Coisa mais comum é fazer aquela pesquisa básica na rede sobre o cara no qual você está de olho. Mas até que ponto isso é legal?

Mulher navega no Facebook: obsessão em fuçar a
vida alheia pode virar um problema
Getty Images/Chris Jackson
Mulher navega no Facebook: obsessão em fuçar a vida alheia pode virar um problema
Muitas pessoas usam a internet para manter contato com os amigos, fazer network, iniciar relações românticas. Nos perfis dos sites de relacionamento é comum a presença de uma lacuna que questiona seu interesse em participar. O curioso é que nenhum destes sites levanta uma questão óbvia, que justifica a própria existência das redes: quem, ou o que, você quer espiar?

Semelhante ao que acontece no livro “1984” de George Orwell, a internet criou uma infinidade de “Grandes Irmãos”, patrulheiros de vida alheias, que vigiam não necessariamente celebridades ou pessoas públicas, mas gente anônima com quem convivem.

A jornalista Rachel Rothier, 32 anos, é uma das pessoas que caiu na armadilha irresistível de fuçar os outros. “Eu era casada e ele tinha uma ex-namorada que fazia até macumba para ele voltar. Ela fuxicava o meu Orkut e eu o dela. Ela mandava recados através do próprio perfil, trocava comunidades, com provocação. Fiquei dois anos com ele e dois anos nesta brincadeira”, relata.

Tudo começou quando os amigos dele comentaram que ela se parecia muito com a ex. “Na primeira vez que entrei no Orkut dela foi pra conhecê-la, motivada por esses comentários”. Ela conta que o próprio marido se desligou da rede por conta da “perseguição” da ex-namorada inconformada.

Preocupada com a fissura da concorrente, que mantinha contato com os amigos e parentes do marido, Rachel desenvolveu um hábito diário de visitar as páginas da menina. “Eu via, claramente, que ela continuava muito a fim dele ainda e achava esquisito não terem cortado os laços. Isso me causava ciúme. Ela frequentava a casa da mãe dele. E a mãe dava corda, confundia nossos nomes. O Orkut servia apenas pra confirmar aquilo que estava no ar”, diz.

O psicólogo Paulo Tessarioli analisa o caso: “Eu pensaria da seguinte forma: o outro age sempre em causa própria. Isto significa que a ex-namorada está agindo desta forma porque percebe que tem algum ganho com isso, mesmo que seja apenas publicar o recado para que os outros vejam. Quando compreendemos este fato a partir deste foco, deixamos de reagir e relevamos o ocorrido sem qualquer estresse, tanto para quem foi alvo, como para quem está ao lado”.

Nas brigas do casal, o assunto não entrava em pauta, mas escapava certa insistência para que Rachel também se desligasse da rede. “Eu sei que a motivação para isso era ela, para ela parar de saber da nossa vida. Ele não dizia claramente, mas me pedia para não colocar fotos dele. Nem mesmo as fotos da nossa lua de mel eu pude publicar”, indigna-se. O casamento acabou e ela diz não ter mais contato com nenhum dos dois – mas sabe que, no Facebook, eles mantêm contato.

Mas o histórico de espionagem da “detetive” Rachel Rothier tem outras personagens. “Já terminei um namoro por causa do que descobri no Orkut”, conta. Com três meses de namoro, ela soube que o rapaz estava de viagem marcada com os amigos, durante o Carnaval. O pior foi que ele não fez questão de esconder, nem de comunicá-la e menos ainda de admitir a verdade, mesmo depois de descoberto.

“Eu fuçava o Orkut do cidadão sem parar, tipo 10 vezes ao dia. O que me chamou atenção é que ele não costumava apagar os recados, ou apagava e nessa de apagar, me fez virar agente do FBI. Quanto mais ele apagava, mais eu fuçava. Até que o vi combinando uma viagem para Diamantina, sabia até o horário do voo. Liguei para casa dele para me certificar. No dia seguinte, ele me mandou torpedo como se estivesse no Rio e eu dizendo, via torpedo, eu sei que você viajou, ele desconversando. Quando ele voltou, eu terminei no ato”, explica.

Compulsão
Se a internet deixa de ser uma ferramenta facilitadora e passa a despertar uma paranoia, é hora de prestar atenção! “Uma relação deixa de ser saudável no momento em que a vida para por causa do outro. Imaginem quanto tempo e energia uma pessoa gasta para ficar espiando, tramando, vigiando? O que esta pessoa poderia fazer com este tempo e energia, caso ela colocasse foco em si mesma?”, pergunta Tessaroli.

A compulsão pode chegar a níveis pesados. O ex-jogador de futebol Janken Ferraz Evangelista, 29 anos, recorreu à internet para vigiar a ex-mulher depois que ela o abandonou em Teixeira de Freitas (BA), e fugiu para São Paulo com o filho do casal, Segundo o seu depoimento no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, ele adotou um nome falso e tornaram-se amigos no Orkut. Conversavam através do MSN e fizeram sexo virtual. A prova de que ela o traía estava estabelecida para o jogador. Assim, ele a assassinou com 14 facadas.

Todo mundo tem um pouco dessa veia de “Sherlock Holmes da web”. Uma pesquisa realizada pela iSpy apontou que mais de 25% das mulheres britânicas usam a internet para observar seus parceiros. Segundo o relatório, as mulheres são quase duas vezes mais propensas ao uso da internet para espionagem da sua cara-metade. Em contrapartida, apenas 16% dos homens afirmaram que procuram informações on-line sobre suas parceiras.

Controle-se
Sugerimos um exercício simples para você controlar o impulso da espionagem internética, se achar que está passando dos limites:

- Pegue uma folha de papel e trace um risco ao meio, dividindo-a em duas partes iguais;


- De um lado, escreva “Custo” e, do outro, “Benefício”;


- Entenda como “Custo” tudo aquilo que é necessário se fazer para controlar a pessoa com a qual se relaciona. Pense inclusive no tempo – calcule no relógio – que você gasta para realizar cada uma destas ações;


- Entenda como “Benefício” tudo aquilo que você percebe como resultado positivo de cada um dos custos que você relacionou ao lado;


- Compare e tire suas conclusões.

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