Conheça os bastidores do desafio da produtora Cláudia Fernandes, que passou 50 dias na Índia para realizar um documentário

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Reprodução
É um lugar tão gostoso que quero voltar para o
resto da minha vida para uma recarga espiritual
Mesmo para quem está acostumado a viajar, ou mesmo já morou fora, encarar uma solitária estada de 50 dias na Índia, país com uma cultura muito diferente da ocidental, é uma aventura. E foi para essa aventura que Cláudia Fernandes, 25, se preparou durante dois meses. O destino era Dharamsala, lugar onde foi instalado o governo tibetano no exílio e onde ela filmaria um documentário sobre o TNP (Tibetan Nuns Project), um projeto de ajuda educacional e humanitária a monjas exiladas.

A primeira coisa a fazer foi não se intimidar com as experiências de quem já tinha viajado para a Índia. “Muita gente tentou me passar medo”, conta. A segunda foi pesquisar muito sobre o lugar no qual iria passar quase dois meses. “Eu nem sabia onde ficava Dharamsala. Tive que procurar no mapa”.

Com graduação em Ciências Ambientais na Austrália, curso de videodocumentário em Barcelona e vários carimbos no passaporte, Cláudia está acostumada a viagens internacionais. Mas essa, ela diz, foi diferente. “Foi uma empreitada para fazer algo que eu queria. Então, foi especial”.

No balanço final, ficaram muito mais coisas boas do que ruins, sem dúvida. Mas, nesses dias, ela teve os seus momentos de medo e angústia. Já na chegada, no desembarque em Dheli, esqueceu o tripé no aeroporto. E haja paciência para conseguir recuperá-lo. Na hora de se deslocar pela cidade, arriscou um passeio de tuk-tuk (veículo tipicamente indiano), mas diz que teve medo de morrer. “O trânsito lá é caótico, muito pior do que São Paulo”.

Outra dificuldade foi encarar a estranheza da população indiana ao ver uma estrangeira nas ruas. “Logo na primeira vez em que saí do hotel, levei um susto porque vieram aqueles indianos querendo dinheiro de qualquer maneira. Eles não tocam em você, não fazem mal nenhum, mas me assustou”.

Mas nenhum desses desafios se comparou ao que ela teve de enfrentar no plano emocional. Por abrigar tantos budistas, incluindo o Dalai Lama, Dharamsala é um lugar com uma energia muito forte. “Uma pessoa tinha me recomendado fazer uns banhos especiais, com ervas, para conseguir enfrentar melhor essa carga emocional”, diz. E, já nos primeiros dias, ela percebeu que a dica deveria ser seguida.

“Na primeira semana, eu encontrei muitos documentários que focavam o lado sofrido das monjas tibetanas, falavam das torturas e das humilhações que elas sofriam depois da dominação chinesa no Tibete. Eu via aquilo e chorava muito. Passei duas semanas chorando todo dia. Foi aí que decidi fazer o meu documentário focado no lado mais positivo”, explica.

Isso não significa que a carga emocional diminuiu. “Durante toda a viagem, eu me entreguei às emoções que surgiram. Às vezes, eu nem conseguia dormir à noite. E foi muito bom porque eu passei a viagem toda em êxtase. Tinha momentos em que eu não conseguia falar nada. Aprendi muito. Foi a melhor experiência da minha vida”.

Até no pior momento, quando teve uma infecção alimentar e ficou cinco dias sem conseguir levantar da cama, Cláudia percebeu a força do lugar. “Eu ainda estava muito fraca e fui fazer umas imagens na porta de onde vive o Dalai Lama. E ele apareceu dentro de um carro, a caminho do aeroporto. Fiquei tão eufórica que até esqueci que estava doente. Dharamsala é um lugar meio mágico, parece uma outra realidade e tem uma energia muito boa”, diz. “O povo tibetano é muito acolhedor e trata todo mundo igual. Eles não fazem distinção entre você e o Dalai Lama. Isso faz o lugar ainda mais especial”.

A infecção, aliás, foi um dos momentos mais difíceis da viagem, simplesmente porque deixou Cláudia impossibilitada de trabalhar durante pelo menos cinco dias. “Eu não conseguia levantar da cama”, conta. A dica que ela dá para quem for enfrentar uma empreitada como essa é tomar muito cuidado com o que se come. “Eu sempre comia no hotel, que tinha sido uma indicação da Miss Rinchen (diretora do TNP). Mas tive que sair de lá uns dias por causa de uma conferência de cientistas que estava acontecendo em Dharamsala e acabei indo comer em outros lugares. Não deu certo”.

De qualquer forma, Cláudia não tem dúvidas de que a viagem valeu a pena e foi um grande aprendizado. “Durante a viagem inteira, eu senti que era o momento certo, a hora certa e o lugar certo”. “É um lugar tão gostoso que quero voltar para o resto da minha vida para uma recarga espiritual”.

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