Especialistas rebatem afirmações de livro, lançado esta semana na França, que classifica a psicanálise como religião

Capa do livro Le Crépuscule d'une idole, l'affabulation freudienne, de Michel Onfray
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Capa do livro Le Crépuscule d'une idole, l'affabulation freudienne, de Michel Onfray
Michel Onfray tem uma certa experiência em perturbar as águas nem sempre tranquilas de establishments contemporâneos. O filósofo francês, que se define como ateísta e anarquista de esquerda e fundou uma Universidade Popular na cidade de Caen, ao norte da França, tornou-se best seller (e foi ameaçado de morte) ao criticar as religiões monoteístas em "Tratado de Ateologia". Agora deita sua munição contra Freud e a Psicanálise em "Le Crépuscule d'une idole, l'affabulation freudienne" (O Crepúsculo de um Ídolo, a Fábula Freudiana), lançado nas livrarias francesas no início desta semana.

Em seu livro anterior, Onfray classificou as religiões como histórias da Carochinha. "Contra os rabinos, padres, aiatolás e mulás, eu persisto na preferência pelos filósofos", escreveu. Ao destrinchar as religiões em seu processo opressor, no entanto, Onfray sofreu críticas por cometer imprecisões em sua pesquisa histórica. O mesmo já acontece com sua obra mais recente. No livro sobre Freud, ele acusa o médico austríaco de uma gama infindável de impropérios - de homofóbico a charlatão - e classifica a Psicanálise como uma religião. Em debate em um jornal francês, o autor afirmou que a Psicanálise tem o mesmo poder de cura que têm "a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote".

Repercussão

É no mínimo curiosa a comparação da Psicanálise à religião, tema analisado por Freud em "O Futuro de uma Ilusão". "Freud era filho do Século das Luzes e, como tal, acreditava que a razão superaria a religião", diz o psicanalista Leonardo Francischelli, membro do IPA (International Psychoanalytical Association) e da Febrapsi (Federação Brasileira de Psicanálise).

O filósofo francês Michel Onfray: a psicanálise tem o mesmo poder de cura que a homeopatia
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O filósofo francês Michel Onfray: a psicanálise tem o mesmo poder de cura que a homeopatia
"Nada mais absurdo do que considerar a psicanálise uma religião", completa Claudio Eizirik, integrante da Sociedade de Psicanálise de Porto Alegre e presidente da IPA entre 2005 e 2009. "Freud várias vezes destacou a natureza científica da psicanálise. O movimento psicanalítico é um sistema aberto, pluralista, onde o debate é livre, há espaço para críticas, controvérsias e cisões - e não se cultivam dogmas como nas religiões", defende.

Onfray também acusa Freud de fracassar na cura de vários pacientes e alterar seus registros para parecer que o tratamento fora bem-sucedido. Claudio afirma que o médico austríaco nunca escondeu seus fracassos. "Freud relatou honestamente cada um de seus casos, com todos os dados ao seu dispor. Para mim, isso constitui uma demonstraçõa da honestidade dele", declara.

O livro polêmico também leva ao extremo uma crítica pouco inédita para os psicanalistas: a de que as teorias freudianas são limitadas pela época e local em que foram criadas - ou seja, a Viena burguesa da virada do século 19 para o século 20. Nas palavras de Onfray, Freud tentou tornar universal uma doutrina que, no máximo, servia somente para ele.

Paulo Quinet, psiquiatra e psicanalista da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro e diretor de publicação da Federação Brasileira de Psicanálise, contemporiza: "Não se pode negar que existem aspectos da teoria de Freud que são impregnados com a cultura da época, assim como os escritos do filósofo o são pela cultura de agora. Mas estudos recentes, inclusive na neurociência, confirmam muitas das antevisões do Freud".

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