A falta de dinheiro pode causar desequilíbrio em todas as áreas da vida

Um baque financeiro afeta mais do que as contas: vida emocional e familiar também pode sofrer
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Um baque financeiro afeta mais do que as contas: vida emocional e familiar também pode sofrer
Após trabalhar 37 anos na mesma empresa, o piloto comercial e engenheiro de voo Reinaldo Rene Sbrissa, de 75 anos, perdeu boa parte dos últimos 15 anos de seu salário. “Recolhi uma porcentagem todo mês para um instituto de aposentadoria complementar. Mas a empresa teve uma falência inesperada e levou com ela o instituto de aposentadoria. Minha renda caiu vertiginosamente”.

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A vida de conforto deixou de existir. Sbrissa e sua família tiveram que abrir mão de muita coisa para se adaptar à nova rotina. Ficaram para trás cinema, teatro, restaurantes e passeios. “Tudo custa muito para nós”, afirma. O aposentado teve o apoio da família, mas não escapou da depressão.

Satisfazer nossas necessidades básicas tem, além da função óbvia, um papel simbólico fundamental para a nossa auto-estima. Dependemos não apenas da sobrevivência física, mas da sobrevivência psíquica, cada vez mais ancorada em padrões elevados de consumo. Uma crise financeira pode atingir todas as áreas da vida, em especial a emocional. Apesar de não existirem sintomas específicos ao enfrentar esse tipo de problema, falta de apetite, insônia, dor de cabeça, mal-estar, angústia e isolamento social podem aparecer e até ter relação com o desenvolvimento de um quadro de depressão ou ansiedade.

“O dinheiro ainda é um tema tabu na maior parte das famílias, e frequentemente se torna fonte de conflitos enormes. Ao mesmo tempo em que é tão importante para todo mundo, paradoxalmente, ainda existe uma dificuldade cultural de falar abertamente sobre dinheiro que, para muitos, continua sendo simbolicamente associado a conteúdos negativos”, explica o psiquiatra Ercy José Soar Filho.

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“Tive uma queda muito importante na auto-estima, que me levou a uma depressão. Às vezes ela se aprofunda e me deixa prostrado, mesmo com antidepressivos”, diz o aposentado Sbrissa. “É um processo muito penoso, pois tudo que programamos para nossa velhice de repente desabou”, lamenta o aposentado, que diz que viu muitos de seus amigos, também, ex-funcionários, morrerem após a crise financeira.

Muitos dos problemas emocionais e psicológicos dessas fases mais difíceis são de ordem fenomenológica. “Ou seja, aquela pessoa que abandona o cotidiano, troca o dia pela noite, não dá andamento a nada que se propõe e fazer, elabora planos mirabolantes de retomada da vida produtiva e abandona o vínculo social com a realidade”, explica o psicólogo Wilson Montiel. O estresse também é um dos principais fatores desencadeantes de qualquer transtorno mental, por seu efeito neurotóxico. “Por outro lado, do ponto de vista emocional, qualquer situação que represente risco importante para a estabilidade do indivíduo, tanto física quanto psíquica, é fonte de ansiedade. Assim, as crises financeiras podem representar um importante fator desencadeante de transtornos psiquiátricos”, diz Soar.

Família
Diferentemente de Sbrissa, a crise financeira do professor de Informática e História Jackson Pereira da Silva, 30, abalou a estrutura familiar. “Minha esposa começou a comprar desenfreadamente, acreditando que era uma forma de me pressionar a tirar mais dinheiro da empresa, o que não era possível, pois, já não tinha recursos. Era uma pressão que ela queria me colocar e as brigas começaram naquele instante”, diz.

Silva que trabalhava com o sócio prestando serviços a uma ONG viu sua empresa de informática ir à falência gradualmente. “Em seis meses estávamos pagando o mínimo do cartão de crédito e as contas estavam sempre atrasadas. Abandonei a sociedade, e após quinze dias, estava separado da minha esposa e desempregado. Tive que vender minha casa para tentar saldar as dividas, fiquei apenas com contas, dividas, e sofrimento”.

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“A falta de dinheiro afeta tudo em lar. Um casal com crise financeira fica mais propenso a brigas e desentendimentos, hoje se pode afirmar que grande maioria dos divorciados é em alguma proporção reflexo de problemas financeiros”, define o educador financeiro Reinaldo Domingos.

Jackson teve problemas na família, mas também encontrou apoio. “Voltei para a casa da minha mãe porque não tinha pra onde ir, e até mesmo algumas pessoas da minha família que poderiam me ajudar, não se importaram”, conta. “No começo, fiquei um pouco depressivo, mas os problemas eram tantos, que mal tinha tempo para pensar em muita coisa. Também percebi que alguns amigos se afastaram aos poucos. Acabou o dinheiro, acabou os amigos”.

Em relação à saúde financeira, o Reinaldo Domingos faz um alerta. “A saúde financeira não é a mais importante das nossas saúdes (física, mental e espiritual). Mas certamente ajuda na qualidade das demais”.

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