É quase sempre a mesma coisa, e quase sempre funciona: por que a fórmula do mistério nas novelas agrada tanto?

Quem argumenta que novela é sempre a mesma coisa tem no recurso do "quem matou?" um elemento a mais para aliar aos repetitivos casamentos e gravidezes coletivos que despontam nos finais das tramas. Uma morte misteriosa no meio da história, com a revelação do assassino no finalzinho, é um recurso tão comum quanto paternidades secretas e gêmeos de personalidades opostas. Mas, em geral, o assassinato tem um impacto bem mais palpável sobre a audiência. Por que, em um produto em que segredos e reviravoltas são a matéria-prima como é o caso dos folhetins, este mistério tem efeito mais relevante que os demais?

Divulgação/TV Globo
O assassinato do personagem Saulo fez bem ao ibope de "Passione"
"Neste caso, do 'quem matou', o público participa de maneira intensamente ativa da trama, transformando a novela praticamente num happening , compondo as várias possibilidades que ela oferece para desvendar a identidade do assassino", diz o doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino Americana Mauro Alencar, autor de "A Hollywood Brasileira – Panorama da Telenovela no Brasil" (editora Senac-RJ). Segundo ele, esse chamariz para que o público se envolva ativamente na história é sempre eficaz, "desde que a trama seja atrativa, como é o caso de 'Passione' atualmente".

De novo, a ferramenta parece funcionar. A novela da Rede Globo ultrapassou a marca dos 40 pontos de audiência pela primeira vez, no meio do último feriado, quando foi ao ar o capítulo da anunciadíssima morte do personagem Saulo (Werner Schünemann). O acontecimento foi alavancado por outros programas e meios de comunicação da casa, o que também não atrapalhou. Mas desde que o assassinato abriu as portas para o mistério, a audiência tem se mantido em uma média sensivelmente maior.

A explicação do especialista Mauro Alencar sobre a importância de o telespectador se sentir como um participante na obra não é só teoria. Na prática, mais de dois milhões de pessoas palpitaram sobre o assassino de Saulo em apenas 24 horas em um jogo no site de "Passione". Longe das telas do computador e da TV, os palpites foram multiplicados. "Em casa a gente fez um bolãozinho. Cada um dá um palpite, e não vale repetir", diz a gerente Márcia Carneiro. "Aí os capítulos acabam virando competição, com todo mundo palpitando sobre quem está com as apostas mais ou menos cotadas de acordo com o desenrolar da história". Ela conta que esta não é a primeira vez que entra em um bolão. "Comecei quando ainda era solteira, durante a febre do "quem matou Odete Roitman". Misturamos amigo-secreto e bolão, foi uma farra". Desde então, ela organiza as apostas sempre que as novelas apelam para o assassino misterioso.

O envolvimento dos telespectadores, no entanto, pode não ficar só na brincadeira. Às vezes, a emoção de tentar descobrir o mistério pode contaminar o modo com que as pessoas acompanham casos reais. "Por contaminação do hábito de quem vê, mas muito também pela forma com que a mídia decide abordar as coisas, não é raro que as pessoas sigam histórias semelhantes no noticiário com um comportamento de telespectador de novela, sem análise ou reflexão, apenas a emoção de buscar um vilão para expiar e fazer justiça", diz o psicólogo Luiz Roberto Coelho.

Quem começou a matar?

Mauro Alencar conta que quem começou a usar o recurso nas novelas brasileiras foi Janete Clair, em Véu de Noiva (Globo, 1969/70). A ferramenta na verdade foi a saída que ela encontrou para contornar um problema: um dos protagonistas, Geraldo Del Rey, transferiu-se para a TV Tupi. A autora resolveu matar o personagem - Luciano - criando o primeiro "quem matou" de sucesso na história da telenovela brasileira. "Mas, certamente, o primeiro "quem matou" de mobilização nacional que integrou-se, inclusive, com a euforia da Copa de 78, foi "Quem matou Salomão Hayala (Dionísio Azevedo) em O Astro, da sempre mestra Janete Clair", explica.

Para ele, os casos mais emblemáticos da teledramaturgia nacional até hoje Salomão Hayala e Odete Roitman (Beatriz Segall) em "Vale Tudo". "E, de um modo geral, a novela A Próxima Vítima". No cenário internacional, dois casos também marcaram época: quem matou Laura Palmer, mistério central da célebre série "Twin Peaks", de David Lynch; e quem atirou em J.R. (que sobreviveu aos ferimentos, como os telespectadores descobriram após um intervalo de meses), na série "Dallas".

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