Como evitar o divórcio nas “profissões de risco”

Profissões que envolvem convívio com público encabeçam ranking de separações, mas para especialistas não é tudo “culpa do trabalho”

Verônica Mambrini - iG São Paulo |

Dentro de um hospital, as emoções afloram. E não apenas as dos pacientes: os profissionais de saúde também estão vulneráveis aos impactos dessa montanha-russa emocional. “Tem médico que passa 72 horas direto num plantão. Você acaba se distanciando do seu parceiro e, ao mesmo tempo, criando intimidade com as pessoas do seu trabalho”, diz a cardiologista e intensivista Jomara Ferreira, 30 anos. Não foi à toa que os profissionais da área de saúde figuraram no segundo lugar de um ranking divulgado semana passada com as profissões com mais risco de divórcio.

Bruno Zanardo/Fotoarena
Jomara é intensivista e já viu relacionamentos ruírem por conta dos longos plantões nos hospitais em que trabalhou

A enquete, feita pelo site Separados de Chile, especializado em divórcios, ouviu 3.804 casais e levantou quais são as profissões mais frequentes entre divorciados, de todas as classes sociais e que estivessem separados há pelo menos 3 meses. As áreas com mais pessoas divorciadas foram a de comunicação, com 24% dos divorciados, seguida da de saúde (22%) e vendas (17%).

Para os autores da pesquisa, longas jornadas de trabalho, isolamento e contato permanente e direto com o público são fatores que favoreceriam o fim do relacionamento. “Ao longo das emergências de um plantão, você fica sozinho, vai conversando, falando de vida pessoal com quem está por perto. Começa uma amizade, você acaba se abrindo, a tensão cria uma cumplicidade. Um ajuda o outro, e vira uma química e mistura os sentimentos”, afirma a cardiologista.

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Jomara diz que esse tipo de situação é muito comum em hospitais. Elamesma já foi afetada pela tensão dos plantões quando namorava. “Quando você faz plantão à noite e o namorado é convidado para uma festa, você não pode ir, mas também não vai proibir a pessoa, né?”, diz.

Além do motivo óbvio de ter menos tempo disponível para passar com o parceiro, o excesso de trabalho pode afetar o humor do casal. “Quando a pessoa leva trabalho ou preocupações para casa, acaba interferindo na relação”, afirma Miriam Barros, psicóloga clínica e psicodramatista. “Casamento e relação a dois precisam de investimento.” Numa relação ruim, o trabalho pode até virar válvula de escape. “Passa a ser uma fuga, para não ter que encarar questões difíceis no casamento. E isso só piora as coisas, porque o cônjuge fica ressentido”, afirma.

A solução passa necessariamente pelo diálogo, para alinhar as expectativas dos parceiros ao que eles podem de fato oferecer um ao outro. “Não precisa abrir mão da dedicação profissional, mas é importante negociar”, diz Miriam.

Thinkstock/Getty Images
Conhecer pessoas interessantes pode ser um fator de risco quando o casal está em crise

Para a psicóloga e psicanalista Cynthia Boscovich, o problema dos plantões e do isolamento que eles acarretam é parecido com outra queixa frequente de casais no consultório: horários biológicos de sono muito diferentes. “São casais que não se encontram o quanto gostariam. Os divórcios nessas áreas podem ter um pouco a ver com isso”, afirma. “Mas, médico ou empregada doméstica, não faz diferença. Se a pessoa nunca tem tempo para o outro, não dá certo.”

Ela lembra também que não existe medida ideal de tempo ou frequência que os parceiros devem dedicar ao outro. “Para um casal, se ver uma vez por semana pode ser satisfatório, mas para outros talvez isso seja insuficiente”, afirma Cynthia.

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É preciso também compreensão com o parceiro que está numa profissão com alta demanda de tempo e dedicação: “Uma relação precisa incluir pessoas inteiras. Isso significa aceitar que o outro tem profissão, família, história e estilo de vida, personalidade. É preciso aceitar o parceiro como ele é”.

Traição que separa
Segundo o levantamento do site Separados de Chile, a infidelidade é a causa de 61% das separações. Entre os trabalhadores da área de saúde, por exemplo, 79% dos divórcios são causados por infidelidade; em comunicação, o número foi de 74%.

Para Cynthia, porém, não é apenas o contato constante com muita gente que abre brechas para a traição, mas uma crise já existente no relacionamento. “Ser atraído por alguém não significa que você vai se relacionar com aquela pessoa”, afirma. É claro que ter parceiros em potencial disponíveis pode facilitar uma traição e tornar sentimentos como carência um gatilho para o fim de um relacionamento, mas lidar com público por si só não seria um fato de peso, para as especialistas.

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A professora de educação física Maria Claudia Ribeiro, 32 anos, teve um relacionamento afetado tanto por escalas de trabalho menos convencionais, como pelo fato de lidar com dezenas de alunos diariamente. A relação durou quase 8 anos, mas sucumbiu aos ciúmes. “Ele tinha ciúme de todos alunos, do meu sócio, do meu trabalho”, lembra. “Sou professora de natação e academia. Ou seja: shorts e maiô fazem parte das minhas roupas de trabalho. Era muito chato lidar com a desconfiança”.

Para piorar, o ex, também da área de saúde e bem-estar, viajava muito a trabalho e a escala de descanso não combinava com a dela. “Ele só tinha folga de segunda ou terça-feira e trabalhava em todos fins de semana. Ou seja, nunca dava para fazer nada juntos.”

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