Quero ser freira

Três mulheres entre 17 e 35 anos falam sobre a decisão de dedicar sua vida à religião

Carina Martins, iG São Paulo |

Bruno Zanardo/Fotoarena
Amanda com a irmã Susana na casa das freiras
"Ai, gente, meus brincos, não sei como vou viver sem meus brincos!", brinca a estudante paulistana Amanda Moita Vaz, 17, a respeito das argolonas prateadas nas orelhas. Simpática, olho pintado, luzes no cabelo, ela explica que, se der tudo certo, nos próximos dias vai conseguir compensar a nota vermelha que tirou em Biologia e assim evitar ficar de dependência justo agora que está terminando o Ensino Médio. Nos próximos meses, seus amigos vão prestar vestibular. Ela também. "É bom ter uma garantia", diz. Mas qualquer que seja o resultado, a faculdade será uma segunda opção. Amanda quer ser freira. E vem se preparando para isso há mais tempo do que os colegas pensam em vestibular. Acompanhada por irmãs Apostolinas desde os 12 anos, ela é hoje uma "vocacionada", nome dado às pessoas que já se decidiram pelo caminho consagrado e se preparam para a longa jornada até que realmente possam fazer seus votos.

Pouca gente deve pensar que ser freira é uma atividade fácil. Mas muitos podem achar que é simples tornar-se uma. Não é. Depois de um tempo indeterminado de contato entre vocacionados e congregação, a mulher que busca a consagração deve fazer os mesmos votos das freiras - obediência, pobreza e castidade - e viver a vida monástica por um período que varia entre cinco e nove anos de estudo e experiência para só então repetir os mesmos votos, só que de forma definitiva. E aí sim, ser uma freira. Hoje, são pouco mais de 30 mil no Brasil, número descrescente desde uma alta dos anos 70.

É muito tempo de dedicação para que um dos estereótipos sobre o que leva mulheres a escolher esta carreira (sim, carreira) se sustente: haja desilusão amorosa para valer o equivalente a uma faculdade de medicina, sem expectativa de receber salário de médico. Lucivânia Conceição Oliveira, 28, está prestes a fazer os votos definitivos e levanta a bola: “muita gente acha que só quer ser freira quem se dá mal no amor. Ou é feia”, diz, sabendo que é uma morena de olhos verdes e sorriso fácil que dificilmente poderia ser enquadrada naquela categoria.

Sexo e romance são muito valorizados, então é natural imaginar que sua renúncia esteja no topo dos questionamentos e dificuldades para as meninas e mulheres católicas que decidem ter suas vidas consagradas e tornarem-se freiras. Certamente o celibato não é o aspecto mais atraente da vocação. Mas, pelo menos entre aquelas que se interessam pela vida religiosa, também não é apontado como maior problema. Amanda já teve dois namoros longos. Diz que hoje não se interessa pelo assunto e que espera que uma paixão não apareça para fazê-la ter que escolher entre o futuro religioso e o romance. Lucivânia diz que sempre quis ser freira, e que isso não impediu que tivesse vários namoricos no interior da Bahia, de onde veio, mas que fez com que nunca levasse a sério a possibilidade de se casar. Nem Lucivânia nem Amanda citam o romance entre suas maiores preocupação na hora de fazer os votos que pretendem. Desculpem, meninos.

MiGCompFotoLinks_C:undefined A irmã Susana Santa Catarina, 35, é a responsável pela área vocacional das irmãs Apostolinas, pequena congregação cuja missão é exatamente a de atrair católicos para a vida consagrada. Em sua experiência, as meninas que se interessam em conhecer melhor esta opção costumam se preocupar mais com outras renúncias. A maior parte delas vem de cidades pequenas do interior do país, e deixar a família é o maior empecilho que encontram. “Especialmente quando são filhas únicas, é muito difícil para elas a ideia de ficar longe da mãe e da família, explica Susana.

