Há diversas profecias e teses a respeito de 2012, mas também existe um consenso: o mundo não vai acabar

Previsões sobre o fim do mundo são reflexo da angústia humana diante da morte
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Previsões sobre o fim do mundo são reflexo da angústia humana diante da morte
No dia 21 de dezembro de 2012, o operador de telemarketing Felipe Rodrigues Mota de Souza, 28 anos, já sabe onde vai estar: pretende ficar no ar. “Vou ficar o maior tempo possível voando, no céu, porque acho mais seguro. Quero pegar um avião e voar 12 horas, depois mais 12 horas, não importa para onde”, afirma.

Interessado nas teorias que envolvem o ano de 2012 e consumidor voraz de documentários sobre o tema, ele conta que vai ter à mão um kit de sobrevivência para pelo menos 72 horas. “Existem várias hipóteses, uma delas está baseada na precessão do eixo da Terra -- mudança do eixo de rotação do planeta -- que vai ocorrer em 2012 e que acarretaria um tsunami de gigantescas proporções”, diz.

Rosana Batarelli, pesquisadora de ciências paralelas no Projeto Portal, concentra sua explicação sobre 2012 no calendário maia. “É um dos aspectos do conhecimento astronômico deles. Em dezembro do ano que vem vai haver um alinhamento de estrelas, da Terra, do Sol, naquilo que a astronomia chama de ‘fratura escura’. A pulsação do centro da galáxia vai incidir de forma mais intensa na Terra. Podemos ter terremotos e maremotos em função do bombardeio de raios cósmicos”, afirma. “Mas os maias nunca afirmaram que o mundo iria acabar.”

É precisamente nesse ponto que a ciência e os estudos paralelos convergem.

“Existe um ciclo num dos calendários maias de longa duração, que teria fim no dia 21 de dezembro. Mas isso não tem nada a ver com o fim do mundo”, afirma Eduardo Natalino dos Santos, doutor em história pela Universidade de São Paulo especializado em culturas pré-hispânicas.

“O calendário dos maias era concebido em eras que se sucediam ininterruptamente e que duravam um ‘grande ciclo’. Já temos aí um primeiro equívoco: esse conceito de tempo cíclico não combina com o fim do mundo apocalíptico da perspectiva judaico-cristã.”

Eduardo explica que esse calendário de 5200 anos que conhecemos como ‘o’ calendário maia, foi criado e usado durante o período clássico dos maias, dos séculos 2 a 10 a.C e corresponde a apenas um desses ‘grandes ciclos’.

“Essa conta longa, em eras ou ciclos, acabou sendo esquecida. Quando, no século 16, começou-se a falar de previsões maias, na verdade já haviam sido confundidas duas eras, dois grandes ciclos, ou seja, as profecias estavam separadas por 800 anos, mas pareciam dizer a mesma coisa.“ A lenda acabou misturada na história. Ainda assim, as profecias que existem falam de transformações e mudanças, não especificamente de “fim do mundo”, e se referem ao período clássico, quando os maias dominavam, muito antes do período espanhol.”

Resumindo: há uma grande confusão sobre dois documentos. “Quem propaga essa ideia de profecia maia mistura os dois períodos”, diz Eduardo.

“As pessoas buscam nos maias e na astronomia um apoio pseudocientífico para a angústia”, afirma o pesquisador. “Daqui a pouco essa ideia de fim de ciclo volta à pauta através de uma reinterpretação das profecias de Nostradamus ou de um trecho de alguma escritura hindu ou egípcia... É uma busca de respostas para nossa inquietação em relação ao futuro.”

“É da essência humana a percepção de começo e fim”, pontua a filósofa Dulce Critelli, do Instituto Existentia. “Mas, para os cristãos, a ideia de fim dos tempos gera angústia, pela percepção de que haverá um fim e um julgamento das ações de cada um.” Ao se perceber como ser finito, o homem sofre .

“O tempo infinito é da esfera do divino”, explica Dulce citando Heidegger. “E se o tempo dos deuses é infinito, aos homens cabe o desaparecimento”, ela conclui.

Discussões filosóficas à parte, ainda assim, há quem não esteja convencido de que 2012 será tranqüilo.

Patrick Geryl, autor dos livros Como Sobreviver a 2012, O Cataclismo Mundial em 2012, O Código de Órion , vai se mudar para um bunker secreto nas montanhas em setembro de 2012.

“Em 2012, vamos advertir o mundo de que uma supertempestade induzida pelo sol vai desatar um holocausto nuclear – isso é extremamente importante. Televisões francesas e belgas vão começar a transmitir informações sobre o assunto em novembro e dezembro.”

De acordo com a estimativa de Geryl, quem quiser se salvar deve fazer um pé-de-meia de 30 mil euros, para cobrir despesas com equipamento de sobrevivência, comida, livros e outros materiais. As vagas nos bunkers de Geryl estão quase esgotadas, mas, no Brasil, o escritor aposta em altas altitudes. “Todo lugar acima de 3 mil metros de altura na América do Sul é uma opção possível, desde que esteja longe de vulcões”, explica.

O representante comercial Valter Silva Ferreira, 45 anos, baseia-se na Bíblia para justificar sua crença de que 2012 será um ano de grandes catástrofes.

“Pesquiso a Bíblia desde os 13 anos de idade. As principais referências estão no livro de Mateus, quando perguntam a Jesus em que momento começariam a acontecer essas tragédias. E existe essa coincidência com o calendário maia, que marca o fim de um ciclo com grandes destruições. É fato que um grande acontecimento vai ocorrer em função da alteração do eixo da Terra”, afirma.

“Apesar das grandes destruições, não vai ser o fim”, ele avisa, “pesquiso Nostradamus e ele predisse que em 1999 viria o grande rei do terror. Tivemos grandes acontecimentos, mas não foi o fim, certo? Cristo vai voltar a partir de 2012, como descrito no Apocalipse”, acredita Ferreira.

Na internet, Valter Silva Ferreira é conhecido como 'valterarauto' e ele compartilha nas redes sociais suas interpretaçoes dos texto bíblicos.

De fato, outras datas já mexeram com o imaginário coletivo antes, como 2001, quando ficamos todos em suspenso na virada do ano esperando o apocalipse tecnológico, e 2000, o ano da virada do milênio.

Como tantas outras previsões do ‘fim do mundo’, essas também acabaram não se cumprindo.

Sérgio Scabia, editor do Somos Todos Um, um dos maiores portais de espiritualidade da internet, embora não acredite em ‘fim do mundo’, acha que devemos nos preparar para grandes mudanças. Sua visão sobre as perspectivas para 2012, no entanto, é positiva.

“Não vai acontecer nada, além de um ponto de mutação. É o pico de uma experiência, a partir de onde se começa a construir uma nova fase”, afirma.

“Em 2011, a crise foi e está sendo radical: veja o exemplo dos Estados Unidos e da Europa. Depois de tudo isso, é impossível que as coisas continuem a ser como antes. A mudança está sendo e continuará a ser impulsionada pelo inconsciente coletivo e é impossível de controlar.”

Talvez essa grande transformação que nasce e resulta de transformações individuais e do esgotamento de certos padrões e valores, seja, de fato, a mais certa de todas que podemos esperar para 2012.

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