Lembrança, papel, coleção e até lixo. Gostar de coisas que nos lembram algo feliz ou que lutamos para ter é bom. Jogar fora também

Cena do programa
Divulgação
Cena do programa "Acumuladores", que estreia na TV paga este mês
O papel do chiclete que seu namorado te deu no dia em que resolveram começar um relacionamento. O ingresso do primeiro filme que seu filho assistiu com você no cinema. Um botão de rosa que fazia parte do seu buquê da noiva. Para cada pessoa, um objeto vai ter valor sentimental único. Mas o que é lembrança e o que é apego?

A palavra “apego” é muito usada na religião budista. Os praticantes acreditam que este seja um defeito básico do ser humano que produz grande sofrimento. De acordo com o lama budista da linhagem tibetana Ningma e presidente do Centro de Estudos Budistas Bodisatva Lama Padma Samten, o problema não é possuir bens materiais e, sim, buscar satisfação nestes objetos.

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“Felicidade e paz são coisas que encontramos em nosso interior. Quem não entende isso está procurando estas sensações e nunca vai encontrá-las. Pessoas que estejam vulneráveis possuem mais dificuldade em encontrar um estado interno de felicidade”.

O desapego é um ensinamento de extrema importância para os budistas. Lama Samten afirma que o praticante da religião não quer coisas materiais. Budistas desejam uma vida de felicidade e de lucidez verdadeira aos seus semelhantes. “Acho que hoje, no mundo, falta um olhar mais amoroso ao próximo. Falta um sentimento de comunidade que é a base de uma civilização”.

Valor sentimental inestimável
É claro que só porque alguém guarda uma roupinha de quando o filho era pequeno ou conchinhas coletadas nas praias que visitou não significa que esta pessoa tenha algum distúrbio.

A publicitária Natália Boaventura, 24, é um exemplo de quem tem apenas mania de guardar coisas. Ela conta que possui um baú onde ficam os objetos que tenham valor sentimental agregado.

“Eu sei que eu não vou me esquecer de um momento bom só porque joguei fora um bilhete. Mas mesmo assim não gosto de me desfazer de nada que me traga boas lembranças. Eu não me apego pelo valor material, e sim pelo que o item significa”, afirma.

Mesmo dizendo não se incomodar com sua mania, ela admite que acaba tendo alguns problemas no seu dia a dia. Uma das questões que mais preocupa Natália, além de não ter mais espaço para guardar tantas coisas, é a higiene. “Dá trabalho cuidar de tudo. Tem que sempre limpar tudo direitinho”.

A médica psiquiatra Bárbara Perdigão Stumpf explica que este cuidado é um dos diferenciais entre indivíduos doentes e os que gostam de colecionar itens variados. “Um pouco de apego todo ser humano tem. Tenho pacientes que possuem mais de cem pares de sapatos, mas limpos e organizados. O mesmo no caso de colecionadores. Gostar de colecionar coisas não atrapalha a vida das pessoas. O apego patológico é diferente. Estas pessoas acumulam lixo, coisas sem utilidade alguma”.

Será que é possível aprender a se desapegar das coisas? O psicanalista e hipnólogo clínico Paulo Giraldes acredita que existem ações que facilitam este processo. “Estabelecer prazos para realizar uma faxina geral no quarto, por exemplo, pode ser um caminho. Acho que o mais importante de tudo é se perguntar, toda vez que estamos guardando algo, se aquilo tem utilidade. É preciso que a gente pare de fazer as coisas por inércia e comece a racionalizar nossas atitudes diárias”, ensina.

“Sou uma máquina de jogar tudo fora”
Se Natália não tem mais onde guardar seus pertences, o mesmo não acontece com a psicóloga Thais Picerni, 33. “Não consigo guardar nada. Se tem algo que não uso há mais de dois ou três meses eu me desfaço”.

A mania de Thais já lhe causou prejuízo. Ela conta que quando ficou grávida pela segunda vez, de mais uma menina, teve que recomeçar o enxoval do zero porque não tinha nada guardado. “Acho que, às vezes, jogo fora coisas que eu podia guardar por um tempo maior. Mas me irrita ver algo sem ser usado”.

A psicóloga é o terror das pessoas que convivem com ela. Se Thais passa perto da gaveta do marido, não consegue deixar de retirar alguma coisa. Ele, claro, não gosta nada disso. “Eu nem abro mais a parte do armário dele para não dar aquela vontade de me desfazer de tudo”, confessa.

“Eu sou feliz assim. Mas as pessoas morrem de medo de mim. Fui ajudar minha mãe em sua mudança um tempo atrás e até hoje ela está brava porque joguei muita coisa que não devia fora”. A psicóloga já teve problemas sérios por causa da sua mania. “Lembro que, por engano, joguei o documento de compra e venda do meu carro no lixo. Também já fiz isso com o meu diploma de faculdade. Para tirar todos os documentos de novo foi uma dor de cabeça”.

O psicanalista Paulo Giraldes pondera que o equilíbrio é muito mais benéfico do que os extremos. “Quem simplesmente se desfaz de tudo também não racionaliza a situação. Age por impulso”, afirma.

Quando é doença
Antes de tudo é necessário saber diferenciar a mania da doença. Pessoas que guardam muitas coisas, mas são capazes de jogar determinados itens fora, não têm nada com o que se preocupar. O problema começa quando existe um apego excessivo pelas coisas e isso acaba causando um impedimento grave para que a pessoa se desfaça de algo.

Os casos extremos são conhecidos como “hoarders” em inglês. Algo que pode ser traduzido como “acumuladores”. São pessoas que guardam tantas coisas que não conseguem nem sequer se locomover com facilidade dentro de casa. O canal de TV paga Discovery Home & Health estreia nesta quinta (24), às 22h, uma a série “Acumuladores”, que mostra a vida dos que sofrem com essa compulsão.

“Um grande problema entre os acumuladores é o isolamento social. Por razões que ainda não conseguimos entender completamente, há uma tendência que estas pessoas vivam sozinhas e não convidem ninguém para ir até suas casas. Não significa que elas sejam socialmente inaptas. Muitas têm amigos, mas simplesmente não os convidam para entrar em suas residências”, explica a professora titular da Universidade de Boston (EUA) e uma das maiores estudiosas do mundo no assunto Gail Steketee.

Esta dificuldade extrema de se desfazer de algumas coisas é classificada como um transtorno mental. “É extremamente perigoso se a família resolve simplesmente jogar tudo o que foi acumulado fora. O que se recomenda para pessoas que sofrem deste transtorno é o auxílio médico”, diz Gail.

A professora ainda ressalta que esta doença pode acontecer com qualquer um, mas que é mais comumente diagnosticada entre adultos e idosos. “Eu diria que a maioria das pessoas está entre 40 e 60 anos. Mas também há muitos pacientes mais velhos. Os homens parecem sofrer mais deste problema do que as mulheres, porém elas procuram tratamento com mais freqüência”.

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