O tratamento, considerado lento por muitos, segue os princípios criados por Freud - e não sucumbiu à pressa da sociedade atual

Se por um lado a psicanálise buscou o aperfeiçoamento de teorias para adequá-las aos desafios da sociedade atual, por outro se manteve firme em princípios de formação e tratamento. Essas são parte das tarefas atribuídas à associação criada por Sigmund Freud (1856-1939) para divulgar a psicanálise, The International Psychoanalytical Association (IPA), que comemora seu centenário neste sábado.

Com críticas ou não, os seguidores de Freud zelam para que os princípios preconizados pelo médico se mantenham eficazes. O tratamento, considerado lento em excesso por muitos, não sucumbiu à pressa da sociedade atual. “Há um anseio por soluções rápidas, fáceis e indolores nesse meio dominado pelas imagens e descargas impulsivas”, pondera Cláudio Eizirik, da Sociedade de Psicanálise de Porto Alegre e ex-presidente da IPA.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Plínio Montagna, considerar o tratamento da psicanálise lento representa uma distorção. Segundo ele, é possível melhorar sintomas de dor e ansiedade de forma rápida, em poucos meses. Porém, dependendo do objetivo, será preciso ter paciência. “Se a busca é por uma mudança estrutural, é outra história. A única psicoterapia que pode chegar a isso é a psicanálise, então não há, nesse campo, comparação possível (de tempo)”, afirma.

A recomendação para os pacientes que se submetem às sessões de psicanálise é que as visitas ao analista aconteçam, pelo menos, três vezes por semana. Cada encontro tem, em média, 50 minutos de duração. Só com a freqüência e a intensidade das sessões, é que se acredita que o vínculo será estabelecido entre analista e paciente. “Com isso é que a pessoa pode estabelecer confiança e se abrir”, ressalta o presidente da Federação Brasileira de Psicanálise, Leonardo Francischelli.

Eizirik defende que o tempo e a reflexão são fundamentais para explorar os meandros desconhecidos da mente humana e tentar compreender conexões entre passado e presente.

Formação

Não é simples se tornar um psicanalista: são necessários quatro anos de formação (estudos das teorias e análise), atendimento de pacientes e ainda há uma monografia final. Os critérios de formação e seleção de candidatos a psicanalistas são rígidos e seguem orientações da IPA. No entanto, os institutos filiados têm a liberdade de definir alguns critérios para a aceitação de candidatos, por exemplo.

A Sociedade de Psicanálise de Brasília, por exemplo, aceita profissionais formados em qualquer área do conhecimento. Outras só recebem médicos e psicólogos. Os currículos dos candidatos, a autobiografia delas e entrevistas fazem parte do processo de seleção. Depois, os aprovados precisam fazer análise com um psicanalista recomendado por um ano. São exigidas, no mínimo, quatro sessões semanais.

Prontos, eles passam a estudar as teorias, que duram quatro anos, a acompanhar casos clínicos e, depois, apresentar relatórios clínicos. Ao longo da carreira, a formação precisa ser contínua. Os profissionais são estimulados a desenvolver pesquisas, participar de congressos e grupos de trabalho. Na SPB, há uma clínica social para os interessados em fazer psicanálise e não podem pagar pelo tratamento.

Pedro Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), ressalta um ponto importante da ciência criada por Freud: ela manteve interface com ciências, como a antropologia e a filosofia, para se aprimorar. “A pluralidade é fundamental para a psicanálise”, comenta a presidente da SPB, Silvia Helena Heimburger.

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