Conclusões sobre a “Geração Y” podem ser tendenciosas e equivocadas

Geração Y na mira dos pesquisadores
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Geração Y na mira dos pesquisadores
Tentar definir o personagem de uma geração pode ser um exercício controverso e, segundo alguns, presunçoso. Quem pode dizer se 50 milhões de americanos devem ser chamados de Geração do Eu, ou Preeminente? Quem pode decidir exatamente quando termina a Geração X e quando começa a Y?

Nunca deixe dizerem que pesquisadores de psicologia fogem de um desafio. Nos últimos anos, alguns delinearam um retrato da safra atual de pessoas de vinte e trinta e poucos anos, que demonstram pouca grandeza e esbanjam narcisismo e direitos adquiridos. A Geração Y também pode ser um tanto insensível: numa conferência de psicologia em maio, pesquisadores apresentaram dados sugerindo que os estudantes universitários de hoje possuem uma “preocupação empática” significativamente menor que os estudantes da década de 1980.

Cientistas sociais têm estudado os jovens há décadas, buscando tendências de pensamento e comportamento que possam ser atribuíveis a mudanças na cultura mais ampla. Acompanhar comportamentos e atitudes é algo relativamente objetivo. Comparados a gerações anteriores, por exemplo, membros da Geração Y são mais tolerantes com pessoas de outras raças e diferentes orientações sexuais, sugere a pesquisa. Eles também parecem ser mais inclinados a trabalhos voluntários. Centenas de milhares deles se alistaram para servir no Iraque e Afeganistão.

Porém, avaliar seus motivos e traços – sua personalidade coletiva – é um território bem mais instável. Por isso a discussão a respeito do personagem da Geração Y, e se as gerações chegam a possuir personagens distintos.

Ela gira em torno de uma recente descoberta de que, em questionários de personalidade, pessoas nascidas depois de 1970 apresentam maior probabilidade de ver a si mesmos como “pessoas importantes”, de dizer que são confiantes e de classificar sua autoestima como mais alta. “A pesquisa converge nisso: que o individualismo está aumentando, que o foco em si mesmo é mais aceitável na cultura, e que não é preciso se preocupar muito com normas sociais”, disse Jean M. Twenge, psicólogo da San Diego State University. Num livro de 2006, “Generation Me” (Geração do Eu, em tradução livre), ele descreve a tendência, seu possível lado positivo (mais oportunidades para aqueles sem tanta autoconfiança) e lado negativo (maiores níveis de ansiedade e depressão).

Porém, uma recente edição da revista “Perspectives on Psychological Science” trouxe uma oposição a esse argumento, com psicólogos discutindo sobre metodologia e oferecendo interpretações alternativas de dados de pesquisa.

Num relatório, dois psicólogos analisaram uma pesquisa com alunos universitários que atravessou décadas e concluiu haver “poucas evidências de uma mudança significativa” em questões relacionadas a autoestima, individualismo ou satisfação com a vida. “Acho que nós, nessa profissão, precisamos ser cuidadosos para não estereotipar ou rotular um vasto número de pessoas, a menos que as evidências sejam muito fortes”, disse M. Brent Donnellan, da Michigan State University, co-autor do artigo com Kali H. Trzesniewski, da University of Western Ontario.

Em outro artigo crítico, pesquisadores da University of Illinois relataram dados sugerindo que o narcisismo atinge seu pico na jovem maioridade, “não por mudanças culturais, mas graças a tendências de desenvolvimento relacionadas à idade”.

Twenge e outros refutaram ponto a ponto, e a discussão não deve ser resolvida em breve. Por um lado, os próprios testes de personalidade são suspeitos. “Devemos ter em mente que os testes de personalidade são documentos culturais, produtos exclusivos de indivíduos particulares que dizem mais sobre seus criadores do que a respeito das pessoas submetidas a eles”, afirmou Annie Murphy Paul, autora de “The Cult of Personality Testing” (Free Press, 2004).

Por outro lado, pesquisadores tendem a trabalhar com amostras, como alunos universitários, que não são representativas da geração como um todo. Nem mesmo está claro que acontecimentos externos possam alterar muito os traços fundamentais de uma pessoa. “Encontramos muito poucas mudanças nos resultados em diferentes culturas, ou até mesmo após grandes mudanças históricas” como guerras ou revoluções, disse Antonio Terracciano, psicólogo do National Institute on Aging.

Em resumo: a personalidade coletiva da Geração Y, se é que isso existe, não será muito distinta das personalidades de outras gerações. Ainda assim, pequenas diferenças podem ser importantes e existe algum acordo em descobertas de psicólogos em ambos os lados deste debate. Em sua própria pesquisa, Terraciano descobriu um leve declínio na confiança através das gerações e um leve aumento em algo chamado “ascendência”, ou “competência” – uma confiança autodeclarada para fazer as coisas acontecerem.

Essa característica é similar a um traço medido por um questionário amplamente usado, chamado de Inventário de Personalidade Narcisista, que pergunta às pessoas se elas concordam com afirmações como “Eu serei um sucesso” e “Eu sempre sei o que estou fazendo”. Esse teste não é uma ferramenta diagnóstica para o transtorno da personalidade narcisista, uma grave condição psiquiátrica; ele é simplesmente um medidor bruto de autoconfiança, vaidade e autoimportância, características que todos possuem em algum grau. E os resultados se elevaram significativamente, ao menos em algumas amostras universitárias.

“Isso é especialmente verdadeiro para mulheres”, explicou Twenge. “É com elas que observamos as mudanças mais drásticas”.

Porém, nenhuma característica é boa ou ruim em seu sentido absoluto. Cada uma se esbarra em outros traços de personalidade, expressando-se diferentemente em cada contexto. A percepção de auto-importância pode fazer uma pessoa se passar por pretensiosa e irritante. Mas também pode tornar outra pessoa decidida o bastante para se alistar no exército, se tornar líder de uma causa social ou se aventurar numa carreira contra todos os conselhos de amigos e parentes.

(Por Benedict Carey)

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