Depois da glória e da decadência, os concursos de miss voltaram com tudo. Mas qual o impacto deles sobre a imagem da mulher?

Morena alta, dona de um corpo escultural, cabelos lisos. Se você prestar bem a atenção às vencedoras dos últimos concursos de Miss Brasil notará que elas são bem, mas bem parecidas. É o estereótipo da mulher bonita – que deixou de ser loira e nunca foi negra. Tá, uma vez só uma negra venceu: em 1986, a gaúcha Deise Nunes levou o cedro.

Reflexo da beleza feminina brasileira? Certamente não, principalmente com a diversidade de raças no país. Mas, mesmo assim, há ainda quem sonhe em ser miss – mas elas precisam se encaixar no padrão preestabelecido. Mas qual o padrão preestabelecido?

Vencedora em 2007, Natália Guimarães diz que é maravilhoso representar a beleza brasileira mundo afora. “Não tive a ousadia de achar que seria a segunda colocada no Miss Universo. Sempre assisti com minha mãe aos concursos e ela era a minha maior incentivadora para participar. Em 15 dias, minha vida mudou de cabeça para baixo”, comenta a atriz de “Bela, a Feia”, da Record.

Estudante de arquitetura, Natália fazia inglês nos Estados Unidos e já era modelo profissional, da agência Ford Models, quando se inscreveu no concurso. Tinha convites para trabalhar na Ásia e na Europa, mas preferiu ser miss. E ganhou: foi a representante de Belo Horizonte, posteriormente Minas Gerais e Brasil. “O concurso dá projeção para as modelos, abre portas para a carreira. É um mundo de oportunidades, mas cada uma tem que fazer a sua parte também”, acrescenta a bela.

Queda e ascensão

O primeiro registro que se tem de concursos de beleza no Brasil apontam que a primeira miss foi Violeta Lima Castro, mais conhecida como Bebê Lima Castro, eleita em 1900. Mas há historiadores que creditam a primeira coroa a uma francesa naturalizada brasileira, vencedora em 1865.

Mas estes ainda não eram o Miss Brasil que conhecemos. Somente no ano de 1952 é que o Miss Universo foi criado oficialmente (e, pasme, para divulgar uma marca de maiô). Dois anos mais tarde, a primeira representante brasileira, Martha Rocha, ficou em segundo lugar. Mas foi em 1955 que o concurso passou a transmitido pela TV Tupi e se tornou uma febre, superado apenas pela Copa do Mundo.

Com a falência da rede de TV em 1980, o SBT assumiu a transmissão do Miss Brasil, o que durou dez anos. A baixa audiência fez com que a rede de Silvio Santos desistisse do concurso. Nenhuma emissora se interessou nos seis anos seguintes. Foi a completa decadência. Em 1996, a TV Record assumiu, mas o glamour já não era o mesmo. Três anos depois, foi a vez da Rede TV e somente em 2003 é que a Bandeirantes tornou-se responsável pela transmissão dos concursos, marcando a volta da audiência.

Volta triunfal

Há quem defenda que o impacto dos concursos na sociedade continua sendo igual ao dos anos dourados, a despeito da decadência e retorno. “Infelizmente, os concursos não decaíram o quanto eu gostaria que tivessem. Eles fazem parte de uma composição que promove um estereótipo de beleza feminino. No último século, tivemos alguns modelos diferenciados. Mas, hoje em dia, qualquer mulher tem que fazer algo para se encaixar nesse padrão, como se submeter a uma cirurgia plástica”, critica a psicóloga e feminista Rachel Moreno, autora do livro “A Beleza Impossível – Mulher, mídia e consumo”, da Editora Ágora.

Só para você ter uma ideia: a vencedora do concurso em 2004, a gaúcha Fabiane Niclotti, então com 19 anos, colocou implante de silicone nos seios. A também gaúcha Juliana Borges chegou ao cúmulo de fazer 19 plásticas antes de vencer o concurso e ser miss Brasil em 2001. Algo que era proibido antigamente pela organização do concurso. Retrato fiel da beleza feminina? “Concurso de beleza a gente faz com gado, com cachorros, com uma série de animais e, também, com mulheres”, alfineta Rachel Moreno.

Que Cinderela, que nada!

Talvez a principal mudança esteja no perfil das candidatas. Se antigamente a garota tinha o sonho de ser a princesa das histórias infantis, hoje elas querem fama e dinheiro. “Toda menininha que brinca com a Barbie já acha que tem que crescer assim, loira, alta e magra. As mulheres que observam a mídia acabam sendo, de alguma forma, bombardeadas por aquelas que até parecem ter uma beleza diversa, mas não têm; no fundo, é uniforme: todas brancas, altas, magras e de cabelos lisos”, diz a psicóloga.

Projeção nacional e internacional para a carreira de modelo é hoje o principal motivo que move a busca pelo cetro de miss. “O concurso serve para vender produtos e procedimentos (como xampus, cremes, plásticas) que prometem fazer com que elas cheguem mais próximo desse modelo de beleza, embora nunca cheguem ao que efetivamente prometem. E isso tem um impacto muito negativo na autoestima das mulheres”, explica Rachel Moreno.

Colaborou: Vladimir Maluf

O Miss Universo 2009 será transmitido no domingo, 23, a partir das 22h, no canal por assinatura TNT

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