sete meses e nos entendemos bastante. O segredo é querer as mesmas coisas e respeitar a outra pessoa. Ninguém deve anular ninguém”, aconselha.

Trauma
Um casamento que fracassa logo no início pode significar um trauma na vida de um casal. Amanda Begatti tinha 21 anos quando se casou. Demorou um ano e meio para planejar sua festa de casamento perfeita. Escolheu todos os detalhes pessoalmente, desde as rosas que enfeitaram a igreja até o destino da lua de mel: Fernando de Noronha. O que Amanda não planejou foi a vida a dois. No primeiro mês de convivência com seu marido, a fisioterapeuta teve a certeza de que a união não iria durar muito - e, de fato, não durou: sete meses depois, os dois se divorciaram. “E olha que nós namoramos durante quatro anos. Mas éramos jovens demais, saímos daquela convivência da casa de pai e mãe achando a vida seria da mesma forma. Eu nunca lavei uma peça de roupa na casa dos meus pais e meu ex-marido achava que isso era minha obrigação. Ele queria um tipo de esposa e eu era uma pessoa completamente diferente do que ele imaginava”, explica.

A separação, segundo Amanda, chocou toda a família. “Meus pais não aceitaram muito bem. Na minha família toda separação ainda é tabu. Mas eu preferi criar coragem e terminar com tudo aquilo que não passou de um sonho - daqueles com direito a vestido e festa grandiosa, mas sem amor verdadeiro. Depois disso, nunca mais me casei e confesso que tive problemas para encarar namoros mais sérios. Hoje, tenho 29 anos e meu conselho para as pessoas é que não se casem antes dos 30. Se eu soubesse que seria assim, teria guardado o dinheiro que eu e minha família gastamos no casamento e faria um curso na Europa”, lamenta a fisioterapeuta.

Para a terapeuta de casais Tatiane Castro, não há uma garantia de que um casamento vai durar para sempre e nem tem como saber se irá funcionar mesmo por poucos meses. A única certeza é que haverá problemas e o casal vai passar por períodos difíceis, principalmente no começo, devido à falta de prepare dos dois. “Não existe uma receita, as pessoas têm suas manias e cabe ter tolerância, paciência e saber cuidar um do outro. No começo as coisas são mais belas e também difíceis. Hoje está muito fácil se separar ”, diz.

A terapeuta acredita que muitos casais se separam antes de completar um ano de união devido ao individualismo de ambos. “Um simplesmente não enxerga o outro.” A psicóloga e psicanalista Paula Cordeiro Zílio compartilha da mesma opinião “Vivemos em uma sociedade narcisista. Se a pessoa não corresponde ao que queremos, simplesmente caímos fora”, afirma. Daí a concluir que o futuro de instituições como o casamento, que pressupõem altas doses de comprometimento e generosidade, está ameaçado, é fácil: “Estamos em um momento histórico, onde as pessoas só pensam em si. Para terminar, mesmo o mais sério dos relacionamentos é muito simples, então casa-se e, em seguida, cada um vai para um lado”, conclui Paula Zílio.

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