A linha que separa um elogio de uma ofensa é tênue. Cruzá-la pode ser motivo de constrangimento e até delito

Nem todo avanço é bem-vindo
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Nem todo avanço é bem-vindo
Às vezes, os homens exageram no que consideram recursos de sedução. O que eles consideram uma arma para se aproximar da pretendente acaba disparando no pé do galanteador e, mais do que levar um fora, ele deverá lidar com as consequências de uma ofensa - ou até de um delito.

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Não existe uma cartilha completa que dite as melhores maneiras de abordar alguém, embora haja o consenso de que algumas cantadas são, infelizmente, desprezíveis. A linha que separa um elogio de uma ofensa pode ser muito tênue e cruzá-la pode ter implicações mais sérias, particularmente se a investida ocorrer no ambiente de trabalho, tendo como suporte a condição hierárquica ou uma posição privilegiada do assediador. Neste caso, trata-se de assédio sexual, e o delito está previsto no Código Penal.

Mas entre o elogio bem-vindo e o crime existe uma gama complexa que passa muitas vezes pelo desrespeito à mulher e pela simples grosseria. “Não configura o crime de assédio uma proposta sexual que não envolva a relação de poder entre as pessoas”, explica a advogada Juliana Perrella. “Poderá ser considerado apenas uma cantada de mau gosto”. Mas o mau gosto pode ofender e humilhar.

É o que torna o caso de Marcelo Mezzomo especial: recentemente, ele foi o primeiro juiz demitido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul por ter feito cantadas consideradas impróprias para a funcionária de uma sorveteria. A advogada explica que, tendo uma autoridade constrangido alguém “valendo-se” de sua posição social privilegiada, a situação poderia ser configurada como incontinência de conduta, caracterizada pela insistência em razão da falta de aceitação. “Isso, a depender do caso, pode gerar uma situação desagradável ante um comportamento inoportuno”, diz Juliana.

Elogio é bom, agressividade incomoda
O ex-juiz chegou a afirmar, em sua defesa, que seus avanços seriam considerados “normais” se não fosse sua posição. “Talvez o fato aqui não esteja especificamente ligado ao que é normal, mas, sim, ao que representa aos olhos masculinos”, ressalta a psicóloga e mestre em sexualidade humana, Maria Lúcia Beraldo. “Nesses casos, a cantada não é um recurso de sedução e, sim, uma forma agressiva de demonstrar sua atração sexual.

Sexo e agressividade estão relacionados no mundo animal, e somos animais; contudo, o que fará a diferença será a capacidade do indivíduo conter seus instintos e demonstrar seu interesse da forma que convém, e não da que tem vontade – isso se chama civilização”. Ao se portar como um animal, o homem trata a mulher como outro. “Aqueles avanços que ofendem a integridade moral da mulher, que façam ela se sentir humilhada como pessoa e como cidadã, são inaceitáveis”, pontua Maria Lúcia.

Se toda a aproximação entre um homem e uma mulher tem uma sombra da atração sexual, o problema não está no sexo e nem na atração sexual, mas, na forma como as pessoas se portam diante desse desejo. “O 'outro' é alguém que desejo, mas, antes de tudo, é 'alguém'”, ressalta ela. Pode parecer algo subjetivo demais para ser levado em consideração em uma festa, por exemplo, mas é algo sempre avaliado na hora do cortejo – caso contrário, termos considerados grotescos fariam parte de nosso dia-a-dia.

Limites
“A primeira coisa que um homem precisa entender antes de dar uma cantada em uma mulher é que ele não deve insistir caso leve um fora”, diz a comunicadora Patrícia Weidner sobre os avanços que recebe . “É a cara de tarado do estranho que ofende”. A economista Ana Carolina Hirsh concorda: “As piores cantadas são as que sempre chegam relacionadas a sexo, como 'nossa, você é gostosa', 'mas que delícia', ou coisas deste tipo”.

Mesmo que comentários deste tipo possam ofender, muitas vezes a ideia não é agredir a mulher. A psicóloga Maria Lucia afirma que a intenção pode ser uma autoafirmação do homem enquanto “macho da espécie”, a partir da exposição do desejo sexual. Como se ele estivesse mostrando que tem capacidade de possuir a mulher à força, se assim o desejar - mesmo que não o faça. “Ele pode tanto estar agindo como macho quanto como um sedutor; vai depender da linguagem do seu meio. É importante lembrar que há pouco tempo as garotas dos bailes funks eram definidas como 'cachorras preparadas' e, naquele contexto, a linguagem tem um sentido, mas choca quem está de fora”.

Mesmo que a linguagem corporal ou a roupa possa ser entendida como sinal verde pelo conquistador, avanços exagerados são condenados. “Elas gostam de se sentir desejadas, algumas até baseiam sua autoestima neste atributo, mas não esperam que os homens cheguem a um ponto mais grosseiro. Assim, a dificuldade em administrar a distância está no homem, que interpreta a constituição física da mulher como um sinal de possibilidade sexual”, ressalta Maria Lucia. Quando o homem sente que se tornou refém do desejo, que a mulher tem poder sobre a sua libido, pode, eventualmente, tornar-se mais agressivo e ofender.

É dos espirituosos que elas gostam mais
“As melhores cantadas sempre são seguidas de uma boa risada. Às vezes, você não chega a terminar a noite com o cara, mas rola um papinho, uma amizade”, diz Ana Caroline. “Eu achei uma cantada muito original quando um moço veio me mostrando um amigo dele, chegou e apontou, dizendo 'Você está vendo aquele cara ali? Então, ele quer saber se você quer ficar comigo'”.

De acordo com a psicóloga Maria Lúcia, as mulheres gostam de elogios. Mas percebem quando isso faz parte de um roteiro que o pretendente diz para todas. “Isso é mostrado em pesquisas que apontam que as mulheres preferem homens inteligentes, cultos e espirituosos, isto é, que as façam rir. Com certeza, esta é a forma de sedução que funciona mais”.

Elogios na contramão

Não precisa ser necessariamente paquera: certos elogios podem ofender, independentemente da conotação sexual: “Eu detesto quando falam que agora eu sou simples”, comenta a cantora Amanda Barros, que afirma ter escutado esta frase diversas vezes. “Para mim, parece que a pessoa está dizendo que eu me descuidei a beça, sabe? Sempre vem acompanhado de algum comentário sobre roupa, cabelo, maquiagem...”. Da mesma forma, Patrícia se irrita quando falam que ela “até que está bem para a idade que tem”.

Nestes casos, o que era para causar uma reação positiva acaba se tornando uma situação constrangedora - com o impacto semelhante ao de uma cantada grotesca. Para não deslizar na conversa, vale recorrer à lista que Jonathan Swift, autor de “Viagens de Gulliver” (mas também de “A Conversa Polida”), elaborou ainda no século 18 sobre a arte de bem conversar, em que o pedantismo e a falta de calma na apresentação dos argumentos figuram como pecados mortais das boas maneiras.

“A sedução depende de uma abertura, então, a questão não é a cantada, em si, mas a percepção do contexto”. A dica pode se estender a qualquer tipo de interação, já que a liberdade, de uma forma geral, termina onde a liberdade do outro é respeitada, e a sedução não se limita apenas a conquistas entre sexos opostos, mas, entre pessoas que desejam de alguma maneira conquistar as demais.

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