"O elogio significa que você é percebido e reconhecido, isso é muito íntimo", diz psicóloga

Ana Carolina fica sem graça cada vez que recebe elogios
Joana Rocha
Ana Carolina fica sem graça cada vez que recebe elogios
A secretária Ana Carolina Ostinowsky, de 24 anos, não consegue nem disfarçar quando recebe um elogio. Naturalmente tímida, fica ainda mais quietinha e enrubesce, enquanto procura as palavras para responder. “Eu me sinto envergonhada e muito sem graça. Nunca sei como reagir”, conta. Mas não sabe dizer exatamente por que isso acontece. “Pode ter alguma influência da minha autoestima, que é muito boa e fortalecida em alguns aspectos, mas em outros ainda falta trabalhar muito”.

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A reação de Ana é muito comum. Não se sentir à vontade com elogios pode ter vários motivos, mas se é um comportamento muito recorrente, merece atenção, porque pode custar oportunidades de estreitar laços. “É uma coisa mais comum do que se imagina. São poucas as pessoas que conseguem aceitar, ou mesmo fazer elogios”, diz a psicóloga Blenda de Oliveira.

Para a psicoterapeuta Eliana Bertolucci, a falta de jeito em lidar com elogio pode mostrar uma distância entre como a pessoa se vê e como é percebida pelos outros. “Isso se chama dissonância cognitiva: você pensa uma coisa, e quando a realidade não bate com o que você pensa, você se sente mal”, explica Eliana. Um bom exercício é pensar de forma o mais realista possível nas suas qualidades e defeitos.

Qualidades em evidência
Elogios chamam a atenção para um ponto específico do outro. Há pessoas mais tímidas, que não gostam de ser percebidas dessa forma. “Algumas se sentem constrangidas, outras não se sentem à altura do elogio. Algumas se sentem responsabilizadas, como se fosse uma cobrança. E tem quem não goste de holofote”, diz Blenda.

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Frases como “são seus olhos”, “imagina, a comida não ficou muito boa” ou “ah, é que preto emagrece mesmo” às vezes são um escudo para se proteger da proximidade que a interação traz. “Aceitar elogio é abrir a guarda para o olhar do outro, ser humano e estar no mesmo nível dele”, diz Eliana Bertolucci. “O elogio é um momento carregado de emoção, que funciona como a ‘cola’ que une as pessoas”, diz Marisa de Abreu, psicóloga clínica. “O elogio também significa que você é percebido e reconhecido, isso é muito íntimo.”

O elogio às vezes vem vinculado com a sensação de responsabilidade. Se por um lado é um alívio saber que seu chefe gostou do relatório, pode pintar o medo de expectativas altas. “Ela prefere não responder sobre aquilo que foi dito; ser grande evoca um grande medo e tem a ver com amadurecer e assumir responsabilidades. É como uma criança que fica com vergonha quando é elogiada e fica perdida”, diz Bertolucci.

Falsa modéstia
Mas nem sempre a resposta encabulada quer dizer que a pessoa não aceitou o elogio. “Alguns precisam de confirmação. Ao se desmerecer, estão solicitando, de forma disfarçada e até inconsciente, uma confirmação”, diz Marisa de Abreu. Pode ser por insegurança, baixa autoestima ou simplesmente porque ouvir elogios é gostoso e confirma uma impressão positiva sobre si. “A pessoa quer gostar de si mesma e precisa da ajuda de outras pessoas para isso – o elogio cumpre bem esta função”.

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Há também os narcisistas, que negam o elogio por falsa modéstia. “Tem gente que se sente muito orgulhoso de si mesmo, na fantasia. Você imagina que é uma grande cantora, e se alguém elogia sua voz, isso expõe sua fantasia. Quando ela é posta à prova, pode ruir”, diz Bertolucci. “Nossa cultura ensina que é “feio ser convencido”. Aceitar um elogio significa que você admite que está bem, que é inteligente ou que fez algo bem feito a ponto de ser percebido por outra pessoa. Algumas pessoas só aceitam estarem no centro das atenções – que é o que acontece no momento do elogio – se usarem este momento para auto depreciação”, diz Marisa de Abreu..

Uma raiz comum a vários desses motivos é a insegurança. A reação mais radical é enxergar falsidade na atitude do outro. “Se a pessoa teve um histórico de críticas na vida, isso vai criando uma desconfiança muito grande do elogio”, diz Blenda. Para melhorar essa relação e aproveitar os benefícios dos elogios, Bertolucci acredita que o ideal é ser realista com suas qualidades e defeitos. “É a melhor forma de lidar com o elogio e de aprender a aceitar o que vem do outro, de graça, sem nenhum outro interesse. É uma doação do outro para você, é gratuito. O elogio seria um momento de sinceridade, não de desconfiança. É bom trabalhar a ideia de confiança no mundo e nos próprios critérios de percepção.”

Para Blenda, o mais importante é aprender a celebrar as conquistas cotidianas, ainda que sejam pequenas. “É uma forma de autoelogio, um abraço em você mesmo. Isso faz com que você aprenda a se valorizar, crescer com isso, e a cada conquista, começar a desejar outra. Nossas qualidades são nosso patrimônio, e o reconhecimento delas é onde reside nossa força”.

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