Renato Kaufmann divide os desafios da paternidade na Internet e, agora, nas páginas do livro “Diário de um Grávido”

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"Diário de um grávido", Mescla Editorial, R$ 39,90, 112 pág.
Quando sua namorada contou que estava grávida, a primeira coisa que Renato Kaufmann fez foi rir de desespero. Passados três dias do choque inicial, o jornalista percebeu que o desespero continuava, então ele resolveu fazer o blog Diário de um Grávido para desabafar. Nele, começou a escrever, de maneira engraçada e leve, os relatos da chegada de Lucia, sua filha, expondo todas as dúvidas de pai de primeira viagem. Depois de um ano de vida, os textos do blog viraram um livro, o recém-lançado “Diário de um Grávido” (Editora Mescla).

iG: Como surgiu a ideia de fazer o blog?
Renato Kaufmann: Foram duas histórias, quando a minha então namorada veio com a notícia de que estava grávida foi uma surpresa e, como todo bom representante do sexo masculino, entrei em parafuso. Então, no terceiro dia depois da notícia, cheguei à conclusão de que precisava ter uma vazão, daí fiz o blog. Foi terapêutico. Afinal, a paternidade foi a coisa mais louca que já me aconteceu na vida. No ano passado, resolvi transformar o blog num livro. Percebi que falta uma voz masculina no mercado de gravidez, existem muitos títulos para a mãe, e poucos para o pai, esse cidadão de segunda classe durante a gravidez.

iG: Por que você acha que existe essa falta?
Renato Kaufmann: Tem a questão da posse, o filho está dentro da mulher, ela já sente que é dela. O ilustrador do livro tem um desenho que é bastante interessante e consegue expressar o que penso sobre a paternidade: a mãe é com fio, o pai é wireless. O homem precisa tomar posse da gravidez e da criança.

iG: Como as pessoas receberam o seu blog?
Renato Kaufmann: Não divulguei muito, era uma coisa mais particular. Então algumas pessoas começaram a acessar, elas foram mostrando para outras e a coisa foi crescendo. Alguns leitores comentavam que passavam pelas mesmas dúvidas. No começo do blog, não conhecia muito outros sites de pais, agora conheço, eles são quase tios virtuais da Lucia. Este tipo de contato é importante, é bom saber que você não está sozinho nessa. Às vezes não é nem para resolver alguma questão, é mais para saber que outros passam pela mesma coisa, isso tira um pouco da solidão masculina durante a gravidez.

iG: Acha que a solidão é um grande problema para os pais?
Renato Kaufmann: Acho. A mulher recebe atenção em dose dupla, para ela e para o bebê. O homem acaba ficando meio de lado deste tipo de atenção.

iG: No livro, você fala da dificuldade em criar uma menina, qual a principal dificuldade?
Renato Kaufmann: A gente imagina melhor como é criar um menino, mas uma menina é mais fora da realidade. Foi um choque, pensava: “puxa, como vou educar uma menina, sou tão grosso?”. Mas até agora, está tudo indo bem, exceto pelos palavrões. Outro dia fechei o dedo na porta do carro, e ela aprendeu todos os palavrões possíveis, inclusive uns que inventei na hora. Quando ela começa a repetir essas palavras, dá muita vergonha e me ajuda a ver que eu preciso parar.

iG: Sua filha tem dois anos agora, o que mudou na sua vida?
Renato Kaufmann: Vou lançar um livro ano que vem, com o título “Como nascem os pais”, sobre este assunto. O que mudou? Tudo. Na verdade, nunca tinha pensado na paternidade, era uma ideia completamente alienígena pra mim. E hoje a coisa que mais gosto na minha vida é ser o pai da Lucia. Achei a experiência tão boa que, se soubesse que era assim, não tinha evitado com tanto afinco. Uma coisa que muda bastante é que você fica hipersensível a tudo. Fica muito mais suscetível a filmes, por exemplo. Antes eu via o filme e me identificava com o ator principal, agora fico pensando no pai do personagem.

iG: O que a Ana, a sua mulher, acha sobre você contar histórias dela também no blog?
Renato Kaufmann:
Em muitos momentos ela não gostou muito, em especial quando o assunto era ela. A gente tem visões divergentes sobre o livro. Para mim, 95 % da história é de não-ficção, já a Ana acha que pelo menos 50% é ficção. Ela trabalhou muito durante a gravidez, não sei se ela escreveu algo. Acho que ela está guardando para me desmentir no futuro.

Outra reação boa é a da Maria, minha enteada (na época do livro, ela tinha sete anos, hoje tem nove). Coloquei no blog há uns dias um texto com as reações dela ao livro, ela leu e chegou cheia de comentários para mim. É bom para ela e para Lúcia terem esse registro quando forem maiores.

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"Diário de um grávido", Mescla Editorial, R$ 39,90, 112 pág.
IG: Como pai de primeira viagem, qual foi a estratégia para não levar a sério todos os conselhos das pessoas?
Renato Kaufmann: O “achismo” vai de coisas completamente irrelevantes, como a cor da meia que a criança usa para sair da maternidade, até coisas muito sérias. Antigamente, por exemplo, se dava chá para um bebê entre uma mamadeira e outra, algo que não se faz mais hoje em dia. Em geral, as pessoas são mais humildes do que eu fui, meu pediatra era meu guia. São tantas questões que não tem como pesquisar uma por uma, por isso, escolhi um bom pediatra, confio nele, faço o que ele me indicar.

iG: No livro você bate muito na tecla do “pânico”, como foi na época no nascimento da Lucia e como é agora?
Renato Kaufmann:
Entrar em pânico é uma coisa legitimamente masculina. E não tem muito como disfarçar, não tem como fingir que está tudo bem. Não tem como fazer pose de que controla tudo, porque todas essas ações ficam muito insinceras dadas às condições. A cirurgia de cerclagem (uma costura ao redor do colo uterino, que Ana teve que fazer na 22ª semana de gravidez) foi um dos momentos mais apavorantes de toda a gravidez. A gente demora a se acostumar com a ideia de ser pai, mas, naquela hora, me aterrorizava ainda mais a ideia de não ser pai.

Hoje quando a Lucia fica doente ainda entro pânico, tenho muita imaginação, o que atrapalha. É um medo que nunca acaba, ele vai se transformando.

iG: E como vai a relação de seus gatos (Mao Tse- Tung e Lacan) com a Lucia? Você temia que não desse certo, né?
Renato Kaufmann:
No começo, quando ela era bebê ainda de colo, os gatos ficavam com ciúmes. Depois que ela começou a engatinhar, eles começaram a fugir dela. Quando ela começou a correr e a gritar, eles se escondiam, foi um momento tenso. Na semana passada, pela primeira vez, o Mao Tsé deixou a Lucia fazer carinho nele.

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