Festas na primeira comunidade a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora atraem a elite jovem do Rio de Janeiro

Desde dezembro de 2008 a favela Santa Marta, localizada no morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, experimenta uma realidade diferente. Com a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), traficantes foram expulsos e levaram com eles a violência tão comum na região em anos anteriores. A fuga abriu caminho para os “moradores do asfalto”, que passaram a se aventurar com mais tranqüilidade pelas estreitas ruas da comunidade.

As incursões da classe média, no entanto, eram esporádicas até que, em setembro de 2010, o bloco de carnaval Spanta Neném, que mantém uma escola de música na comunidade, mudou a história. “Surgiu a ideia de criar o Morro de Alegria, uma festa que levasse os frequentadores do bloco na zona sul a subir a favela e conhecer o Santa Marta”, conta Francisco Nogueira, coordenador de produção do Spanta. O evento agora atinge seu auge.

Cariocas chegam ao evento no início da tarde, todas usando sapatilha
George Magaraia/ iG Rio
Cariocas chegam ao evento no início da tarde, todas usando sapatilha


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“No início meu pai ficou meio apreensivo até que ele veio comprar um convite comigo no morro e viu queera tranquilo”, conta a estudante de arquitetura Larissa Marques, de 23 anos. “Não tenho medo algum”, diz Suélen Lima, 24 anos, arquiteta, freqüentadora assídua do morro. A nutricionista Flávia Frazão, de 29 anos, fala que “o clima é sempre tranqüilo” e acha bom que as festas não acabem tão tarde – os eventos começam por volta das 16h e se estendem até no máximo meia-noite, por imposição do comando da UPP.

Salto alto não combina
A programação da quadra agrada principalmente os cariocas, mas atrai também jovens turistas como as paulistas Érika Arakaki e Charlene Liberato, ambas com 28 anos. “Uma amiga nos indicou. Ela deu duas opções: uma festa na Lapa ou essa. Não queríamos ir para a Lapa como sempre e, inclusive, achamos aqui mais seguro do que lá”, afirma Érika. A única queixa da dupla foi ter errado no dress code. “Perguntamos como deveríamos nos vestir e nos disseram que era uma festa só de patricinha, então a gente poderia vir arrumada. Só que não sabíamos da ladeira e viemos de salto”, diverte-se Charlene.

“Todas as sextas, sábados e domingos já estão reservados até o carnaval”, comemora Aroldo Fulli, presidente da escola de samba da comunidade, a Mocidade Unida do Santa Marta, responsável pela quadra onde as festas acontecem. O evento do Spanta Neném é mensal e o sucesso é tanto que outros empresários da noite carioca se interessaram pelo local. É o caso de André Barros, Bruno Malta e Isaac Mann, figuras experientes no mercado noturno carioca. “Temos um formato diferente do Spanta”, conta Isaac, que comanda o Sambinha do Santa Marta. “Eles fazem uma roda dentro da quadra e nós usamos o palco, como na nossa última edição, que foi um arraiá julino”, esclarece.

Ingressos mais baratos para os moradores
O Spanta Neném cobra R$ 30 pelo ingresso, mas dedica 20% deles para a comunidade, que pode comprar os convites a R$ 10. No evento Sambinha não há descontos, mas a organização aposta na boa vizinhança com o comércio local: eles disponibilizam pulseirinhas que permitem aos frequentadores entrar e sair da festa podendo consumir nos bares fora da quadra. “Temos um grande apoio”, conta Isaac.

Rosete Nogueira, moradora do Santa Marta, comemora o movimento que lhe rendeu um emprego. Há dois meses ela toma conta dos dois banheiros construídos em frente à quadra. “Antes tinha os banheiros, mas era uma bagunça. Tive a ideia de cobrarmos R$ 2 para ajudar no custo da limpeza”, conta Rosete, que identifica quem pagou o valor com uma pulseirinha. Ela permanece até o fim do evento garantindo “banheiro limpo e com papel higiênico”.

