Livro responde acusações de que Sigmund Freud odiava as mulheres e detalha relações do Pai da Psicanálise com familiares e amigas

Freud e sua filha Anna, representante do legado do pai, passeiam nas férias de verão da família
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Freud e sua filha Anna, representante do legado do pai, passeiam nas férias de verão da família
Depois que o médico austríaco Sigismund Schlomo expôs suas ideias sobre a alma humana, afirmando que as mulheres tinham "inveja do pênis" e levantando a existência de uma sexualidade latente nas crianças, não é exagero dizer que o mundo nunca mais foi o mesmo. Eram as primeiras décadas do século 20 e Sigismund, que passou a assinar Sigmund Freud, foi um divisor de águas na história da psicologia.

As teorias de Freud, sobre as quais se fundamentam a Psicanálise, mudaram a visão da sexualidade, arregimentando tantos admiradores quanto críticos - entre estes, feministas que consideravam patriarcal e retrógrada a visão do homem que via as mulheres como seres limitados.

Acusações de machismo e misoginia ainda persistem. Mas a escritora Lisa Appignanesi e o pesquisador John Forrester se empenharam para mostrar a verdadeira relação de Freud com as muitas mulheres que o cercavam, derrubando os mitos. Em "As Mulheres de Freud" (Editora Record), a dupla mergulha na vida do Pai da Psicanálise e detalha a relação dele com mulheres da família - como a filha Anna, portadora do legado do pai - e de pacientes e amigas - como a escritora Lou Andreas-Salomé e a princesa Marie Bonaparte, que ajudou a família Freud a escapar de uma Áustria já dominada pelos nazistas.

Conversamos com John Forrester, professor de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, autor de várias obras relativas à psicanálise e co-autor de "As Mulheres de Freud", que falou sobre o livro e sobre a visão de Freud do feminino. Leia abaixo.


iG: Você acha que o legado de Freud seria diferente se ele estivesse cercado só de homens?
John Forrester: Ele estava cercado de homens! Ele tinha três filhos e três filhas, mas todos os membros do seu grupo eram homens. No entanto, sua filha mais jovem, Anna, veio a representar seu legado quando o pai foi ficando cada vez mais fragilizado, em consequência do câncer diagnosticado em 1923. E, depois da morte dele, ela foi a guardiã do seu legado - como Antígona (personagem da mitologia grega) , procurando, de alguma forma, entrar no túmulo atrás dele.

iG: O que Freud diria sobre as acusações de que ele odiava as mulheres? Você concorda com estas acusações?
John Forrester: Todo mundo odeia tanto homens quanto mulheres. Esse é o ponto de partida de um processo psicoanalítico. Freud odiava mais as mulheres que os homens? Ele tinha relações mais abertamente agressivas e hostis com homens do que com mulheres. Ele manteve amizades fortes e próximas com mulheres por muitas décadas. Não só com sua esposa, sua cunhada e com as filhas, mas também com amigos e colegas da área psicoanalítica - sobre as quais falamos em detalhes no livro. Me parece que as relações mais maduras de Freud com as mulheres eram mais estáveis e menos tempestuosas do que suas relações com homens.

Capa do livro
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Capa do livro "As Mulheres de Freud', de Lisa Appignanesi e John Forrester
iG: De onde vêm estas acusações?
John Forrester: As acusações de misoginia vêm daqueles que discordam de suas teorias, e as confundem com a visão pessoal de Freud. As teorias dele alegam que não existe a feminilidade em essência - garotas se tornam mulheres através de um longo e complexo processo. Ambos os sexos vivem sob a primazia do pênis durante a infância e não têm necessidade de um mundo dividido em dois gêneros. Depois, as meninas passam por um desenvolvimento e chegam a uma libido diferente da dos homens. Isso faz com que Freud seja misógino?

iG: Freud tinha alguma ideia sobre o quanto ele estava impactando o mundo com suas teorias?
John Forrester: Sim. Ele sabia que era um revolucionário - um conquistador, não um curandeiro, e um descobridor de verdades fundamentais sobre a natureza humana. Ele tinha suprema autoconfiança e estava convicto disso.

iG: Você acha que Freud ajudou na liberação sexual feminina ocorrida no século 20? Ou as teorias dele acabaram por fazer o contrário?
John Forrester: Muitas coisas colaboraram para a mudança na vida das mulheres e na forma de encarar a sexualidade feminina: guerras, revoluções, evoluções tecnológicas. Mas Freud foi o profeta da visão do sexo como o âmago da pessoa. Nesse aspecto, as feministas têm a mesma opinião que ele.

iG: Um exercício de imaginação, para terminarmos: hoje em dia, qual mulher Freud gostaria de analisar?
John Forrester:Todas elas. Não tem como definir de antemão qual paciente será interessante. Tenho certeza de que Freud acharia de extremo interesse científico analisar um transexual - tanto de homem para mulher como de mulher para homem - apesar de que ele poderia achar a tarefa árdua demais. Como muitos analistas, incluindo sua própria filha, ele provavelmente acharia o charme e o magnetismo de Marilyn Monroe pungentes e sedutores demais para resistir. Mas Freud não analisou muitas pessoas famosas em sua época. O que o tornou um grande descobridor foi justamente isso: ele chegava a suas descobertas a partir da análise de pacientes comuns, ao mesmo tempo em que retratava as complexidades políticas, étnicas, culturais e históricas da Viena do fim do século.

Marie Bonaparte, a princesa que procurou Freud para curar sua frigidez sexual e ajudou a família a escapar do nazismo
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Marie Bonaparte, a princesa que procurou Freud para curar sua frigidez sexual e ajudou a família a escapar do nazismo
Conheça algumas das mulheres de Freud

Anna Freud - Filha mais nova do psicanalista e de Martha Freud, Anna nasceu em 1895 e passou a infância competindo com a irmã Sophie, dois anos e meio mais velha. Em 1910 ela começou a ler a obra do pai, mas se envolveu de verdade com a psicanálise a partir de 1918, quando passou a ser analisada por Sigmund. Seis anos depois, Anna especializou-se em psicanálise infantil. Quando Sigmund adoeceu, Anna cuidou dele até a morte. Continuando a carreira, também tornou-se uma psicanalista importante e deu continuidade à obra do pai.

Lou Andreas-Salomé - Nascida na Rússia, era a única mulher entre seis irmãos. Derrubou as convenções da época estudando teologia, filosofia e literatura Alemã e Francesa. Vivendo em vários países da Europa, conviveu com nomes como Friedrich Nietzsche e Rainer Maria Rilke. Conheceu Anna e Sigmund Freud, com quem manteve correspondência. Foi escritora e psicanalista.

Marie Bonaparte - Princesa da Grécia e da Dinamarca, Marie tinha dinheiro e influência. Procurou por Freud para que ele a curasse da frigidez e fez, ela mesma, pesquisas sobre a sexualidade feminina. Virou uma grande amiga de Sigmund e Anna Freud e ajudou a família a escapar dos nazistas em 1938. Trabalhou como psicanalista até o fim da vida, aos 80 anos.

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