Se o voto de castidade não é a grande questão, sobram pobreza e obediência. Susana, na vida monástica há dez anos, Lucivânia, prestes a fazer os votos definitivos, e Amanda, que apenas acompanha a rotina das irmãs, podem estar em estágios diferentes da consagração. Mas são unânimes aos apontar a maior dificuldade da vida de freira. E, surpresa, é algo tão mundano quanto sexo: a convivência. As irmãs, mulheres de origem e idades diferentes, têm que viver juntas, partilhar uma rotina, dividir tarefas e ainda seguir uma hierarquia. Quase dez anos de Big Brother Brasil já deveria ter nos ensinado que abstinência não é nada perto dos desafios da convivência. “Dividir sua vida é parte do voto de pobreza”, ensina irmã Susana. E, no caso delas, é para sempre.

O caminho

Lucivânia nunca tinha visto uma freira de verdade, mas já sonhava em ser uma. Antes, trabalhava em casas de família. Ela tem uma irmã mais velha que faz parte da mesma congregação que ela, e desconfia e torce que outro irmão tem vocação para padre. Na cidade de Susana também não havia nenhuma irmã, mas vem de uma família extremamente religiosa. Envolveu-se com a comunidade da Igreja e acabou decidindo viver para isso. As duas dizem que seus pais falam com orgulho de sua opção.

Lucivânia e Susana têm origens e histórias parecidas. O caso da paulistana Amanda é um pouco diferente. Seu pai é umbandista e a mãe católica não-praticante. Ela começou a frequentar a igreja por conta própria aos sete anos, ao ouvir uma amiguinha contar histórias da catequese. “Meu pai ficou um ano sem falar comigo. Eu adorava ir, e logo quis participar como as crianças que ficavam no altar. O dia que me colocaram para carregar a cestinha, fiquei muito empolgada. Acabei virando coroinha”, conta. No ano passado, sua mãe foi conhecer a casa das freiras, programa preferido de Amanda nos finais de semana, o que custa muita reclamação dos amigos de escola. “Eles me chamam para sair, comer pizza. Eu vou, eu gosto. Mas gosto mais de ir à casa delas”, diz. A menina conta que a mãe não gosta da ideia, mas hoje apóia sua decisão.

As duas mais velhas escolheram a vida monástica por uma identificação com a igreja. Amanda também, mas a estudante diz que, acima de tudo, sua vontade é trabalhar com jovens. Hoje, exercita esse lado sendo amiga dos amigos. “Eles dizem que dou bons conselhos”, conta. A turma se divide entre os que apóiam sua escolha para o futuro e os que a acham “louca”.

Freira pode

Quando Amanda conheceu as freiras em um retiro, aos 12 anos, disse que nunca tinha visto uma irmã. “Achei que eram todas velhas chatas, e que iam atrapalhar a viagem”, conta. Surpreendeu-se com a idade e a disposição das que encontrou. Após a primeira noite, a menina diz ter acordado angustiada sem saber por quê. “Uma irmã conversou comigo e me ajudou muito”, diz. Foi o começo de uma amizade que moldou a escolha de Amanda. A freira que a ajudou acabou desistindo da vida consagrada. Ela, não.

“Vou sentir falta do meu pagodinho também, ai meu Deus”, conta Amanda, fã de Exaltasamba, Jeito Moleque e outros. “Se bem que eu já as vi ouvindo Alexandre Pires. Mas dançando, não”, ri. Entre as idéias mais erradas que já ouviram a respeito das freiras, as três apontam o excesso de restrições, como não poder ver televisão, não poder sair sozinha ou encarar castigos. Tudo lenda, elas garantem, pelo menos nesta congregação. Perguntando com jeitinho, elas contam rindo segredos da convivência – tem freira pintando o cabelo, tem irmã vaidosa demais. “Essas coisas do dia a dia de mulher nós também temos. E gula e vaidade são pecados capitais!”, ri. E não é porque o hábito é largo que a cintura pode acompanhar. “Se a gente percebe que uma irmã está se jogando demais nos doces, por exemplo, a gente comenta”, confessa Susana aos risos. Convivência.

As unhas vermelhas e o olho pintado de Amanda vão ter que ficar para trás se ela conseguir o que quer e for viver com as irmãs no ano que vem, quando completar 18 anos. “Não é que não pode, mas é inapropriado”, explica Susana sobre a maquiagem. A estudante lamenta, “adoro ser loira”, mas acha que vai levar numa boa. Só que os brincos... “Ai meus brincos, vou sentir falta”, diverte-se. Se tudo der errado, ela mantém os brincos e vira publicitária. Mas só se Deus quiser.

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