Pets "viram gente" para dono conseguir expressar sentimentos

Donos de animais dão opiniões através de seus bichinhos de estimação como treino para dizer o que pensam

Danielle Nordi, iG São Paulo |

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Os donos de Ziggy sabem encarar tudo como uma grande brincadeira
Muitas vezes o nome é de gente, mas as quatro patas denunciam que nem só de seres humanos se fazem as redes sociais. Não faltam perfis de bichinhos, criados e atualizados por seus donos, mas com depoimentos e publicações em primeira pessoa. Mais ou menos como nas "conversas" que têm em casa. Há até livro foi lançado como se tivesse sido escrito por uma cachorra. Dar voz aos bichinhos de estimação pode não passar de uma grande diversão, mas muitas vezes é a maneira encontrada pelo dono de se comunicar com o mundo sem deixar explícito que a opinião dada é a sua.

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A psicóloga Andréa Jotta, membro do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-CP) explica que, quando uma pessoa escreve como se fosse seu gato, cachorro ou qualquer outro animal, está praticando uma espécie de “treino” para expressar suas próprias opiniões e sentimentos. “Muitas pessoas usam seus pets para mostrar ao mundo coisas que nem sempre têm coragem de falar com sua própria voz. Isso não é regra, mas observamos que essa tendência está crescendo. É uma forma de evitar lidar com as consequências naquele momento”, analisa.

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Penetra é um dos três "editores" de um site
Os donos dos bichinhos se divertem com a prática, mas é preciso prestar atenção se é apenas uma brincadeira ou um indício de falta de diálogo. “Quando uma pessoa coloca na internet, ou em qualquer outro lugar, que o cachorro está falando ‘como minha mamãe é bonita’, por exemplo, é um sinal de que ela gostaria de ouvir este elogio e acabou projetando no cão essa necessidade”, explica a psicóloga clínica Rachel Zausner Skarbnik.

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Rachel compara o comportamento a um hábito similar com bebês. “Não são raras as pessoas que fazem a mesma coisa com crianças que ainda não aprenderam a falar”, afirma. A psicóloga diz que, mesmo que pareça estranho para alguns, falar como se fosse seu pet não traz necessariamente prejuízo psicológico a ninguém.

Para superar a perda
A paisagista Luciana Fonseca, 34, queria fazer uma homenagem à cachorrinha Carol, que morreu há quase oito anos, e começou a escrever um livro sobre os momentos que passaram juntas. Por ter encontrado muita dificuldade em superar a perda da companheira, achou que seu texto tinha ficado muito melancólico. Luciana resolveu então escrever como se fosse Carol. “Eu sempre fiz esse exercício de tentar descobrir o que ela estava pensando. Com a convivência, a gente acaba interpretando as ações de nossos animais.”

O livro “Carol por Carol” (Ed. SSUA Editora) conta a rotina da cadelinha e sua dona. “Quando perdi a Carol, todos achavam um absurdo a minha tristeza. Falavam que era ‘apenas’ um animal. Mas para mim, ela era minha grande companheira”. De acordo com Luciana, escrever foi uma forma de tentar superar o trauma. Além de ser uma autora publicada, Carol também tem site e twitter, que a paisagista alimenta quase diariamente.

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A psicóloga Rachel Zausner Skarbnik esclarece que, às vezes, é muito difícil mesmo superar a perda de um bicho de estimação. Ela relata que toda perda envolve um período de luto, que deve ser respeitado. “Os sentimentos que os donos nutrem por seus animais são os mesmos que têm em relação a outras pessoas. Isso é perfeitamente aceitável. Só configura um problema quando a pessoa não consegue se readaptar e voltar à sua rotina normal.”

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Lili tem blog, perfil em diversas redes sociais e mais de cinco mil seguidores
Invasão nas redes sociais
A blogueira Renata Góes, 31, criou um site para sua gata há três anos. Começou como um blog que falava sobre a rotina da Lili, mas cresceu e hoje trata de qualquer assunto relevante aos animais. “Ela tem blog, facebook, twitter e orkut. Todos juntos têm quase cinco mil seguidores e 16 mil pageviews por mês. Atualmente, meu objetivo é lutar pelo direito dos animais. Estou apaixonada por este mundo, tanto que vou prestar vestibular para me tornar uma veterinária.”

Já a publicitária Mariana Gogu, 31, confessa que não atualiza mais os perfis de seus três gatos com tanta frequência. “Começou a me dar muito trabalho e fui deixando de lado”. Além disso, ela conta que ficou com receio de que escrever como se fossem os gatos que estivessem falando pudesse “ficar meio bobo, sem propósito”. Hoje quem fala é a própria Mariana. “Mas Penetra, Bigode e Barbarela continuam como editores do site ”, diverte-se a publicitária.

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O fofinho Ziggy só tem seres humanos como amigos. O cachorro tem perfil no Facebook e até já fez uma surpresa para a dona, a bióloga Amanda Mirasierras, 27. “No meu aniversário, o Ziggy me deu os parabéns. Claro que foi o meu marido, mas adorei a ideia.”

Amanda diz que gosta de colocar fotos do cachorro para que os amigos possam acompanhar seu crescimento. Como o marido viaja bastante a trabalho, ela manda recadinhos através do perfil de Ziggy. “Encaramos tudo isso como uma brincadeira”, enfatiza.

A psicóloga Andréa Jotta afirma que se o perfil nas redes sociais não é usado para prejudicar ou ofender ninguém, não traz problemas. “Não precisamos encarar tudo de forma tão séria. Os pets são membros a mais dentro de uma família. Contanto que você não espere que seu bicho de estimação seja gente, está tudo bem!”.

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