Sentir-se culpado é diferente de reconhecer a própria responsabilidade

A chef confeiteira Fernanda Blandino sofre muito com seus erros
Arquivo pessoal
A chef confeiteira Fernanda Blandino sofre muito com seus erros
Perfeccionista, a chef confeiteira Fernanda Blandino, 34 anos, detesta quando erra por incompetência de qualquer tipo. “Para mim é extremamente doloroso saber que não fui capaz de alguma coisa”. Mas se a imperfeição é consciente e serve para evitar um problema maior, a coisa muda de figura. “Uma mentirinha boba vale de vez em quando, pra se proteger ou proteger alguém, porque tem uma finalidade bacana. Claro que dá vergonha assumir que mentiu, mas é menos pior que assumir uma traição, por exemplo”, explica.

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Assumir é a palavra-chave. E tem que ser de coração. “Só não vale quando você não acredita que errou e assume só pro clima ficar leve - e depois ficar ‘ruminando’ o assunto”.

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Mesmo sem conseguir abrir a lista de todos os erros, Fernanda está mais do que certa. Errar é humano, e quanto mais flexíveis formos ao lidar com o erro, melhor o saldo para todos. Esta é a opinião de Kathryn Schulz, autora de "Por que Erramos?" (Ed. Larousse), recém-publicado no Brasil, que defende que esconder erros é nefasto e pode até piorar as coisas.

Desde criança
Esconder ou assumir os erros é algo que se aprende em casa. “A questão é educacional. Desde muito pequenas as crianças são educadas para se sentirem muito culpadas, em vez de se sentirem responsáveis”, diz Vivien Bonafer Ponzoni, psicóloga e terapeuta de família e casal. “Diante da culpa, a pessoa tenta fugir de todas as formas”, afirma a psicóloga. A questão é cultural também: é importante ver o erro como parte da natureza humana. “Como seres humanos, contextualizar o erro facilita o perdão”, diz Vivien.

Outra reação comum, e não recomendada pelos especialistas, é passar a responsabilidade adiante, culpando outra pessoa ou imprevistos. É a árvore que cobriu a placa da saída que deveria ter sido pega na estrada, ou o parceiro que esqueceu de devolver o vídeo na locadora.

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Flexibilidade
A chave é ser flexível, para Denise Pará Diniz, professora doutora na Unifesp, coordenadora do setor de gerenciamento do stress. “Erramos ou acertamos em função de uma escolha. Depois de passar pelo processo de escolha, a pessoa está convicta de que era o melhor a fazer”, diz. Aí, é difícil reconhecer que não foi uma boa opção e rever o processo. “A mudança de comportamento é muito difícil.”

Ela dá o exemplo de quem comete uma infração no trânsito e leva uma multa. “As pessoas culpam o outro motorista, o radar, a indústria da multa. Bebeu e foi pego na blitz? Você pode morrer ou matar. Não adianta ficar brigando, é melhor repensar sua atitude”, diz. “Quem não admite o erro acha que os outros não estão percebendo como ela tentou acertar. Em todo relacionamento, existe a parte do outro e a sua. Você consegue mudar a sua.”

Atrelada à dificuldade de assumir responsabilidades, está a de respeitar limites, sejam sociais ou afetivos. “O indivíduo muitas vezes erra, sabe que errou, mas não quer repensar, recomeçar caminhos, pedir desculpas.”

Há também quem reaja ao erro do outro com intensidade. A reação varia: vai desde o “não falei?” até o alívio por não ter sido você quem se enganou. “O ser humano não gosta de se sentir diferente. Ver o outro errando consola”, afirma Vivien. Ela aposta na crença de que se pode superar os erros como uma opção à negação deles. “É ter esperança de que todo mundo pode errar, mas consertar seus erros da melhor forma possível.”

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