Rosete Nogueira, moradora do Santa Marta, mostra as pulseiras que controlam o uso dos banheiros
George Magaraia/ iG Rio
Rosete Nogueira, moradora do Santa Marta, mostra as pulseiras que controlam o uso dos banheiros

Antônia Maria, dona do estabelecimento, contabiliza as vantagens. “Meu bar sempre foi movimentado, mas aumentou muito. Pena que o Spanta, em especial, é só uma vez por mês. Há cinco meses colocaram até esse caixa 24 horas”, diz ela apontando para a máquina, novidade no morro até cinco meses atrás.

Favela unida ao “pessoal do asfalto”
Presidente da Associação Comercial do Santa Marta há um ano e dona de um bar, Andreia Miranda é só elogios à série de eventos que vem ocorrendo no local. “Houve uma mudança total. O Spanta veio para cá abrir as portas. Se não fosse por eles como iríamos atrair este tipo de público?”, afirma ela.

Andreia chegou a ficar apreensiva no início, preocupada com a invasão. “Mas foi muito bom. Já estávamos pensando em fechar vários estabelecimentos. Hoje vendo 25 caixas de cerveja numa noite dessas”, explica Andreia, que agora também comercializa em média 6 garrafas de vodca e uísques de marcas importadas como Absolut e Red Label.

As amigas Maria Júlia Rocha, Aline Pievrangelini, Paula O´Neill e Flávia Frasão afirmam não ter medo de ir à festa da favela
George Magaraia/ iG Rio
As amigas Maria Júlia Rocha, Aline Pievrangelini, Paula O´Neill e Flávia Frasão afirmam não ter medo de ir à festa da favela

A implementação de máquinas de cartão de crédito e débito em quase todos os estabelecimentos aumentou ainda mais os lucros. “É um público que não anda com dinheiro e bebe muito, mas não dá dor de cabeça. O melhor de tudo é que isso vai acabando com a diferença entre o favelado e o pessoal do asfalto”, diz Andreia.

A gerente da farmácia da rua, a Drogaria Santa Marta, afirma gostar da chegada do novo público. “Eles entram para comprar Engov, mas já vendi até desodorante para os que vêm direto do trabalho”, conta Elenice Pinheiro, de 42 anos. Nos dias de festa ela mantém o estabelecimento aberto até 23h30.

Câmeras garantem a segurança
Os responsáveis por ambas as festas garantem que nunca receberam queixas de episódios de violência nos eventos. Gustavo Rustichelli, de 30 anos, consultor de suprimentos da Vale, faz parte dos fãs da programação no Santa Marta. “É muito bacana e dá muita gente bonita”, conta ele, que na ocasião estava acompanhado de nove amigos. Entre eles o advogado Flávio Ianuzzi, de 32 anos. “Reparei que os bares estão mais bacanas do começo do ano para cá. Tem até barraquinha de caipifruta”, afirma ele, que diz nunca ter subido o morro antes das festas. “Agora que está pacificado não tem por que deixar de vir”.

Casais namoram encostados em uma viatura da Unidade de Polícia Pacificadora da PM do Rio
George Magaraia/ iG Rio
Casais namoram encostados em uma viatura da Unidade de Polícia Pacificadora da PM do Rio

Um dos músicos da bateria do Spanta, Carlos Guedes, de 27 anos, disse que nunca recebeu nenhum “olhar torto” na comunidade. “Não tem isso de ‘olha lá o playboy’. Aqui me sinto em casa. Não tenho receio de tiro porque nunca vi isso aqui”, diz ele.

Ricardo Oliveira e Jorge Vilas Boas, seguranças das festas do Spanta, fazem coro. “O circuito de câmeras é mais para ajudar se houver confusão que acabe na delegacia, mas isso nunca aconteceu”, diz Ricardo, diante das telas que exibem imagens captadas em cinco pontos diferentes da quadra. “Nunca tive nem um caso de furto e o pessoal da UPP dá suporte na parte externa”, afirma Jorge, que conta com 40 pessoas no esquema de segurança.

“Minha mãe me perguntou se eu não tinha outro programa para fazer sem ser no morro”, conta a psicóloga Paula O´Neill, de 32 anos. “Expliquei para ela que aqui não tem nada demais, está pacificado e a festa bombando”.

O morro está dominado e o sucesso do novo point carioca parece irreversível.

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